quinta-feira, 4 de setembro de 2014
Ler... Disciplina e Liberdade [9]
Ler o si mesmo fora de si mesmo
Disciplina e Liberdade
Marx criticava os demais hegelianos de esquerda por querer sair da disciplina para a liberdade indo contra o mestre Hegel, acusando-o de acomodação. Ele também participava do movimento de saída da disciplina para a liberdade sem no entanto ir contra a filosofia do mestre Hegel, sem acusá-lo de acomodação, ou seja, compreendendo a filosofia do seu mestre Hegel de acordo com os critérios da própria filosofia hegeliana, segundo a qual, ela era com Hegel a expressão de uma época e com os jovens hegelianos de esquerda a expressão duma outra época, logo, cabia a estes últimos compreender a sua própria época que não existia na época do mestre Hegel e, portanto, não se encontrava presente na sua consciência filosófica por ser uma consciência exotérica, isto é, própria de outra época que é a época dos jovens hegelianos de esquerda.
Marx e os hegelianos de esquerda, mas também os de centro e os de direita faziam uso da imprensa e de livros reafirmando a invenção alemã da imprensa e da Reforma protestante de Lutero como fonte da filosofia alemã. Hegel dizia que a leitura dos jornais correspondia na época capitalista à prática das orações diárias da época feudal. Marx, além de leitor de jornais diários era o chefe de redação ou editor de um jornal muito bem sucedido, ou seja, além de corresponder a um crente fervoroso correspondia também a um pastor de grande sucesso.
Era na qualidade de discípulo-pastor da filosofia de Hegel, isto é, fazendo uso livre da filosofia de Hegel que se afirmava na prática criadora das orações diárias, quer dizer, das impressões dum jornal periódico. Ele defendia radicalmente a democracia presente na filosofia de Hegel e, em seguida, passou a defender a efetivação da filosofia do direito de Hegel por meio da prática do socialismo e comunismo do proletariado. E o mais avançado movimento do proletariado socialista e comunista ocorria na Monarquia Constitucional da Inglaterra. Ele não só se mudou para a Inglaterra como passou a participar do movimento do proletariado dentro desta Monarquia Constitucional a ponto de se tornar o redator do Manifesto da Associação Internacional dos Trabalhadores e também o Secretário-Geral da mesma. Curiosamente o movimento organizado do proletariado alemão não participava desta Associação Internacional dos Trabalhadores dirigida por Marx e, no entanto, ele percebeu que o resultado da Comuna de Paris de 1871 seria a aceitação internacional da característica da tendência teórica do proletariado alemão. O que significava a aceitação tanto da tendência teórica dele Marx, que, aliás, já era relativamente muito bem aceita na Internacional, quanto a aceitação da tendência teórica nacionalista do proletariado alemão que não participava da Associação Internacional dos Trabalhadores.
O resultado foi a composição das duas tendências naquilo que se tornou a Socialdemocracia alemã e que exerceu a hegemonia na Internacional Socialista ou Segunda Internacional. De todo modo, o período nacionalista de hegemonia do partido lassaliano que se configurou durante a unificação da Alemanha conduzida por Bismarck, chamado de o Napoleão prussiano, o dirigente da Monarquia Absolutista que deu início na mesma ao uso de adereços Constitucionalistas. Quando Bismarck foi substituído no exercício do poder pelo novo monarca, também ascendeu, à cena política nacional e internacional européia, o partido da Socialdemocracia alemã, aumentando ainda mais a pressão para o que os adereços duma Monarquia Constitucionalista se tornassem sua roupagem diária, quer dizer, sua substância. No entanto, a própria Socialdemocracia se reduziu a adereço da Monarquia Absolutista ao aprovar a Primeira Guerra Mundial e só depois dela, com a derrota da Revolução dos Espartaquistas, foi que teve fim a Monarquia e teve início a República, ainda que esta permanecesse sendo chamada de Império (Reich).
A saída da disciplina para a liberdade, quer dizer, da filosofia hegeliana para a prática se faz por meio da contradição, a qual, por sinal, é inerente à filosofia hegeliana. De um lado, se manifesta um discípulo ou disciplinado que parte para a liberdade a partir do acordo de discordar que faz com o sistema do mestre. Do outro lado, se apresenta o discípulo ou disciplinado que parte para a liberdade a partir do desacordo de concordar que faz com o sistema do mestre. Aquele que faz o acordo de discordar aceita partir para a liberdade aplicando a filosofia do mestre na sua totalidade e aceita a liberdade de aplicar a sua própria para além da do mestre. Aquele que faz o desacordo de concordar aceita partir para a liberdade discordando de aplicar a filosofia do mestre na sua totalidade e aceita a liberdade de aplicar apenas sua própria concordância com parte da filosofia do mestre, logo, permanece dentro e aquém da compreensão da totalidade do sistema do mestre.
O discípulo que consegue estabelecer uma relação madura e íntima com o mestre demonstrando serenidade, coragem e sabedoria é capaz de aceitar a consciência do mestre na sua totalidade e de aceitar aquilo que cabe ser desenvolvido por sua própria consciência até mesmo por não se encontrar ao alcance da consciência do mestre mas sim da sua própria consciência.
O discípulo que só consegue estabelecer uma relação infantil e ressentida com o mestre demonstrando angústia, ansiedade e ignorância (hostilidade) é incapaz de aceitar a consciência do mestre na sua totalidade e só aceita desenvolver aquela parte da consciência do mestre que se encontra ao alcance de sua própria consciência e aquém da consciência restante do mestre.
Cada discípulo que, indo além da consciência do mestre, consegue aplicar aquilo que é exclusivo de sua própria consciência estará afirmando a sua própria liberdade por ter aceito a afirmação da liberdade do mestre na sua totalidade.
Cada discípulo que, ficando aquém da consciência do mestre, consegue aplicar aquilo que é a parte da consciência do mestre com a qual sua própria consciência concorda estará afirmando a sua própria escravidão por ter aceito a escravidão do mestre exclusivamente à sua parcialidade.
Os que aplicam o sistema de Hegel na sua totalidade se libertam do mesmo e desenvolvem livres a si próprios e às suas próprias consciências e sistemas. Os que aplicam o sistema de Hegel na sua parcialidade ou num dos seus momentos se prendem ao mesmo e desenvolvem presos as partes do sistema de Hegel às quais se aprisionam suas próprias consciências sistematicamente.
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