quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Como é possível acreditar ainda em outros humanos?!





A pessoa queira ou não queira é educada e, curiosamente, quando ela se esforça para não ser produto das circunstâncias e da educação, quer dizer, quando ela se sente aprisionada como produto das circunstâncias e da educação e acredita que precisa buscar uma saída, uma libertação dessas condições é precisamente quando ela se torna ainda mais profunda e completamente um produto das circunstâncias e da educação. Todo seu esforço é de certa forma uma verificação de que todas as saídas estão fechadas e que ela deve se entregar a desenvolver a si mesma como saída, quer dizer, que ela precisa se ater a cultivar a saída e a libertação no seu próprio íntimo. Desse modo, a pessoa sente crescer a sua consciência da ausência de qualquer saída, de qualquer libertação no mundo exterior e sente crescer seu aprofundamento e sua fuga para dentro de sua consciência, sente crescer sua passagem para a liberdade de um mundo de sonhos, para a liberdade de um mundo ilusório, para a liberdade de um mundo utópico, para a liberdade de um mundo fantasmático. Ela então sente que no mundo da exterioridade ela é uma coisa, um objeto, uma realidade sem nenhuma liberdade e que no mundo da interioridade ela é um fantasma, um sujeito, um imaginário com toda a liberdade.


... E de repente, lendo a análise da mercadoria de Marx, a pessoa descobre que ela como coisa é cheia de qualidades e utilidades, já como fantasma é despossuída de qualidades e de utilidades com a exceção de ser uma mera quantidade de uma mesmice abstrata, fantasmal, um mero quantum de esforço de saída, de libertação. E, enfim, descobre que toda a liberdade fantasmática que criou, que toda a liberdade interna que criou, que toda a consciência utópica que criou, enfim, que todo o mundo de liberdade interior que criou é este quantum de esforço pela saída, pela libertação que todo dia é trocado com o quantum de esforço pela saída, pela libertação a que se dedicam os outros, ou seja, descobre que todo dia ela e os outros renovam e/ou reproduzem esse quantum fantasmal de cada um e, ao mesmo tempo, trocam com os outros a cada dia não só esse quantum determinado que reproduzem, mas também outros quanta que parecem se tornar propriedade de um mundo exterior que a todos aprisiona como coisa e a todos reduz à condição de simples coisa.


A pessoa descobre que a consciência de si, que ela desenvolveu como consciência de ser coisa no mundo e para o mundo e consciência de ser consciência em si e para si, é a própria fonte do problema e, mais ainda, é o próprio problema que a faz produto das circunstâncias e da educação. A pessoa descobre que vive num mundo onde precisa produzir as circunstâncias e ser produto da educação porque sua intervenção nas circunstâncias é igualmente intervenção nas coisas, nos objetos do mundo exterior, mas sua intervenção na educação é intervenção nos fantasmas, nos sujeitos do mundo interior. Logo, a pessoa se descobre livre para produzir as circunstâncias e aprisionada para produzir a educação e, desse modo, acredita que se exercer a liberdade de produzir as circunstâncias e exercer o aprisionamento de se educar pela educação produzida ela poderá vir a ser tanto quem muda as circunstâncias quanto quem educa os humanos, tanto quem é o produtor das circunstâncias quanto quem é o produtor da educação, tanto o produtor livre e ao acaso das circunstâncias quanto o produtor escravo e ao destino da educação. Nesse sentido, a libertação da educação bem como a libertação da consciência de si é percebida como entrega ao desenvolvimento da educação e da consciência de si, ou seja, é percebida como libertação do trabalho humano por meio do desenvolvimento do trabalho humano, logo, é a passagem para o tempo livre do trabalho humano por meio do desenvolvimento do tempo prisioneiro do trabalho humano. Portanto, a libertação é, ao mesmo tempo, aprisionamento. Porque a pessoa, queira ou não queira, é educada.



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