sábado, 23 de agosto de 2014

Continuando na busca de si mesmo [4]




O espírito teórico, que se tornou livre em si mesmo, seguindo uma lei psicológica, sai como vontade do reino das sombras do Amênti e se volta como atividade sensível contra a realidade mundana que existe sem ele.


O espírito teórico, que se tornou prisioneiro em si mesmo, seguindo uma lei psicológica, entra como vontade no reino das sombras do Amênti e se volta como atividade sensível contra a realidade espiritual que existe nele mesmo.


O espírito teórico liberto em si mesmo é aquele que se encarnou por completo como vontade viva da atividade sensível voltada contra a realidade mundana que existe sem ele.


O espírito teórico prisioneiro em si mesmo é aquele que não se encarnou por completo e no qual a vontade da realidade mundana entra como atividade sensível espiritual que se volta contra a realidade espiritual que existe nele mesmo.


O liberto é aquele que conseguiu a afirmação plena de si mesmo transformando a realidade mundana. E o prisioneiro ou escravo é aquele que conseguiu a afirmação plena da realidade mundana variando ou mudando a interpretação de si mesmo.


Ambos, tanto o liberto e afirmador ou senhor de si, quanto o prisioneiro e negador ou escravo de si, estão relacionados ou referenciados ao espírito teórico em si mesmo, ou seja, à filosofia ou ao sistema teórico de um mestre. E a relação ou referência de Marx e dos jovens de esquerda de sua época é a Hegel.


Aqui ocorre algo significativo.


Marx se tornou hegeliano contra sua vontade, melhor, foi só depois de ter escrito um sistema metafísico contra Hegel e ter descoberto que seu sistema terminava onde o de Hegel começava, ou seja, após ter descoberto que se encontrava atrasado no espaço-tempo em relação a Hegel se situando aquém dele, então, descobriu que tinha de aprender com Hegel, com o espaço-tempo dele situado além do seu atraso e que só poderia avançar para além de Hegel aprendendo com Hegel.


Marx critica os jovens hegelianos por terem aderido “com entusiasmo a todas suas determinações unilaterais” e argumenta que “se eles foram realmente seduzidos pela ciência que receberam inteiramente pronta ao ponto de se assenhorear dela com uma confiança ingênua e não crítica, então manifestam sua falta de consciência ao reprovar o mestre por nutrir uma intenção escondida detrás de sua pesquisa, logo ele para quem a ciência não estava inteiramente feita, mas em vir a ser, ele cujo coração espiritual mais íntimo não cessa de bater enquanto não tiver atingido os limites extremos desta ciência. Eles lançam antes a suspeita sobre eles-mesmos e fazem crer que antes não levavam a coisa a sério; é seu próprio estado passado que eles combatem, parecendo atribuí-lo inteiramente a Hegel, mas esquecem, fazendo isso, que ele estava numa relação imediata e substancial com seu sistema, enquanto que eles estão, em relação a este sistema, reduzidos a uma relação de reflexão”.


“Que um filósofo cometa esta ou aquela inconsequência sob o império desta ou daquela acomodação é pensável; ele mesmo pode ter consciência disso. Mas aquilo de que ele não tem consciência é que a possibilidade desta acomodação aparente tem sua raiz mais íntima numa insuficiência ou numa compreensão insuficiente do seu princípio ele mesmo. Então, se um filósofo tiver realmente se acomodado, seus discípulos deverão explicar a partir da consciência íntima e essencial deste filósofo aquilo que revestia para ele mesmo a forma duma consciência exotérica. Desta maneira aquilo que aparece como um progresso da consciência é ao mesmo tempo um progresso da ciência. Não se suspeita da consciência particular do filósofo, mas se constrói a forma essencial da sua consciência, elevando-a a uma figura e significação determinadas e assim, ao mesmo tempo, se a ultrapassa”.


Contrariado, Marx se tornou discípulo de Hegel, enquanto que, entusiasmados, os jovens de esquerda se tornaram discípulos de Hegel.


