quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Comentário a "no Brasil, a morte mata, mas os mortos não morrem!' [B]

Leio no artigo do Roberto Da Matta (http://oglobo.globo.com/opiniao/uma-sociologia-da-morte-13663906) sobre a morte. E me parece que ela é muito mais presente do que parece. Ele diz que escreveu num livro que "no Brasil, a morte mata, mas os mortos não morrem!" A mitologia nos fala dela através da figura de Cronos, a qual, por sua vez, será figura da morte desde a Idade Média (aquela com ancinho para ceifar a vida). Cronos, "aquele que come seus próprios filhos", é antes de tudo "o tempo que não pára e que come seus próprios filhos". Daí que fica estabelecida a conexão entre a morte imortal, ou que não morre, e seus filhos a vida mortal, ou a vida que sempre morre.

Foi com uma pedra que enganaram Cronos que a devorou no lugar de seu filho Zeus. Zeus é o raio, é o zás, zim, quer dizer, é o instante e, portanto novamente o tempo, mas o tempo do instante do presente, da vida que se afirma e que se afirma imortal, como instante que não passa e se eterniza. Foi Prometeu, aquele que prevê, quem roubou do raio eterno de Zeus apenas uma centelha e a incorporou na humanidade de modo que esta recuperou Cronos ou o tempo que não pára da morte imortal em sua relação com Zeus ou com o tempo intenso da vida imortal, ou seja, rompendo com Zeus possibilitou a vida mortal do tempo intenso e, mais do que isso, a vida mortal dentro do tempo intenso, ou seja, possibilitou o tempo do vir a ser, o futuro. O tempo de Cronos ou da morte imortal que não pára é a eternidade da morte que não morre e, por isso, é compreendido como fonte eterna do passado. O tempo de Zeus ou da vida imortal que pára na eternidade intensa do instante que não morre é compreendido como fonte do presente eterno, melhor, como fonte da eternização do presente ou de um modo vida, no caso, o da vida imortal dos deuses do Olimpo. O tempo de Prometeu ou da vida mortal que combina a sucessão de instantes vitais com a eternidade da morte imortal é compreendido como fonte do contínuo futuro, melhor, como fonte da continuidade da história ou da sucessão de vidas e modos de vida, quer dizer, como apreensão completa do tempo pela vida mortal, pelo vir a ser que, saindo do presente e adentrando no futuro, constitui o passado e um outro presente.

Este tempo de Prometeu, no entanto, é um tempo de quem tem o fígado devorado todos os dias, um tempo de um imortal que quer ser mortal, logo, um tempo da morte imortal que quer ser vida mortal. Prometeu é também aquele imortal que quer morrer pela vida mortal da humanidade e nisso se assemelha a Cristo ou àquele Deus ou filho de Deus que morreu pela salvação da humanidade. Aqui nós temos a tradição de Tiradentes - um quase Cristo - que morreu pela Independência do Brasil, de Zumbi - um quase "santo" ou espírito que se encarna -, de Getúlio - um trágico, um quase Prometeu que se suicida -, de Jânio - uma farsa, um quase Cronos que renuncia -, de Jango - um racional, um quase Zeus que sofre um golpe -, de Tancredo - um resistente quase presidente -, de Collor - uma farsa, um quase Cronos que sofre impeachment -, de Eduardo Campos - uma promessa de futuro, um quase Prometeu que é morto tragicamente -. Mas, aqui, os mortos são santificados e se encarnam nos terreiros. Em outros lugares existe a loucura de ser Napoleão ou quaisquer outros vultos da história, aliás, mesmo aqui, existe esta loucura quando o encarnar é querer ser o vulto da história, ou seja, desincorporar a si mesmo ou quem se é, mas, aqui, existe a outra possibilidade que é a de qualquer um encarnar os vultos da história, especialmente da história brasileira, sem ser o vulto da história e apenas emprestando seu corpo para interpretar-encarnar o vulto da história, logo, sem enlouquecer e também é possível que, por isso, aqui, "os mortos não morram!".

O trabalho de Marina é ser ela mesma e também o cavalo de Eduardo Campos.

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