domingo, 24 de agosto de 2014
Para poder ler o si mesmo em si mesmo [5]
“É chegada a hora de olhar para o problema nele mesmo, isto é, em si mesmo e sem recorrer a Marx, Nietzsche, Foucault, Althusser. É hora de ousar e, por isso mesmo, de parar de escrever para cuidar de ler o si mesmo em si mesmo e, depois, voltar a escrever para cuidar de ser si mesmo em si mesmo.”
Vamos ler tudo que já escrevemos sobre o si mesmo e tentar resumir para poder usar na atividade de ler o si mesmo em si mesmo.
Hegel chegou com sua dialética do idealismo objetivo ao espírito absoluto e, desse modo, ao fim do desenvolvimento do espírito. Chegou também à aceitação da monarquia absoluta prussiana como fim da história, mas Fukuyama defende, a partir da leitura de Kojève, que o fim da história para Hegel era a democracia dos Estados Unidos. Pode-se supor que Hitler foi o último defensor do absolutismo prussiano porque perdeu a guerra para a democracia estadunidense e, se supor também, que, desse modo, se resolve a dúvida que Hegel deixou para seus leitores quanto ao fim da história coincidente com o saber absoluto do espírito ser o absolutismo prussiano ou ser a democracia estadunidense.
Marx, por exemplo, na sua “Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel” e na “Questão Judaica”, diz que a Filosofia do Direito de Hegel, uma obra do espírito teórico alemão, é a única realidade alemã contemporânea às realidades das sensibilidades práticas efetivamente existentes na França, na Inglaterra e nos Estados Unidos, portanto, apenas o mundo dos sonhos do espírito teórico do idealismo objetivo de Hegel é contemporâneo à realidade dos países do mais avançado desenvolvimento histórico e, por isso, também, toda a restante realidade alemã é anacrônica.
Marx queria que este avanço presente na Filosofia do Direito de Hegel saísse da sua morada no espírito teórico e entrasse na realidade alemã se efetivando nela como realidade contemporânea por meio da supressão do anacronismo e transformação de sua realidade em contemporânea. O que ele não admitia era que o espírito teórico da filosofia hegeliana permanecesse fixo em sua moradia em si mesmo, permanecesse uma realidade do mundo dos sonhos ou das idéias do espírito alemão, portanto, acessível à consciência teórica do alemão mas inteiramente separado de sua consciência prática, de sua realidade sensível, material.
Foi aí que Marx analisou a realidade contemporânea da França, da Inglaterra e dos Estados Unidos comparando-a com a da Alemanha e descobriu que nos países de realidades sensíveis contemporâneos à realidade espiritual alemã existiam atividades sensíveis práticas que materializavam tudo aquilo que era apenas idealizado na Alemanha. Tais atividades sensíveis eram praticadas pelas classes sociais através de lutas políticas sociais. Ele descobriu que a classe proletária nos países de avançado desenvolvimento estava promovendo a efetivação sensível da mais avançada materialização social, quer dizer, a efetivação sensível duma nova sociedade. Comparou as classes existentes nos países avançados com as classes existentes na Alemanha e descobriu que a Alemanha precisava tornar realidade sensível a filosofia do direito de Hegel, quer dizer, realizar efetivamente o direito da sociedade capitalista da França, da Inglaterra e dos Estados Unidos, ou seja, efetivar a revolução burguesa,e que não podia contar com a classe burguesa para fazê-lo. Aliás, não podia contar com nenhuma classe da sociedade para fazê-lo e só podia contar com uma classe que não era considerada uma classe da sociedade, o proletariado, logo, precisamente aquele que, nos países avançados, estava efetivando a revolução proletária socialista, seria capaz de realizar efetivamente a filosofia do direito de Hegel ou a revolução burguesa na Alemanha.
O proletariado alemão era a atividade sensível capaz de encarnar na realidade do mundo o espírito teórico da filosofia do direito de Hegel. Esta encarnação foi vista por Marx como passagem do espírito teórico preso em si mesmo e que, por isso, só se encarna como espírito teórico, como realidade objetiva do mundo das idéias ou do idealismo, para o espírito teórico livre em si mesmo e que, desse modo, se encarna como atividade sensível, como realidade objetiva do mundo das materializações ou do materialismo.