Estes se perceberam contrariados pelos sistema de Hegel e o acusaram de ter intenções ocultas, de ser mal-intencionado. Enquanto Marx se mostra entusiasmado com o filósofo “cujo coração espiritual não cessa de bater até que tenha atingido os limites extremos de sua ciência”.


Os jovens hegelianos de esquerda acusaram Hegel de ter sido inconsequente por ter se acomodado e por ter consciência disso, de modo que passaram não só a suspeitar mas também a rejeitar a consciência particular do filósofo.


Marx aceitou que Hegel tenha sido inconsequente por ter se acomodado e aceitou também que ele tivesse consciência disso, mas atribuiu a inconsequência da acomodação e a própria consciência dela ao desenvolvimento insuficiente ou à falta de consciência suficiente do seu próprio princípio. E, desse modo, passou a explicar a inconsequência da acomodação e a própria consciência do filósofo da inconsequência da acomodação a partir da compreensão e aceitação da consciência particular do filósofo. Assim, a consciência íntima e essencial do filósofo ficou devidamente caracterizada como uma figura do idealismo limitada à significação idealista que sua época teve da dialética. A inconsequência da acomodação e a própria consciência do filósofo desta inconsequência da acomodação se deviam ao idealismo próprio da consciência particular, íntima e essencial do filósofo a respeito do seu princípio, a dialética. E, para esta consciência idealista da dialética a consciência materialista era uma forma exotérica. E Marx, portanto, tratou de assumir e desenvolver a consciência, a compreensão ou o desenvolvimento materialista da dialética ou do próprio princípio do qual Hegel partia.


Os jovens hegelianos de esquerda também se voltam para a não-filosofia, para a prática, para o materialismo por meio do desprezo da consciência idealista de Hegel e, portanto, também querem a atividade sensível, materialista, prática, positiva. E é aqui que repetem a inconsequência da acomodação de Hegel num grau muito maior que o do próprio Hegel. A inconsequência da acomodação de Hegel da qual ele próprio tem consciência é o encontro duma pedra no caminho, melhor, de algo positivo, prático, material, sensível que resiste e impede o avanço consequente de sua dialética idealista e que, por isso, ele adota a inconsequência e nela se acomoda.


Marx se volta para a não-filosofia, para a prática, para o materialismo por meio da aceitação e compreensão da consciência idealista de Hegel como uma limitação da dialética que estanca ao encontrar uma pedra no caminho, quer dizer, ao encontrar algo positivo, prático, material, sensível que resiste e impede o avanço consequente da dialética. Ora, esta pedra, positividade, prática, materialidade, sensibilidade que impede o avanço da dialética é uma limitação da consciência idealista da dialética, portanto, o desenvolvimento materialista da dialética vai criticar, dissolver ou transformar a pedra, a positividade, a prática, a materialidade, a sensibilidade de forma irresistível e liberadora do avanço consequente da dialética no materialismo.


Enquanto os jovens hegelianos de esquerda querem se voltar para a não-filosofia desenvolvendo a positividade (aceitação/acomodação) e rejeitando a negatividade (crítica), já Marx se volta para a não-filosofia desenvolvendo a crítica (negatividade) e rejeitando a positividade (acomodação/aceitação).


São duas concepções de prática que se apresentam. Uma repete a limitação de Hegel e, portanto, repete a efetivação dos diversos momentos do sistema de Hegel. A outra cuida de superar a limitação de Hegel e, portanto, avança na realização libertadora da totalidade do sistema de Hegel.


No entanto, é preciso compreender que, do ponto de vista materialista, o espírito teórico, que se tornou livre em si mesmo, se converteu em vontade, energia prática, atividade sensível voltada contra a realidade mundana que existe sem ele, ou seja, é preciso compreender que, do seu ponto de vista, não se trata mais do desenvolvimento do espírito e sim do desenvolvimento livre da atividade sensível transformadora do mundo.


