domingo, 31 de agosto de 2014
LER O SI MESMO EM SI MESMO [6]
INTRODUÇÃO
Como fazer isso? Certamente que é fazendo do mesmo modo que se aprende a caminhar, a falar, a ler, a escrever etc. Fazendo, então, é claro.
Numa vertente eu leio as idéias, as teorias do si mesmo em si mesmo. Na outra vertente eu leio as materializações, as práticas do si mesmo em si mesmo.
Na vertente das idéias, das teorias do si mesmo que leio em mim mesmo o espírito teórico se desenvolve preso em si mesmo e se converte em vontade, em energia prática, em atividade sensível a favor do mundo que existe sem ele, ou seja, desenvolve teorias, melhor, autocríticas práticas que explicam, justificam e interpretam adequadamente a realidade mundana, quer dizer, autocríticas práticas que adaptam o espírito teórico à realidade mundana que existe sem ele desenvolvendo interpretações e modelos conformes a ela. E, na vertente das materializações, das práticas do si mesmo que leio em mim mesmo o espírito teórico se desenvolve livre em mim mesmo e se converte em vontade, em energia prática, em atividade sensível contra o mundo que existe sem ele, ou seja, desenvolve teorias, melhor, críticas práticas que contrariam, contestam e transformam efetivamente a realidade mundana, quer dizer, críticas práticas que adaptam a realidade mundana independente desenvolvendo transformações e efetivações sensíveis conformes ao espírito teórico.
Inicialmente aparece de um lado, o espírito teórico, e do outro, a realidade mundana. Em seguida, surge a vontade, a energia prática, a atividade sensível nascida do espírito teórico livre que é voltada contra a realidade mundana independente e aquela que nasce do espírito teórico preso que é voltada contra o próprio espírito teórico ou a favor da realidade mundana independente.
Na verdade, a cisão do espírito teórico e da realidade mundana pode ser resolvida de duas maneiras. Numa, o fim da cisão ou a unidade do espírito teórico e da realidade mundana se faz através da transformação do espírito teórico em realidade mundana ou da conformação da realidade mundana ao espírito teórico. Na outra, o fim da cisão ou a unidade do espírito teórico e da realidade mundana se faz através da conformação do espírito teórico à realidade mundana ou da transformação da realidade mundana em espírito teórico.
Na verdade mais específica, a cisão do espírito teórico e da realidade mundana é a unidade inicial, o ponto de partida e, por isso mesmo, do ponto de vista do espírito teórico, quer dizer, do ponto de vista da subjetividade (o espírito teórico) que, por um lado, se encontra dentro da objetividade (a realidade mundana) que o envolve e circunda e, por outro lado, se encontra fora da objetividade (realidade mundana) que o envolve e circunda por se encontrar em si mesmo na subjetividade (espírito teórico) envolvida e circundada pela objetividade (realidade mundana), se constitui numa unidade instável por ser uma subjetividade que está dentro da objetividade e, desse modo, está fora da objetividade e também por ser uma subjetividade que está fora da objetividade e, desse modo, está dentro da objetividade.
A forma da subjetividade estar dentro da objetividade é estando em si mesma e circundada fora de si mesma pela objetividade, mas, a forma da subjetividade estar fora da objetividade também é estando em si mesma e circundada pela objetividade fora de si mesma.
Então, a forma da subjetividade estar dentro da objetividade é estando em si mesma e circundada fora de si mesma pela objetividade e a forma da subjetividade estar dentro de si mesma também é estando em si mesma e circundada pela objetividade fora de si mesma.
Quando a subjetividade como espírito teórico sai de si como vontade, energia prática, atividade sensível que se afirma na objetividade fora de si que a circunda ela se objetiva dentro da realidade mundana.
Quando a subjetividade como espírito teórico entra em si como vontade, energia prática, atividade sensível que se afirma na subjetividade dentro de si ela se subjetiva fora da realidade mundana.
