sábado, 20 de setembro de 2014
Governo Dilma, qual é o diagnóstico?
Certamente que não é revolucionário, também não é reformista.
É o quê?
Se caracteriza por um esforço em seguir a política econômica do guru Delfim Neto? Fazer o retorno da inflação, do crescimento da dívida internacional para garantir que terá "milagre econômico", isto é, crescimento do desenvolvimentismo industrial? Se a política econômica visa o retorno da era Delfim, então é fácil perceber que não está conseguindo porque a época e as condições históricas são outras.
Tem gente que diz que se caracteriza por um retorno a Era Vargas e, mais especificamente, ao período João Goulart visando realizar o programa das reformas estruturais das quais o governo Goulart foi exclusivamente a publicidade, a propaganda ou, numa linguagem política mais pertinente, apenas a agitação. No entanto, aí aparece menos coincidências no sentido duma política realizadora de reformas e mais coincidências no sentido duma política que caracterizou a instabilidade da Era Vargas (incluindo JK) e impossibilitou toda e qualquer atividade afirmativa reformista de Jango. São os casos sistemáticos de corrupção que levaram ao suicídio de Vargas, que impediram a luta de JK pela reeleição e mantiveram a paralisação do governo Jango. Ainda que o principal componente da paralisação do governo Jango tenha sido a campanha sistemática contra a sua autoridade e legitimidade políticas, ou seja, o fenômeno da renúncia de Jânio, que é uma continuidade da campanha contra Vargas. Se Vargas com o suicídio reverteu a situação política a favor dos seus, ainda que nem tanto, já que estes, em lugar do retorno direto ao poder, se comprometeram a manter a aliança com JK e o PSD. Disso resultou a perda da FNM (Fábrica Nacional de Motores) e a instalação das montadoras como fio condutor da política industrial no país. A renúncia de Jânio correspondeu ao tiro no peito de Vargas, ou seja, serviu para retomar a campanha contra a autoridade e legitimidade políticas do PTB da Era Vargas, mas agora sob nova direção, a de Jango. O tiro no peito de Vargas em 24 de agosto de 1954 isolou a direita e sua campanha golpista, a renúncia de Jânio em 25 de agosto de 1961 deu autoridade e legitimidade para o retorno da campanha golpista sistemática da direita contra Jango e o PTB. A cunha divisória entre Jango e o PTB, como se sabe, foi o seu cunhado. Lá atrás, no governo JK, se tinha decidido pela aliança com o PSD e JK. E Leonel Brizola, o cunhado, queria e defendia uma política de autoridade e legitimidade políticas exclusivas do PTB. Ora, Jango, que conheceu Vargas, sabia que este se apoiava na aliança com o PSD desde a época em que sequer existia tal partido e sim a aliança com Minas para efetivar a Revolução de 30. Sabia também que no período de Dutra o risco da quebra da aliança e da passagem da hegemonia para São Paulo, contra cujo poder fora feita a Revolução de 30, era mais do que real e se condensava agora na UDN. Com esta avaliação política apreendida com seu mestre político, Getúlio, Jango cuidava de manter a aliança com o PSD para também cuidar de isolar a UDN e a direita golpista. Nada adiantou porque a direita golpista usou a política radicalizada da esquerda e do cunhado Brizola a favor da campanha sistemática de dissolução da autoridade e legitimidade políticas de Jango.
Que relação tem isso com o governo Dilma? As alianças do governo Dilma e, antes, do governo Lula, quer dizer, as alianças dos governos do PT se assemelham àquelas feitas por Vargas e por Jango? De modo algum. Tanto o PSDB quanto o PT começaram tendo como aliado preferencial os políticos oriundos do partido da situação da ditadura, a Arena, que se dividiu em dois partidos, o PFL (atual Democratas) e o PPB (atual PP), ao mesmo tempo que, também, trataram de manter a aliança com o PMDB (antigo MDB, partido da oposição da ditadura). Se houve uma mudança na política de alianças dos governos do PT, então foi apenas a de aumentar o prestígio da aliança com o PMDB sem prejuízo de manter a aliança com o atual PP, afinal, foi através da aliança com Maluf do PP que o PT chegou ao governo via campanha "Lulinha paz & amor" do publicitário Duda Mendonça, malufista "desde criancinha". Claro que teve a tal "Carta ao Povo Brasileiro" e que os dissidentes dentro do PT foram sendo sistematicamente espirrados para fora. Claro que os casos dos prefeitos assassinados foram "abafados" e ficaram "sem explicação real e convincente até hoje". Claro que aquilo que sempre foi a campanha golpista da direita se tornou a realidade corriqueira da democracia representativa: a corrupção sem limites. Mas, agora, os governos do PT (e do PSDB) fazem isto junto com a direita golpista e, desse modo, minam o golpismo da direita ao socializar e universalizar os benefícios e os malefícios da corrupção.
Lá atrás aqueles que fundaram o PT e o PSDB ficaram muito conhecidos por terem sido destacados opositores da ditadura. No entanto, na hora de governar só o fazem em aliança com destacados colaboradores da ditadura.
A Marina, uma das espirradas para fora pelo governo do PT, quer uma nova política de alianças, uma aliança programática, ou seja, não quer mais a política de alianças do pragmatismo (por sinal, outro componente da ditadura recente, posto que foi quem mais "inovou", praticando e, quem mais defendeu, introduzindo o pragmatismo na politica brasileira). Ela quer ver aqueles que foram destacados opositores da ditadura e que foram criadores e fundadores de partidos independentes, o PT e o PSDB, aplicarem suas propostas políticas programáticas e independentes de forma criativa e assim participarem da fundação duma nova política da democracia brasileira. Ela retoma a criatividade e os fundamentos dos mais destacados opositores da ditadura e, neste mesmo ato, ela retoma a continuidade do governo Jango (inclusive, se baseando na aliança para sua sustentabilidade de quadros do PT e do PSDB), não mais como o isolamento dum governo restrito à publicidade e propaganda dum programa de reformas, mas sim como a aplicação criadora dum programa de reformas com os melhores e mais fundamentados quadros do PT e do PSDB. O que significa que muitos daqueles que foram emudecidos dentro do PT e do PSDB bem como os que foram espirrados terão voz e vez na nova configuração política da democracia e do Brasil.
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