sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Na busca de si mesmo [3]




"Se constitui na afirmação duma lei psicológica que o espírito teórico que se tornou livre em si mesmo saia das sombras do Amênti como vontade, energia prática, voltada contra a realidade mundana que existe sem ele." Karl Marx - tese de doutorado.




Ele fala duma lei psicológica atuando no espírito teórico que se tornou livre em si mesmo. Este espírito teórico está na psiquê e aí se tornou livre em si mesmo e, por isso, sai das sombras do Amênti (mundo dos mortos) e se volta contra a realidade mundana que existe sem ele, ou seja, ele sai da mente para o corpo e para os órgãos dos sentidos, quer dizer, para a sensibilidade e através da atividade sensível se volta contra a realidade sensível mundana que existe sem ele.


Esta lei psicológica é a mesma que converte o espírito teórico livre em si mesmo em espírito vivo da prática. É a liberdade em si mesmo que faz esta conversão do espírito teórico em vontade, em energia prática, que faz o espírito teórico sair do desencarnado mundo da morte para se converter em vontade e entrar encarnado na vida em luta contra a realidade mundana independente dele.


A liberdade sai do espírito teórico e se converte em vontade, em energia prática da atividade sensível, a liberdade se torna prática ou, como diz Marx na mesma observação de sua tese, "este é um fenômeno que acompanhará sempre a passagem da disciplina para a liberdade".


E, com isso, revela também que o espírito teórico preso em si mesmo está preso na disciplina, preso na filosofia e, portanto, não sai do mundo das sombras do Amênti. E, no entanto, o espírito teórico preso em si mesmo também se converte em vontade, em energia prática, mas, em lugar de ser uma vontade voltada contra a realidade mundana que existe sem ele, ele se converte numa vontade voltada contra a realidade espiritual existente nele mesmo.


Aquele espírito teórico livre em si mesmo se converte em vontade prática voltada contra o mundo que existe sem ele, se converte em liberdade da atividade sensível voltada contra a atividade sensível do mundo que existe sem ele.


Já aquele espírito teórico preso/disciplinado em si mesmo se converte em vontade prática voltada contra o espírito teórico que prende e disciplina em si mesmo, logo, se converte numa vontade prática que, no interior mesmo do espírito teórico disciplinado, se revolta e rebela contra si mesmo e, desse modo, infelizmente, sua cisão espiritual em si mesmo realiza efetivamente sua vontade prática contra o espírito teórico disciplinado em si mesmo sob a forma de espírito teórico rebelado e re-voltado contra si mesmo, ou seja, como vontade do espírito teórico disciplinado em si mesmo sendo combatida pela vontade do espírito teórico re-voltado contra si mesmo, portanto, sua vontade prática permanece dentro do mundo das sombras do Amênti, permanece prisioneira da atividade do espírito teórico, permanece filosofando ou realizando efetivamente o filosofar do espírito teórico preso em si mesmo.


Aquele que é um espírito teórico livre em si mesmo se converte em vontade prática ou converte a filosofia em atividade sensível voltada contra a atividade sensível do mundo.


Aquele que é um espírito teórico disciplinado em si mesmo se converte em vontade filosófica ou converte uma parte do espírito teórico ou filosófico existente em si mesmo em atividade espiritual teórica ou filosófica em si mesmo voltada contra a atividade espiritual teórica ou filosófica existente em si mesmo.


O espírito teórico livre, quer dizer, a atividade sensível voltada contra a atividade sensível do mundo independente de si mesmo desenvolve uma prática crítica da realidade mundana, desenvolve uma prática de transformação do mundo.


O espírito teórico prisioneiro, quer dizer, a atividade espiritual teórica em si mesmo voltada contra a atividade espiritual teórica existente em si mesmo desenvolve uma prática de cisão da realidade espiritual e, desse modo, uma prática de desenvolvimento de diferentes interpretações do mundo, como, por exemplo, na cisão íntima que diferencia e confronta o espírito teórico preso em si mesmo com o espírito teórico re-voltado contra si mesmo.


São dois espíritos teóricos, o da liberdade e o da disciplina, sendo que um constitui e desenvolve a si mesmo e o outro cinde a si mesmo e põe parte de si mesmo em confronto com outra parte de si mesmo.


É muito significativo que Marx, muito antes de Nietzsche, tenha se referido àqueles que procedem "moralmente", que "ressentem a identidade plástica de si mesmo com o sistema", àqueles que "não sabem que se voltando contra o sistema nada fazem senão realizar efetivamente seus diversos momentos", enfim, tenha se referido "ao espírito do ressentimento", como dizia Nietzsche, que promove "a revolta dos escravos (prisioneiros) na moral".


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