Por sua vez, é preciso compreender que, do ponto de vista idealista, o espírito teórico, que permanece preso em si mesmo, deixou a realidade mundana, que existe sem ele, se converter em vontade, energia prática, atividade sensível espiritual voltada contra o espírito teórico existente em si mesmo, ou seja, é preciso compreender que, do seu ponto de vista idealista, se trata sim, mais uma vez, de um desenvolvimento do espírito, mas de um outro desenvolvimento do espírito que interprete de maneira mais fiel a realidade mundana aceitando-a tal e qual, como pedra no caminho e fim da dialética.


Para o materialista o que importa é transformar o mundo, quer dizer, é o livre desenvolvimento da atividade sensivelmente humana, da prática transformadora e não subjetiva, logo, quer dizer, objetiva, material.


Para o idealista o que importa é interpretar o mundo de diferentes maneiras, quer dizer, é prender-se ao desenvolvimento da atividade sensível do espírito, da interpretação teórica e não objetiva, logo, quer dizer, subjetiva, ideal.


Mesmo assim, só alcança o desenvolvimento do ponto de vista materialista quem liberta o espírito teórico em si mesmo, bem como só consegue o desenvolvimento do ponto de vista idealista quem aprisiona o espírito teórico em si mesmo.


Liberto e senhor de si mesmo versus prisioneiro e escravo de si mesmo. Hegel era liberto e senhor de si mesmo porque na sua época o idealismo era o desenvolvimento imediato e substancial da dialética, já seus discípulos estão numa outra época e nesta o idealismo não é mais o desenvolvimento imediato e substancial da dialética, até porque eles se encontram numa relação de reflexão em relação a Hegel, portanto, precisam pela reflexão e mediação de Hegel alcançar o materialismo como nova forma de desenvolvimento imediato e substancial da dialética.


A época atual, na qual os discípulos de Marx estão todos, em geral, em maior ou menor grau, retrocedendo em todas as aplicações de suas propostas de transformação do mundo capitalista para a conformação e desenvolvimento do mundo capitalista, é adequada para perguntar se todos estes discípulos de Marx tiveram a mesma atitude que tiveram os jovens hegelianos em relação a Hegel ou, pelo contrário, todos eles tiveram a mesma atitude que teve Marx em relação a Hegel?!


Certas determinações da consciência particular de Marx foram desprezadas em nome da urgência imposta pela positividade?! Ou, ao contrário, certas determinações da consciência particular de Marx foram aceitas e compreendidas de modo que foram ultrapassadas pelas determinações da nova consciência particular mais elevada que superou a ciência de Marx ou da época de Marx?!


Se pode citar aquilo que foi proposto primeiro por Edward Bernstein e chamado de reformismo e também de revisionismo e que atualmente desde o neoliberalismo, a globalização e “O Fim da História”, de Francis Fukuyama, parece vigorar por toda parte fazendo todos os discípulos que, até há pouco, aplicavam as propostas de transformação do capitalismo retrocederem para a conformação e desenvolvimento do capitalismo.


Se pode citar ainda aquilo que foi chamado de ultra imperialismo por Karl Kautsky, em oposição ao que foi chamado de imperialismo por Lênin & outros, como estando em vigor por toda parte junto com o neoliberalismo, a globalização, a superpotência (“pensamento único”) dos EUA etc.


Se pode citar ainda o próprio Marx por ter dito que suas propostas de transformação só seriam realizáveis nos países de capitalismo desenvolvido e que quando fossem aplicadas nos países de baixo desenvolvimento capitalista teriam por resultado o retorno do desenvolvimento acelerado do capitalismo, exceto no caso de se combinarem com a aplicação simultânea em países de capitalismo desenvolvido.


Se pode citar ainda o próprio Marx por ter dito que a ditadura revolucionária do proletariado era o meio de transição que levaria do capitalismo ao comunismo. E citar ainda que, para ele, a ditadura revolucionária do proletariado era um regime que destruía a máquina do Estado e que, portanto, se desenvolveria dissolvendo o Estado e não superdesenvolvendo o Estado como ocorreu nos ditos países do socialismo realmente existente.


