quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Ler o si mesmo fora de si mesmo [8]



A ironia



É o que tenho feito até agora. Leio tudo a partir dum determinado livro de Marx e, mais especificamente, a partir duma Nota de um capítulo perdido deste livro. O Hegel que comparece aí não é o próprio Hegel e sim aquele lido por Marx e de acordo com a leitura que faço de Marx. E ao tentar “ler o si mesmo em si mesmo” é isto que tenho feito, noutras palavras, melhor, nas da Nota de Marx, tenho lido o si mesmo em si mesmo do ponto de vista da disciplina, quer dizer, do escravo da Nota dum livro dum determinado pensador. Logo, também não estou efetivamente a “ler o si mesmo em si mesmo”, mas estou sim a “ler o si mesmo fora de si mesmo”, no sentido de dentro da disciplina, prisão ou escravidão do espírito teórico.


Porém, se sair da disciplina para a liberdade do espírito teórico também pode ser “a atividade do si mesmo ler fora de si mesmo”, então, as leituras de Hegel que encontro na internet, apesar das diferenças entre elas, por vezes, surpreendentes, tendem todas a concordar que Hegel, na sua obra “Princípios da Filosofia do Direito”, onde expõe sua filosofia do direito, defendia que o melhor Estado era o da Monarquia Constitucional. A Revolução Francesa começou precisamente com uma Monarquia Constitucional. A acomodação da Monarquia Constitucional com a Monarquia Absolutista seria a acomodação da filosofia de Hegel com o poder absolutista da Alemanha, segundo seus discípulos que, desse modo, abandonam a Monarquia Constitucional e adotam a Democracia ou se tornam contrários à filosofia política de Hegel e a favor da prática política dos Estados Unidos. No entanto, a Monarquia Constitucional inaugura a Revolução Francesa aplicando na França a Declaração dos Direitos da Democracia dos Estados Unidos. Por outro lado, a Monarquia Constitucional estava e ainda está em vigor na Inglaterra, onde, desde então até hoje, a Democracia é uma característica marcante. Ou seja, na filosofia de Hegel a Democracia é parte integrante da Monarquia Constitucional. Adotando a Democracia e não a Monarquia Constitucional na luta contra a Monarquia Absolutista porque a Monarquia Constitucional seria um acordo com a Monarquia Absolutista enquanto que a Democracia seria uma negação absoluta da Monarquia, seja Absoluta, seja Constitucional, logo, uma afirmação absoluta da República, em consequência, a contraposição absoluta da Democracia, até então parte integrante da Monarquia Constitucional da filosofia dos jovens hegelianos, à Monarquia Absolutista pode significar precisamente a pressão absolutista para a aceitação da Democracia pela Monarquia Absolutista num acordo ou acomodação que efetive a Monarquia Constitucional, mas também pode significar ir além no grau de efetivação da negação absolutista da Monarquia Absolutista por meio da afirmação absolutista da República Democrática. No primeiro caso, se estará realizando precisamente a filosofia de Hegel tal e qual, já no segundo caso, se estará efetivando uma ação revolucionária e violenta comparável àquela realizada por Napoleão Bonaparte e que era aprovada e admirada por Hegel e sua filosofia. E, nesta última identificação do sistema de Hegel é o poder absolutista que se afirma, logo, está mais presente o acordo, a acomodação ou a identificação com o poder absolutista da Monarquia.


O absolutismo democrático ou a ditadura democrática se tornou o caráter da Revolução Bolchevique e das Revoluções das Colônias, das Semicolônias, dos Dependentes e Subdesenvolvidos. Em ambos os casos não é a Democracia dos EUA que se realiza e sim a Monarquia Constitucional e a República Imperial, o Império Republicano ou a Ditadura Democrática. E o resultado desse radicalismo ou revolucionarismo napoleônico estamos vendo agora é a sua dissolução e o surgimento de democracias no seu lugar. Curiosamente isto está acontecendo junto com a descolonização globalizada, ou seja, a democracia, que nasceu nos EUA quando este deixou de ser colônia da Inglaterra e que inspirou a Monarquia Constitucional da Revolução Francesa bem como o Império Napoleônico e, com ele, a Ditadura Democrática, a República Imperial ou o Império Republicano nos países do Socialismo e Comunismo Realmente Existentes, está agora se mostrando a expressão histórica da descolonização do mundo e também da hegemonia do Estado emancipado, aperfeiçoado ou acabado, isto é, aquele que levou a emancipação política a seu perfeito acabamento, que é a Democracia dos EUA.


A Monarquia Constitucional foi abandonada e venceu a Democracia dos EUA defendida pelos discípulos hegelianamente, isto é, por meio da Ditadura Democrática ou do Império Republicano inspirado no absolutismo revolucionário democrático de Napoleão Bonaparte, portanto, só depois de efetivar todos os momentos do sistema do mestre Hegel é que a Democracia dos EUA defendida pelos discípulos veio a se realizar efetivamente. E é aí que se coloca a distinção da posição de Marx porque ele considerava que era a partir da efetivação da democracia que a luta pelo socialismo e comunismo viria a ser uma realidade efetiva, viria a ser realizada efetivamente.


A conclusão atual pode ser a seguinte: a revolução ou emancipação política acabada dos EUA que desencadeou as revoluções que a partir da francesa deram a volta ao mundo do oeste/ocidente para o leste/oriente até que quase todas vieram a ser revoluções ou emancipações políticas acabadas como os EUA significam apenas que a emancipação política se globalizou e, desse modo, estabeleceu o fim da história das revoluções ou emancipações políticas por ter também estabelecido o início efetivamente real das revoluções ou emancipações humanas.

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