No primeiro caso, ela faz a passagem do espírito teórico para a realidade mundana, melhor, para a transformação da realidade mundana. E, no segundo caso, ela faz a passagem para a permanência do espírito teórico em si mesma, logo, para a manutenção da realidade mundana que a circunda.
Porém, no primeiro caso, onde há a transformação da realidade mundana pela atividade sensível objetiva do espírito teórico, este, como subjetividade dentro da objetividade, permanece dentro de si mesmo.
E, no segundo caso, onde há manutenção da realidade mundana pela atividade sensível subjetiva do espírito teórico, este, como subjetividade fora da objetividade, permanece dentro de si mesmo.
Em ambos os casos, o espírito teórico como subjetividade permanece dentro de si mesmo. Porém, como atividade sensível, o espírito teórico sai de si mesmo no primeiro caso e entra em si mesmo no segundo caso.
Então, a subjetividade se diferencia por meio da atividade sensível do espírito teórico, quer dizer, por meio da atividade sensível que se volta para fora, para a crítica e transformação da realidade mundana e da atividade sensível que se volta para dentro, para a autocrítica e transformação do espírito teórico. Ora, mas para a atividade sensível se voltar para fora e, portanto, sair livre do espírito teórico é preciso que ela se volte contra permanecer presa no espírito teórico. E, por sua vez, para a atividade sensível se voltar para dentro e, portanto, permanecer presa no espírito teórico é preciso que ela se volte contra sair livre do espírito teórico.
“Eu considero a virada para a não-filosofia duma grande parte da escola hegeliana como um fenômeno que acompanhará sempre a passagem da disciplina para a liberdade.”
A filosofia hegeliana é identificada com a disciplina e a virada desta para a não-filosofia é identificada com a liberdade. Só que esta virada pode ser uma afirmação da filosofia na não-filosofia ou uma afirmação da não-filosofia na filosofia. Pode ser o espírito teórico que sai livre da filosofia e se afirma como crítica e transformação da não-filosofia. E pode ser o espírito teórico que permanece preso na filosofia e se nega como autocrítica e conformação da filosofia à não-filosofia.
O espírito teórico livre em si mesmo é aquele que sai como atividade sensível voltada contra o mundo, quer dizer, é aquele que é levado pela atividade sensível voltada contra a realidade mundana como crítica e como transformação da mesma.
O espírito teórico preso em si mesmo é aquele que entra como atividade sensível voltada contra si mesmo, quer dizer, é aquele que traz o mundo como atividade sensível voltada contra si mesmo como autocrítica e como conformação à realidade mundana.
A atividade sensível voltada contra a realidade mundana carrega o conceito, no caso o conceito da filosofia hegeliana, quer dizer, a dialética, como crítica e transformação da realidade mundana.
A atividade sensível voltada contra o espírito teórico em si mesmo carrega a positividade, no caso a positividade da filosofia hegeliana, quer dizer, o idealismo, como autocrítica e conformação à realidade mundana.
No entanto, a filosofia hegeliana da qual partem ambas atividades sensíveis é o espírito teórico de ambas, logo, ela é o espírito teórico livre em si mesmo e o espírito teórico preso em si mesmo. Ela, portanto, desenvolveu as duas vertentes e, antes que ambas surgissem, foi a unidade que efetivamente realizou o desenvolvimento da crítica e da transformação mas sob a forma da Reforma, quer dizer, da autocrítica do espírito teórico em busca duma interpretação conforme à realidade mundana.