Se pode citar ainda o próprio Marx por ter dito que a democracia, o regime democrático era concebido por ele como o último estágio antes do advento do que chamava de ditadura revolucionária do proletariado e que era um regime de participação social direta muito intensa e que destruía a máquina do Estado e toda participação social indireta, ou seja, era um aprofundamento da democracia ou era uma democracia muito mais efetivamente completa.


Porém, se o que se quer é conquistar o espírito teórico livre em si mesmo e, portanto, transformar o mundo, então é preciso desenvolver suficientemente ou compreender suficientemente o próprio princípio do qual se parte.


E, aqui, é possível optar, dada a distância no espaço-tempo, não mais pela compreensão da consciência particular do filósofo que forneceu o princípio, ou seja, é possível optar não mais pela compreensão de Hegel ou de Marx, mas sim pela compreensão da sua própria consciência particular, quer dizer, compreendendo o que é uma pedra no caminho, uma positividade, enfim, o que é transformável e de que forma.


Certamente que, desse modo, apenas se realizará a transformação de um momento ou de um aspecto da sua própria consciência particular, ou seja, se cairá no caminho dos jovens hegelianos de esquerda que, se desviando da reflexão, procuravam cortar caminho para a realização imediata, ingênua e não crítica de suas vontades.


Porém, também será igualmente possível desenvolver a compreensão de sua própria consciência particular através da reflexão daquilo que se encontra fora da consciência e que se visa transformar para ser liberto e senhor de si mesmo.


As duas vias se apresentarão por todo lado, por toda parte, nas mais diversas situações, incluindo aí, as menores e menos importantes, ou seja, o liberto e senhor de si mesmo versus o prisioneiro e escravo de si mesmo poderão surgir nas mais inesperadas e surpreendentes ocasiões, por isso que Nietzsche se faz presença incontornável na atualidade, já que ele não se ocupa com o desenvolvimento de um sistema social como, por exemplo, faz Marx, mas, pura e simplesmente, em afirmar onde puder o ser liberto e senhor de si mesmo bem como superar onde puder o ser prisioneiro e escravo de si mesmo. E, nesse sentido, o problema do si mesmo está permanente e diretamente posto por Nietzsche todo o tempo e ao alcance de qualquer um. Ainda que com Nietzsche exista, por sua vez, um novo problema, como observou Francis Fukuyama, e que é o problema do reconhecimento, ou seja, a exigência de ser considerado liberto e senhor de si mesmo pelo outro, logo, também de ser liberto e senhor do outro. E, com isso, retorna o problema da cisão do espírito teórico prisioneiro em si mesmo.


Apesar disso tudo, não é difícil perceber Nietzsche sendo usado, na atualidade, para promover espíritos teóricos livres em si mesmos e Marx sendo usado, na atualidade, para promover espíritos teóricos prisioneiros em si mesmos. O que leva a pensar que uma filosofia sem um sistema na atualidade permite que se chegue mais diretamente à liberdade, enquanto que uma filosofia com um sistema na atualidade impõe mais diretamente a prisão. Me refiro ao nietzschiano Foucault que, antes de morrer, se preocupou em deixar como legado o “cuidado de si”, enquanto que o marxista Althusser, antes de morrer, tratou de deixar como legado a “loucura” ou o “não cuidado de si” matando sua mulher. Com Foucault, Nietzsche sai do asilo de loucos e adentra como Marx no cuidado de si ou na emancipação de si, enquanto que, com Althusser, Marx entra no asilo de loucos e sai como Nietzsche do cuidado ou emancipação de si exigindo, mesmo na loucura, o reconhecimento de si.


É chegada a hora de olhar para o problema nele mesmo, isto é, em si mesmo e sem recorrer a Marx, Nietzsche, Foucault, Althusser. É hora de ousar e, por isso mesmo, de parar de escrever para cuidar de ler o si mesmo em si mesmo e, depois, voltar a escrever para cuidar de ser si mesmo em si mesmo.



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