terça-feira, 2 de setembro de 2014
LER O SI MESMO EM SI MESMO (REINTRODUÇÃO) [7]
REINTRODUÇÃO: REELABORANDO A INTRODUÇÃO
Fukuyama anuncia “O Fim da História” retornando a Hegel e retomando sua concepção de fim da história. O que significa isso? Ele está dizendo que todo o período após a morte de Hegel, durante o qual Marx, o discípulo que aceitou o fim da história de Hegel como fim da história do idealismo e continuidade da história do materialismo, foi assumido como o teórico que inspirou um conjunto de tentativas sistemáticas de saídas do fim da história de Hegel. E são estas tentativas que acabaram se dissolvendo e, desse modo, sendo consideradas como meros desvios inconsequentes e, ao mesmo tempo, inteiramente pertinentes à consolidação da afirmação do fim da história proposto e aceito por Hegel. Aliás, Marx mesmo tinha previsto que saídas precoces do fim da história teriam como consequência o retorno amadurecido ao fim da história e do fim da história.
O materialismo compreendido como a dialética da cisão do mundo ou do real dividido em dois contrários foi a sustentação do período caracterizado como Guerra Fria. E, basicamente, foi a descolonização globalizada do mundo, quer dizer, o fim das tentativas de saídas precoces do fim da história que resultou no retorno amadurecido ao fim da história e do fim da história, isto é, na dissolução do período da Guerra Fria e da cisão em dois mundos. Este materialismo está quebrado e toda sua sólida afirmação como poder positivo está sistematicamente se dissolvendo no ar.
Este materialismo repete o problema do idealismo que descrevemos acima. O idealismo não conseguia sair de si mesmo e se tornar poder positivo e este materialismo que leva a si mesmo ao poder positivo acaba se dissolvendo e conseguindo que o idealismo se torne poder positivo. Então, este materialismo, que agora está quebrado e em dissolução, foi o meio através do qual o idealismo deixou de ser apenas ideologia e se tornou poder positivo. Este materialismo foi apenas a solução da quebra do vir a ser do idealismo, da sua passagem de um pólo ao outro, logo, ele é apenas parte integrante do idealismo.
Com efeito, ainda que tenhamos descrito a Reforma como estando no cerne do procedimento do idealismo de Hegel e, portanto, como afirmação do idealismo como tal, isto é, como uma interpretação, não descrevemos por completo a dialética, aquilo que consiste no tema principal deste procedimento, ou seja, a essência temática da dialética ou do vir a ser que para Hegel são a Revolução Francesa e Napoleão, portanto, subestimamos o principal ou a evidência de ter Hegel, por meio da Revolução Francesa e das Guerras Napoleônicas, concebido o mundo dividido em dois reais.
Portanto, Hegel concebia sim no seu idealismo a cisão do mundo em dois reais que querem a supressão um do outro e fazia isto ao traduzir a Revolução Francesa na sua dialética idealista. Ele concebia perfeitamente bem, melhor, ele extraiu de modo perfeito o conceito racional da positividade real da Revolução Francesa. Foram as idéias do Iluminismo francês que se apossaram dos revolucionários franceses e estes, por sua vez, se apoderaram positivamente do poder político na França. Hegel concebia no seu idealismo aquilo que chamamos de materialismo dos dois reais que querem a supressão um do outro. E este seu conceito era e é o da emancipação política. A Revolução Francesa ou a Revolução Social Burguesa é a Revolução Social Política.
Marx demonstra isto com clareza na “Questão Judaica”, onde diferencia a revolução burguesa como emancipação política da revolução das “próprias forças sociais” como emancipação humana, ele aí ainda não usa as expressões “socialismo e comunismo” nem “proletariado” que usa na “Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel” e ambas as obras foram publicadas simultaneamente na primeira e única edição dos “Anais Franco-Alemães”, logo, as duas obras afirmam a compreensão e o manejo que ele desenvolve das duas diferenças revolucionárias, a da emancipação política ou da revolução burguesa e a da emancipação humana (das “próprias forças sociais”) ou da revolução “socialista e comunista”/”proletária”.
Tudo que Marx expõe como emancipação política na “Questão Judaica” como crítica a Bruno Bauer é uma demonstração da compreensão mais profunda que ele tem de Hegel na sua disputa com Bauer. Inclusive o momento muito significativo da Revolução Francesa de “abolição da propriedade privada, da religião etc.”, o qual, por sua vez, é afirmado por meio da exceção à regra, isto é, por meio da adoção dos poderes absolutistas do “Ancien Régime” francês. E tanto o uso dos poderes da máquina de Estado absolutista quanto a abolição da propriedade privada, da religião etc. do chamado período do Terror servem de explicação para o combate da revolução à propriedade privada, à religião etc. da sociedade civil feudal depois do qual ocorre a restauração da propriedade privada, da liberdade religiosa etc. da sociedade civil burguesa. Bruno Bauer defende o momento da exceção, o momento do Terror, porque quer e defende a abolição da religião que identifica com a abolição da propriedade privada e com aquilo que chama de emancipação humana. Aliás, é por isso que considera o judeu sem capacidade de efetivar a emancipação política, já que, a seu ver, o judeu se encontra no Estado cristão e, portanto, teria de se tornar cristão e deixar de ser judeu para ter o mesmo direito (político) do cristão no Estado cristão e, por sua vez, ele defende que o cristão é aquele que está capacitado para efetivar a emancipação política abolindo o cristianismo do Estado e, desse modo, efetivando o Estado ateu/ateísta, isto é, aquele no qual a abolição da religião admite a capacidade da emancipação política dos ateus como sendo igualmente a capacidade da emancipação humana, já que os ateus são todos apenas criaturas humanas e não mais criaturas de Deus.