Noutras palavras, a mudança promovida pela Reforma foi uma mudança do espírito teórico católico para o espírito teórico protestante luterano, uma mudança da interpretação da religião cristã, uma mudança das idéias religiosas cristãs, uma libertação dos religiosos cristãos da submissão ao Papa Cristão e à sua Igreja Católica Apostólica Romana. Certamente que esta mudança estava ligada à invenção da imprensa por Gutemberg, bem como por sua publicação da Bíblia. A leitura direta da Bíblia viabilizou a interpretação de Lutero como diretriz do movimento da Reforma, ou seja, criou um corpo de idéias, uma doutrina, um movimento das idéias como um movimento real, o que veio a ser chamado de ideologia e duma ideologia religiosa que se realiza efetivamente como objetivação de suas idéias, quer dizer, é este movimento que está na fonte do idealismo alemão, o que significa dizer na fonte da objetividade ou da positividade do idealismo alemão, quer dizer, na base daquela identidade famosa, segundo a qual, “todo ideal é real e todo real é ideal”. Logo, o “idealismo é real e a realidade é idealista” foi o fio condutor da filosofia de Hegel até o espírito teórico idealista chegar ao saber absoluto, à sua realização máxima enquanto desenvolvimento do espírito, momento a partir do qual o espírito teórico absoluto não mais se desenvolve e, portanto, tampouco a realidade da prática do saber absoluto do espírito, seja esta prática compreendida como a monarquia absolutista prussiana ou como a democracia estadunidense norte-americana. O ponto culminante do idealismo de Hegel também é aquele que afirma o fim da história, logo, afirma o fim da dialética e a eternização absoluta da realidade e, desse modo, afirma o eterno retorno da realidade prática do fim da história.
É esta situação, duma dialética que chegou ao fim e dum idealismo que só pode idealizar o absolutismo prussiano ou o democratismo estadunidense, aquela na qual se encontra a escola hegeliana. Certamente que a direita hegeliana identificará o fim da história (e da dialética) e a realização do saber absoluto com o absolutismo prussiano, o centro hegeliano identificará o fim da história (e da dialética) e a realização do saber absoluto com combinações do absolutismo prussiano e do democratismo estadunidense (até porque em ambos o protestantismo é presença forte e decisiva) e, enfim, a esquerda hegeliana identificará o fim da história (e da dialética) bem como a realização do saber absoluto com o democratismo estadunidense.
Esta última tendência, a da esquerda hegeliana, é a que mais deseja a positividade do fim da história e da realização do saber absoluto, já que o status quo da Alemanha permanece sendo o absolutismo prussiano e nele o democratismo estadunidense existe muito mais como o ideal que é real, isto é, como o movimento dos hegelianos de esquerda que são a realidade (ou a ideologia) que quer o democratismo estadunidense, do que como o real que é ideal, ou seja, como o movimento da realidade do absolutismo prussiano que é a idealidade (ou a positividade/a materialidade) do querer efetivamente a democracia estadunidense na Alemanha. A esquerda hegeliana quer, portanto, o último movimento da dialética que é a afirmação da sua ideologia democrática como negação do absolutismo prussiano, o qual, por sua vez, desse modo, em troca, assume a “negação” da sua realidade absolutista prussiana como afirmação da materialidade democrática.
Mas, nessa realização do saber absoluto e do fim da história houve uma quebra da dialética idealista, de modo que apesar do ideal ser real, no caso movimento ideológico democrático, e de o real ser ideal, movimento da materialidade democrática absolutista prussiana, eles se encontram cindidos e, desse modo, o ideal permanece limitado ao seu ser realmente apenas ideologia e o real permanece limitado à sua consciência de ser realmente apenas materialidade. De um lado, cada vez mais, se concentra a ideologia democrática e, do outro, cada vez mais, a materialidade absolutista prussiana da democracia.
E, no entanto, o lado ideológico permanece querendo se apoderar do lado material para nele se realizar por completo e, por sua vez, o lado positivo permanece querendo se apoderar do lado ideológico para nele se idealizar por completo. A ideologia democrática quer ser a realidade do poder político prussiano e a realidade absolutista prussiana quer ser o ideal da ideologia democrática.
Ambos os lados estão em luta pelo poder de se afirmar um no outro. A ideologia democrática quer deixar de ser ideologia e se tornar prática e a prática absolutista prussiana quer deixar de ser prática e se tornar ideologia.
