quinta-feira, 25 de setembro de 2014

"Não vamos desistir do Brasil!" {3}



Quando aconteceu o ataque às torres gêmeas apareceram as mais diversas teorias da conspiração e aí eu lembro do meu pai enfatizando que o importante era saber o que eles (Bin Laden e os seus) querem e que ninguém em todo aquele conjunto de teorias e explicações respondia a essa pergunta: o que eles querem?


A teoria conspiratória do pessoal da Executive Intelligence Review (não lembro mais o nome do seu líder, eles publicavam o Resumen Ejecutivo para a "Íbero América" = América Latina) dizia que se tratava dum golpe de Estado similar ao incêndio do Reichstag feito pelos nazistas assim que Hitler chegou ao poder, já que Bush também havia acabado de chegar ao poder depois dumas eleições bastante controversas e, por isso, suspeitas. E são muitos os elementos nos quais se apoiavam. No entanto, desse modo, Bin Laden e os seus ficam reduzidos à condição de marionetes ou meros agentes das conspirações dos poderosos dos EUA, melhor, a resposta à pergunta do meu pai - o que eles querem? - fica deslocada e dissolvida. Deslocada porque o eles querem agora não se refere mais a Bin Laden e os seus e sim aos poderosos conspiradores que manipulam os EUA e o mundo. Dissolvida porque como sujeitos, Bin Laden e os seus, ficam subsumidos na subjetividade dos conspiradores dos EUA e no domínio total exercido pela subjetividade de tais poderosos.


O que eles querem? Eles, meu pai destacava, são Bin Laden e os seus. Eles, então, querem o quê?


O que Bin Laden esperava que os Estados Unidos fizesse depois do ataque às torres gêmeas do world trade center? Qual era o objetivo visado? Qual era o alvo do ataque? A manifestação clara por parte do governo e da população dos Estados Unidos dum comportamento pacifista, sereno, equilibrado ou, mesmo favorecendo a guerra, a perturbação, o desequilíbrio, que manifestasse respeito pelas suas próprias regras democráticas e recorresse às regras democráticas da ONU e do direito internacional para efetivar as ações de combate aos terroristas que não respeitam as regras democráticas de nenhum país, nem os direitos humanos, nem o direito internacional, nem a ONU?! O golpe de Estado, o desrespeito à democracia, aos direitos humanos, ao direito internacional, à ONU, à soberania e à autodeterminação dos povos eram queridos por Bin Laden e os seus como comportamento adotado pelos EUA?!


A Primavera Árabe não foi então parte dum projeto de efetivamente apoiar a introdução e consolidação da democracia nos países árabes? Pode até ter sido, mas já dentro do problema dos EUA de ter de sair do Iraque, do Afeganistão e da desestabilização generalizada que aprofundou na região. A ascensão da Irmandade Muçulmana no Egito foi acompanhada da ascensão dos grupos identificados com Bin Laden na Líbia, na Síria e noutros países como o próprio Iraque. E, curiosamente, esses grupos se aproveitaram precisamente do apoio dado ao movimento da Primavera Árabe.


Lembrei da tal teoria de Mackinder (ver https://www.google.com.br/?gws_rd=ssl#q=mackinder ; http://pt.wikipedia.org/wiki/Halford_John_Mackinder ; http://pt.wikipedia.org/wiki/The_Geographical_Pivot_of_History ; etc.) que teria afirmado que quem dominasse uma região entre a Europa e a Ásia dominaria o mundo. Ora, tal região é a que permanece instável e em guerras sucessivas e é também a região que estabelece desde muito tempo as fronteiras entre Ocidente e Oriente. O cristianismo quase conseguiu isso, mas seu primeiro cisma reestabeleceu as fronteiras entre Ocidente e Oriente, entre cristianismo ocidental católico romano e cristianismo oriental ortodoxo grego. Mas, a região não se reduz ao Oriente Médio e engloba Iraque, Irã, Ucrânia, ou seja, é uma região interior e entre a Europa e a Ásia. E, aí, é muito curioso, mas uma religião nascida aí e que é fonte do cristianismo e do maometanismo é vista e se comporta como um verdadeiro alienígena na região, já aqueles que conseguem ser vistos e se comportar como verdadeiros nativos são os árabes e muçulmanos. Lembrei também que Lawrence da Arábia é um precursor dessas incursões ocidentais que financiam, armam e treinam nativos árabes. Bin Laden foi um desses e o Isis ou Estado Islâmico é um outro, mas existem ainda outros mais. No entanto, o que ocorre agora, melhor, na hora dos ataques a Bin Laden e todos os demais? Eles são inaceitáveis, eles são as subjetividades que, em lugar de ser apenas manipuladas, ousam querer manipular, ousam fazer lavagem cerebral nos ocidentais, eles são efetivamente o terror e para eles só existe a linguagem do terror, quer dizer, da ausência de democracia, de direitos humanos, de direito internacional, de soberania dos Estados e da ONU e de autodeterminação dos povos. Mas, qual a resposta à pergunta que não quer calar, à pergunta do meu pai: o que eles querem?


Se aquilo que eles querem é precisamente a resposta dada pelos Estados Unidos com suas guerras ao terror, seus ataques desrespeitando todas as regras democráticas e do direito internacional e da autodeterminação dos povos, então o que eles querem é que seu próprio inimigo, os EUA e também seus aliados europeus, se comportem de maneira terrorista e negadora de todos os seus valores e regras para que o seu próprio fundamentalismo se afirme de forma absoluta e inteiramente justificada inclusive por seus próprios inimigos.


A política externa brasileira estará cada vez mais entrando em contradição com esta política externa dos EUA pura e simplesmente por não fazer o jogo do fundamentalismo e desistir de seus valores democráticos e de suas regras de direitos humanos e de direito internacional. Logo Obama, o primeiro presidente negro dos EUA, está entrando para a história como "mais um que desiste dos EUA". E, agora, nesse mesmo período a nossa política externa está entrando numa nova fase de sua confirmação porque está adotando o lema do Eduardo Campos: "Não vamos desistir do Brasil!"

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