Marx mostra que o país da mais completa emancipação política, os Estados Unidos, é igualmente o país da mais ampla liberdade religiosa demonstrando que o fato do Estado ser laico e uma república/propriedade pública em nada impede que seus membros sejam religiosos e proprietários privados na Sociedade Civil. Portanto, demonstra que a emancipação política não se confunde com a abolição da religião, da propriedade privada etc., melhor, apenas se confunde com tais abolições enquanto se encontra combatendo uma determinada Sociedade Civil, a do feudalismo, porque a emancipação política é a emancipação característica da Sociedade Civil Burguesa.
A emancipação humana ou das “próprias forças sociais” é uma outra revolução e ela vai além da revolução política que é burguesa, porque a revolução das “próprias forças sociais” é humana, já que na “Questão Judaica” ele ainda não usa as expressões “proletária” e “proletariado”, porém, o sentido de as “próprias forças sociais” é precisamente aquele que aparecerá, em seguida, na “Introdução à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel” como revolução “socialista e comunista” do “proletariado” ou da classe “proletária”. Nesta obra Marx defende a realização da filosofia do direito de Hegel mostrando que ela é a teoria/o racional da prática/do real da França e da Inglaterra (e dos Estados Unidos, se não esquecemos a “Questão Judaica”) e que na Alemanha sua realização é a efetivação da revolução de 1789, quer dizer, da emancipação política da revolução burguesa. Porém, a exceção da Alemanha não é apenas de corresponder na teoria à prática destes países de avançado desenvolvimento burguês, mas é também a exceção de ter uma burguesia incapaz de efetivar a emancipação política da revolução burguesa. É aí que ele percebe que, na Alemanha, é o proletariado a classe que, na Inglaterra e na França, está defendendo “o socialismo e o comunismo” como sua própria emancipação social ou humana, aquela que é capaz de efetivar a realização da filosofia do direito de Hegel, quer dizer, a realização efetiva da emancipação política própria da revolução burguesa. Ao contrário da França, onde a exceção que faz a abolição da propriedade privada, da religião etc. é conduzida pelos revolucionários burgueses que fazem uso da máquina de Estado absolutista herdada do feudalismo, na Alemanha a exceção que poderá fazer a abolição da propriedade privada, da religião etc. será conduzida pelos revolucionários proletários ou socialistas e comunistas - logo, por aqueles que querem tais abolições como regra – que ou farão uso da máquina de Estado absolutista prussiana ou farão uso de suas “próprias forças sociais” e, portanto, destruirão a máquina de Estado absolutista prussiana. Este ponto não fica claro porque o socialismo e o comunismo proletários são a exceção da Alemanha capaz de realizar efetivamente a revolução burguesa ou a filosofia do direito de Hegel, quer dizer, a outra exceção da Alemanha. Mais tarde, no “Manifesto do Partido Comunista” (e também na “Ideologia Alemã” que só foi publicada quase em meados do século XX e após sua morte no século XIX) Marx deixará claro que se esta revolução burguesa da Alemanha conduzida pelo proletariado se aliar a uma revolução proletária européia da Inglaterra ou da França, então esta revolução burguesa poderá vir a ser efetivamente proletária ou realização efetiva do socialismo e comunismo ou da emancipação humana.
Hegel teria feito uma acomodação da sua filosofia idealista revolucionária burguesa com o poder positivo do absolutismo prussiano reacionário feudal. Esta era a crítica geral dos hegelianos de esquerda. Bruno Bauer queria o Estado ateu e a negação da capacidade de emancipação política do judeu, só admitindo a capacidade para a emancipação política do cristão, ele queria o Estado absolutista ateu, ele era absolutista prussiano na sua propostas de emancipação política. Ludwig Feuerbach queria os indivíduos singulares e a Sociedade Civil Burguesa, nesse sentido, era democrático e admitia a liberdade religiosa inerente à Sociedade Civil Burguesa, portanto, admitia a emancipação política dos judeus, cristãos e ateus em geral. Max Stirner queria o indivíduo egoísta e sua propriedade, nesse sentido, admitia apenas a liberdade da mônada humana burguesa e a preservação da mesma por meio da anarquia de suas relações sociais como efetiva guerra de todos contra todos, defendia a emancipação política do saber absoluto do egoísta como fim anarquista e niilista da história.