E é o querer virar prática que abrange os hegelianos de esquerda e Marx. E o problema do virar prática ou do vir a ser real é precisamente a compreensão idealista desta dialética. Na compreensão idealista o ideal se torna real e o real se torna ideal. E, no entanto, é precisamente isto que se quebrou de modo que o ideal real não consegue sair de sua condição de ideologia e o real ideal não consegue sair de sua condição de poder positivo. De contrários que, durante toda a vigência da dialética idealista, se transformavam um no outro, eles, com a chegada do saber absoluto e do fim da história, passaram a contrários que resistem um ao outro e persistem em permanecer em si mesmos. Na vigência da dialética idealista, o lado ideal real, a ideologia se apodera do lado real ideal, o poder positivo, e, desse modo, este último se transforma em ideal e, por usa vez, o lado real ideal, o poder positivo se apodera da ideologia, o lado ideal real, e, desse modo, esta última se transforma em real. Com a quebra deste vir a ser a insistência nesta via idealista do vir a ser implica em cada lado sair desta persistência no seu ensimesmamento, o que, na condição de permanência em si mesmos na qual se encontram, significa que a ideologia passa a ter por ideação o poder positivo, logo, cede à prática do poder positivo que quer se tornar ideologia e que, por outro lado, o poder positivo passa a ter por prática a ideologia, logo, cede à realização da ideologia que quer se tornar poder positivo. Cede significa que, ainda que permaneça em si mesmo, entra em contradição consigo mesmo e passa a desenvolver uma nova ideologia, no caso a ideologia positivista, quer dizer, uma prática positiva ideológica, e um novo poder positivo, no caso o poder positivo negativista, quer dizer, uma ideologia ilusionista.
A solução da quebra do vir a ser é encontrar outra via para o vir a ser e é a partir da compreensão da quebra como sendo ela própria parte integrante da novidade do vir a ser que deixou de ser filosofia (ou prática) idealista e passou a ser prática (ou filosofia) materialista, de modo que os contrários não são mais dois lados do idealismo ou da filosofia e sim dois lados do mundo ou do materialismo. Nestas novas condições os contrários são dois lados do mundo, são dois reais que querem a supressão um do outro, que querem a dissolução um do outro, não querem fazer qualquer concessão, eles não querem sair de si mesmos e querem sim é que seus si mesmos saiam percorrendo livres onde antes estavam impedidos de percorrer.
É aqui que aparece a compreensão de Marx. Ele que seguiu Hegel no aprendizado da dialética compreendeu que o idealismo estava ultrapassado e era uma limitação do desenvolvimento da dialética, que esta não era mais tão somente o vir a ser do espírito e era sim o vir a ser da atividade sensivelmente humana, da prática, da matéria e não mais tão só da idéia, da teoria, do espírito. O ponto culminante do idealismo de Hegel, o saber absoluto e o fim da história do espírito, era igualmente o início do saber relativo e da continuidade da história da atividade sensivelmente humana, quer dizer, o início da vigência da prática materialista como via mais ampla do desenvolvimento da dialética.
Por isso que a dialética que ele aprendeu com Hegel é o conceito que quer se apoderar da atividade sensivelmente humana, logo, quer ser ideologia da atividade sensivelmente humana, quer dizer, ideologia da prática e não mais exclusivamente do poder positivo. Porém, quer ser ideologia da prática humana para se apoderar do poder positivo e suprimir o poder positivo. Não quer, como na tradição do idealismo alemão, fazer uma Reforma ou elevar ao poder positivo uma nova interpretação. Pelo contrário, quer, como nas novidades do materialismo inglês (inclusive estadunidense) e francês, fazer uma Revolução ou afirmar o poder de classe duma nova transformação.
Na atualidade é esta dialética materialista que está em baixa, que está tendo uma quebra, por ser aquela cujas realizações estão sendo todas sistematicamente dissolvidas. O materialismo está quebrado?! Este retorno ao Hegel do fim da história e do saber absoluto feito por Fukuyama indica o retorno e a vigência do idealismo ou, ao contrário, indica a necessidade de retomar o materialismo que foi perdido no curso da história, ou, finalmente, indica que nem o idealismo nem o materialismo são atualmente as vias do vir a ser, logo, a dialética teria por fio condutor uma outra prática que não é idealista nem é materialista, seria isso?!
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