A pessoa queira ou não queira é educada e, curiosamente,
quando ela se esforça para não ser produto das circunstâncias e da educação,
quer dizer, quando ela se sente aprisionada como produto das circunstâncias e
da educação e acredita que precisa buscar uma saída, uma libertação dessas
condições é precisamente quando ela se torna ainda mais profunda e completamente
um produto das circunstâncias e da educação. Todo seu esforço é de certa forma
uma verificação de que todas as saídas estão fechadas e que ela deve se
entregar a desenvolver a si mesma como saída, quer dizer, que ela precisa se
ater a cultivar a saída e a libertação no seu próprio íntimo. Desse modo, a
pessoa sente crescer a sua consciência da ausência de qualquer saída, de
qualquer libertação no mundo exterior e sente crescer seu aprofundamento e sua fuga
para dentro de sua consciência, sente crescer sua passagem para a liberdade de
um mundo de sonhos, para a liberdade de um mundo ilusório, para a liberdade de
um mundo utópico, para a liberdade de um mundo fantasmático. Ela então sente
que no mundo da exterioridade ela é uma coisa, um objeto, uma realidade sem
nenhuma liberdade e que no mundo da interioridade ela é um fantasma, um
sujeito, um imaginário com toda a liberdade.
... E de repente, lendo a análise da mercadoria de Marx, a
pessoa descobre que ela como coisa é cheia de qualidades e utilidades, já como
fantasma é despossuída de qualidades e de utilidades com a exceção de ser uma
mera quantidade de uma mesmice abstrata, fantasmal, um mero quantum de esforço
de saída, de libertação. E, enfim, descobre que toda a liberdade fantasmática
que criou, que toda a liberdade interna que criou, que toda a consciência
utópica que criou, enfim, que todo o mundo de liberdade interior que criou é
este quantum de esforço pela saída, pela libertação que todo dia é trocado com
o quantum de esforço pela saída, pela libertação a que se dedicam os outros, ou
seja, descobre que todo dia ela e os outros renovam e/ou reproduzem esse
quantum fantasmal de cada um e, ao mesmo tempo, trocam com os outros a cada dia
não só esse quantum determinado que reproduzem, mas também outros quanta que
parecem se tornar propriedade de um mundo exterior que a todos aprisiona como
coisa e a todos reduz à condição de simples coisa.
A pessoa descobre que a consciência de si, que ela
desenvolveu como consciência de ser coisa no mundo e para o mundo e consciência
de ser consciência em si e para si, é a própria fonte do problema e, mais
ainda, é o próprio problema que a faz produto das circunstâncias e da educação.
A pessoa descobre que vive num mundo onde precisa produzir as circunstâncias e
ser produto da educação porque sua intervenção nas circunstâncias é igualmente
intervenção nas coisas, nos objetos do mundo exterior, mas sua intervenção na
educação é intervenção nos fantasmas, nos sujeitos do mundo interior. Logo, a
pessoa se descobre livre para produzir as circunstâncias e aprisionada para
produzir a educação e, desse modo, acredita que se exercer a liberdade de
produzir as circunstâncias e exercer o aprisionamento de se educar pela
educação produzida ela poderá vir a ser tanto quem muda as circunstâncias
quanto quem educa os humanos, tanto quem é o produtor das circunstâncias quanto
quem é o produtor da educação, tanto o produtor livre e ao acaso das
circunstâncias quanto o produtor escravo e ao destino da educação. Nesse sentido,
a libertação da educação bem como a libertação da consciência de si é percebida
como entrega ao desenvolvimento da educação e da consciência de si, ou seja, é
percebida como libertação do trabalho humano por meio do desenvolvimento do
trabalho humano, logo, é a passagem para o tempo livre do trabalho humano por
meio do desenvolvimento do tempo prisioneiro do trabalho humano. Portanto, a
libertação é, ao mesmo tempo, aprisionamento. Porque a pessoa, queira ou não
queira, é educada.
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