Marx aprendeu com Hegel que a filosofia iluminista revolucionária burguesa francesa fez uma acomodação com o poder positivo do absolutismo do ancien régime, ou seja, que a emancipação política ou a revolução social burguesa é perfeitamente compatível com a máquina do Estado absolutista. Deduziu que Hegel considerava perfeitamente coerente fazer uma acomodação da sua filosofia com o absolutismo prussiano. A diferença era que os iluministas franceses tomaram o poder positivo da máquina do Estado absolutista das mãos dos absolutistas reacionários. E, portanto, seria preciso que seus discípulos hegelianos se lançassem na conquista do poder positivo do absolutismo prussiano arrancando-o das mãos dos reacionários absolutistas prussianos. A proposta de Bauer queria a emancipação política duma maneira que apenas dava vez aos absolutistas ateus porque na verdade se contrapunha à emancipação política geral. A proposta de Feuerbach era a que mais unia as forças na luta pela emancipação política geral mas recorrendo apenas ao desenvolvimento da Sociedade Civil Burguesa sem se ocupar com a conquista do poder político positivo. A proposta de Stirner era a que mais deixava claro que os discípulos não iriam mesmo arrancar o poder positivo da máquina do Estado absolutista das mãos dos absolutistas prussianos reacionários. Noutras palavras, a teoria burguesa não tinha condições de ser posta em prática pelos próprios burgueses.
Marx percebeu que só uma outra classe, a dos proletários, tinha condições de pôr em prática a teoria burguesa. Porque para os proletários não importava a religião de cada um e sim que pudessem se unir na defesa de seus interesses vitais, tampouco bastava ficar deliciado com a contemplação das diferenças entre os diferentes proletários e sim que tivessem poder político positivo para desenvolver suas “próprias forças (vitais) sociais” e menos ainda se limitar ao egoísmo da guerra de todos contra todos porque era ir inteiramente contra a defesa de seus próprios interesses vitais, de suas próprias forças sociais, quer dizer, seria ir contra seu próprio “egoísmo” que é ser “socialista e comunista”, “unidade da diversidade” e “fim da competição dos proletários entre si”. Além disso, percebeu que o interesse básico do proletariado era a sua emancipação social, isto é, a aquisição da emancipação de suas próprias forças sociais, logo, o que importava era a conquista da máquina social e não tão somente a conquista da máquina política que importava exclusivamente para a burguesia. Porém, a conquista da máquina social requeria não só a conquista da máquina do Estado mas também destruição da máquina do Estado porque esta agia no sentido de separar os proletários da conquista da máquina social. E, sendo a máquina social e a máquina política basicamente da Sociedade Civil Feudal e absolutismo feudal, então os dois avanços eram de interesse imediato dos proletários, ou seja, o desenvolvimento da Sociedade Civil Burguesa para que nela pudessem se desenvolver e a conquista do poder político positivo do absolutismo prussiano para poder desenvolver a Sociedade Civil Burguesa e, desse modo, vir a se apropriar da máquina social e a destruir a máquina do Estado.
A máquina do Estado é a garantia do desenvolvimento da Sociedade Civil Burguesa porque ela é a própria afirmação do idealismo, isto é, do espírito, melhor, do capital público que viabiliza e expressa a expansão do capital privado. A classe capitalista ou burguesa é a materialização do idealismo de Hegel, ou seja, nela vigora o espírito, a racionalidade ou o acúmulo abstrato da atividade sensível real das forças de trabalho proletárias. A conquista pelo proletariado da máquina do Estado sem que seja feita a sua destruição ou dissolução na máquina social apenas garante o desenvolvimento da Sociedade Civil Burguesa e ainda que a máquina social não se socializa entre os proletários se mantendo prisioneira da propriedade da máquina do Estado, quer dizer, da revolução política que é basicamente a revolução social burguesa.
O socialismo e o comunismo de Estado ou a abolição da propriedade privada, da religião etc. pelo Estado ou máquina de Estado absolutista tem como resultado o retorno da propriedade privada, da religião etc. – Esta é a observação crítica de Marx (presente, por exemplo, na “Questão Judaica”, na “Ideologia Alemã”, na “Guerra Civil na França” e “Crítica ao Programa de Gotha”) e, portanto, tudo aquilo que se realizou efetivamente com o materialismo, que cindiu o mundo em dois reais e que está em processo de continuada dissolução no mundo capitalista ou no fim da história tal qual, como ressalta Fukuyama, concebeu Hegel, foi a revolução burguesa, a emancipação política ou o idealismo hegeliano e não a revolução proletária, a emancipação humana ou o materialismo de Marx que vai além do fim da história do idealismo de Hegel.
O materialismo da cisão do mundo em dois reais contrários apreende apenas o vir a ser objetivo e, por isso, é inteiramente compatível com o idealismo objetivo que ainda não destrói nem transforma o outro pólo por completo, o que só se torna viável por meio do materialismo da cisão do mundo em dois reais contrários que apreende o vir a ser subjetivo que, por um lado, destrói e, por outro lado, transforma o outro pólo por completo, de modo que, em lugar de apenas se manter objetivamente o mesmo si mesmo vem a ser íntima, subjetiva e essencialmente outro si mesmo.
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