O proletariado, a classe ameaçadora da sociedade burguesa porque identificada como capaz de encarnar o espectro do comunismo que rondava a Europa, era a classe que efetivamente realizaria a revolução burguesa na Alemanha.
E o que fez o proletariado na época da Associação Internacional dos Trabalhadores? Uma revolução proletária? Depende. De modo geral, a Internacional levou ao reconhecimento legal dos sindicatos e, principalmente, dos partidos dos trabalhadores. De modo específico, a Internacional só foi identificada como propiciadora da revolução proletária na França com a efêmera e simbólica Comuna de Paris. Aliás, o mesmo veio a ocorrer na Rússia com os efêmeros e simbólicos Sovietes.
Então, de um modo geral, a atividade sensível do proletariado permaneceu sendo efetivamente capaz de encarnar a revolução burguesa ou a realização da filosofia do direito de Hegel. E, de modo específico, como atividade sensível do proletariado voltado para a encarnação do seu próprio espírito livre, quer dizer, da sua própria revolução proletária, esta classe, melhor, esta atividade sensível tem mostrado que seu espírito teórico está preso em si mesmo, mas, por outro lado, o proletariado é compreendido e concebido antes de tudo como uma atividade sensível e não como um espírito teórico, mais claramente: o proletariado é concebido como espírito teórico livre em si mesmo, logo, efetivamente como atividade sensível, prática e encarnada nas materializações do materialismo e não nas idéias do idealismo. Aliás, o espírito teórico preso em si mesmo, o idealismo hegeliano, por exemplo, concebe teoricamente aquilo que existe sensivelmente na França, Inglaterra e Estados Unidos, ou seja, seu ideal foi real antes nestes países e, portanto, seu ser sensível real precedeu sua consciência espiritual racional.
O importante é notar que a atividade sensível proletária tem encarnado muito mais o espírito teórico livre em si mesmo burguês do que o espírito teórico livre em si mesmo proletário. A atividade sensível proletária tem encarnado o espírito teórico livre em si mesmo burguês e mantido desencarnado o espírito teórico preso em si mesmo proletário.
Este problema foi refletido por Edward Bernstein como uma mudança feita pelo próprio proletariado que estava mudando da atividade industrial para a atividade de serviços e, assim, ia abandonando as cooperativas de produção e se entregando às cooperativas de consumo, ou seja, abandonando a socialização dos meios de produção e se concentrando na socialização dos meios de consumo. E essa mudança também era uma mudança da revolução socialista para a reforma socialista, porque a socialização dos meios de produção exigia uma mudança revolucionária na sociedade capitalista baseada na apropriação privada dos meios de produção, enquanto que a socialização dos meios de consumo exigia apenas uma reforma na sociedade capitalista. Bernstein concluiu que o proletariado tinha mudado o programa socialista dum programa revolucionário para um programa reformista, mudado do socialismo revolucionário para o socialismo evolucionário ou reformista por ter adotado todo o ideário democrático do liberalismo burguês adaptando-o aos seus interesses de mudanças sociais progressivas.
Karl Kautsky criticou Edward Bernstein a partir da consideração feita por Marx e Engels, segundo a qual, a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante, logo, o dominante é a atividade sensível proletária encarnar o espírito teórico livre burguês em si mesmo. E, a seu ver, como explicitaram Marx e Engels numa passagem do Manifesto, é a fração burguesa dos ideólogos que cai nas fileiras do proletariado que traz a ciência para o desenvolvimento de sua prática revolucionária. Kautsky defendeu que cabia aos intelectuais saídos da burguesia e organizados no partido dos trabalhadores a tarefa de esclarecer cientificamente e de dirigir politicamente tanto os trabalhadores filiados ao partido quanto aqueles influenciados pelo partido.
