domingo, 17 de agosto de 2014

Não tenho para quem escrever - (texto completo) - [1]



Não tenho para quem escrever, melhor, com quem me corresponder. Eu quando escrevo para alguém eu não escrevo para alguém, acabo fazendo algo do tipo escrever "para todo mundo e ninguém". E, até agora, não encontrei quem também escreva "para todo mundo e ninguém". Solidão. Parece que preciso aprender a escrever "para mim e alguém". Com efeito, escrever para se corresponder com todo mundo é escrever para se corresponder com ninguém, porque, afinal, quem é todo mundo? Como definir quem é todo mundo? E, por sua vez, quem é ninguém? Ninguém?! Ninguém, em princípio, é nenhum alguém, é o vácuo. E todo mundo? Todo mundo, em princípio, é qualquer um, é um pleno indefinido por ser uma pluralidade de plenos, um excesso. Ninguém corresponde ao vazio e todo mundo corresponde a totalidade dos átomos. Ninguém e todos os alguéns se correspondem, um pela falta e o outro pelo excesso. São duas abstrações absolutas. Ninguém é o espaço abstrato absoluto e todo mundo é o tempo abstrato absoluto. Mim, em princípio, é um eu, é um pleno definido. Alguém, em princípio, é um eu, é um pleno definido, melhor, é um outro eu, é um outro pleno definido. São duas concreções relativas. Mim é espaço-tempo concreto relativo e alguém é outro espaço-tempo concreto relativo. Mim e alguém se referem a algo comum, melhor, a algo que é o mesmo e que é diferente. Mim e alguém se relacionam, se correspondem. Então preciso aprender a escrever para mim para poder me corresponder com alguém ou aprender a escrever para alguém para que possa se corresponder comigo.

Aí está presente o problema do totalitarismo (todo mundo) e do niilismo (ninguém), quer dizer, o problema da desmedida ou loucura presente na pretensão de ser ação universal (escrever para todo mundo e ninguém). Também está presente o mecanicismo, melhor, a teoria física da mecânica.


Aí está presente também o problema do liberalismo (mim) e do comunismo (alguém), quer dizer, o problema da justa medida ou saúde presente na pretensão de ser ação singular (escrever para mim e alguém). Por sua vez, também está presente o vitalismo, melhor, a teoria física da relatividade.


Todo mundo: simples átomos indefinidos se entrechocando na guerra de todos contra todos.


Ninguém: o simples vazio entre os átomos indefinidos.


Mim: simples átomo definido em si mesmo (e para si mesmo) como indivíduo-força humana de trabalho.


Alguém: encontro de outro simples átomo definido (em si mesmo e) para si mesmo como outro indivíduo-força humana de trabalho em associação, sociedade, comunidade, num campo ou mundo exclusivo do encontro dos átomos entre si, quer dizer, do átomo com o (outro) átomo, encontro consigo mesm-o-utro.


Mim é um ser individual e sua consciência. Alguém também é um outro ser individual e sua consciência. Logo, na verdade, é no encontro de Mim com Alguém, de um ser individual humano com outro ser individual humano que vem à tona a consciência, tanto de Mim quanto de Alguém - aliás, talvez, por isso mesmo que seja con sciência no sentido de com ciência, ou seja, a ciência é sempre de alguma realidade, quer dizer, é sempre com ciência/consciência -, de modo que ensimesmados e parasimesmados Mim e Alguém como meros seres existentes correspondem a Todo mundo e Ninguém e só quando outro dentro de si e outro em frente de si Mim e Alguém como simples consciências essenciais correspondem a Mim e Alguém.


Donde resulta que se quero escrever para Mim e Alguém, quero correspondência, então preciso começar escrevendo para Mim na qualidade de consciência essencial e não de mero ser existencial, o que significa me relacionar com o outro invisível dentro de mim e o outro visível na percepção de mim. Ou seja, antes de tudo preciso ser Mim e não Todo Mundo para poder vir a me corresponder com Alguém e não com Ninguém.


Ser Mim: o que é? Ser com ciência/consciência. Ora, ser com ciência é ser afirmativo, melhor, é ser com serenidade, ser com coragem, ser com sabedoria.


Como ser Mim? Fazendo ciência de Mim, melhor, escrevendo para Mim. Porque só assim poderei vir a escrever para Alguém, ou seja, antes é preciso ser Alguém-Mim para poder escrever para Ti-Alguém-Alguém.





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