Lênin, fazendo uso da posição de Kautsky, desenvolveu o partido como organização dos revolucionários profissionais, ou seja, o partido se diferenciava nitidamente dos sindicatos e outras organizações criadas pelos trabalhadores, porque tanto uns quanto outras eram apropriados para o exercício das atividades espontâneas do proletariado, as quais, em geral, eram economicistas, mas, em determinadas ocasiões, também podiam ser revolucionárias, porém, revolucionárias de caráter espontâneo, porque, afinal, o proletariado é a classe social espontaneamente revolucionária. Já a organização dos revolucionários profissionais era uma organização das atividades revolucionárias de caráter refletido, das atividades revolucionárias planejadas e praticadas profissionalmente. A organização dos revolucionários profissionais se constituía num Estado-Maior dos revolucionários profissionais que cuidavam de desenvolver todas as capacidades e de satisfazer todas as necessidades da revolução, do processo revolucionário. Desse modo, o espírito teórico livre em si mesmo se encarnava como vontade, energia prática, atividade sensível do revolucionário profissional do partido proletário socialista. Não se tratava mais de ser simplesmente a atividade sensível proletária ou de um trabalhador, a respeito do qual teorizou Bernstein, nem de ser simplesmente a atividade sensível da fração dos ideólogos do partido proletário, porque agora se tratava de ser a atividade sensível do revolucionário profissional do proletariado. Originalmente o revolucionário profissional podia ser um trabalhador proletário ou um membro da fração dos ideólogos proletários, porém, só quando se tornava um profissional da revolução que passava a participar do Estado-Maior da revolução ou da organização dos revolucionários profissionais, isto é, do partido revolucionário do proletariado.
O partido, a partir de Lênin, pretendeu ter solucionado o problema do desvio espontâneo do proletariado para a ideologia dominante capitalista. No entanto, por mais revolucionárias que tenham sido as ações dos revolucionários profissionais, do Estado-Maior da revolução, do partido profissional revolucionário do proletariado em nada impediram que as revoluções que se efetivaram se desenvolvessem no rumo do retrocesso ao capitalismo e que nelas as organizações espontâneas do proletariado, como, por exemplo, os sovietes da revolução russa, fossem efêmeras e meramente simbólicas.
Permanece sem solução o problema do espírito teórico do proletariado em si mesmo. A ideologia dominante tem mostrado que o proletariado ter encarnado com muita facilidade e habilidade o espírito teórico livre em si mesmo da burguesia e também o espírito teórico livre em si mesmo do reformista, da fração dos ideólogos, do revolucionário profissional, do anarquista e também da direita fascista, nazista, enfim, tal qual aparece no Manifesto do Partido Comunista, são vários os espíritos que chamam o proletariado para encarnar a luta de classes, mas, por sua vez, também é dito no Manifesto que só quando o proletariado organiza a si mesmo em classe é que ele também se organiza em partido. E ele se organiza em classe quando, por exemplo, luta pela redução da jornada de trabalho e quando, por exemplo, a conquista, porque, durante a luta, organiza sua união em classe e porque, com a conquista da redução da jornada de trabalho, libera parte considerável do tempo dos trabalhadores para a sua organização em partido.
A disciplina da burguesia, a economia política, se tornou o principal foco da crítica de Marx e Marx se tornou a principal fonte da ciência revolucionária do proletariado. A realidade mundana capitalista se expressa na economia política e o espírito teórico de Marx livre em si mesmo se converte em vontade, em energia prática, em atividade sensível voltada contra a ou em crítica da realidade mundana que existe sem ele. No entanto, esta atividade sensível crítica se identifica com a atividade sensível prática do proletariado e adota o ponto de vista prático do proletariado como ponto de partida da sua própria atividade crítica.
Esta identidade, da atividade crítica de Marx com o proletariado, quando não se verifica, leva os críticos identificados com Marx a acusar o proletariado de aburguesamento, de aristocratização, de ser parte duma nova classe etc.
Aquilo que estou me propondo fazer também me parece ser aquilo que o proletariado necessita fazer, ou seja, cuidar de ler o espírito teórico em si mesmo, de lê-lo tanto em sua prisão em si mesmo quanto em sua liberdade em si mesmo, porque conseguindo ler o espírito teórico preso em si mesmo certamente se estará racionalizando a vontade, a energia prática, a atividade sensível real em outros lugares e conseguindo ler o espírito teórico livre em si mesmo se estará realizando a vontade, a energia prática, a atividade sensível racional no lugar mesmo no qual se encontra, no seu próprio espaço-tempo, quer dizer, em si mesmo.
“É chegada a hora de olhar para o problema nele mesmo, isto é, em si mesmo e sem recorrer a Marx, Nietzsche, Foucault, Althusser. É hora de ousar e, por isso mesmo, de parar de escrever para cuidar de ler o si mesmo em si mesmo e, depois, voltar a escrever para cuidar de ser si mesmo em si mesmo.”
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