A tal da pessoa, que é o sujeito presente nas duas últimas
postagens, teria descoberto, na última postagem, que a maior dificuldade, na
mudança das circunstâncias e da educação, é a mudança da educação porque nela o
objeto é o próprio sujeito humano, enquanto que na mudança das circunstâncias são
elas, as circunstâncias, que são o objeto do sujeito humano. Mudar as circunstâncias e, com elas,
mudar as forças humanas de produção é algo que parece ser muito fácil e que,
inclusive, pode se apresentar como uma característica de um modo de produção,
como a tal da “revolução incessante dos instrumentos/meios de produção”. Porém,
mudar a educação e, com ela, mudar as relações humanas de produção é algo que
parece muito difícil e que, inclusive, pode se apresentar como uma dificuldade característica de um tipo de modo de produção, como o tal da “exploração
incessante dos sujeitos/forças humanas de trabalho”.
Uma mudança dos meios de produção que parece mudar as forças
humanas de produção é a que vem se desenvolvendo com os computadores, a
internet e que vem reduzindo o poder dos sujeitos sindicalizados, dos
sindicatos de forças humanas de trabalho e, ao mesmo tempo, expandindo os
sujeitos do mercado de trabalho informal, os mercados de trabalho informal para
as forças humanas de trabalho. Com os novos meios de produção ocorre a
dissolução de toda uma série de formalizações que expressavam o poder adquirido
pelos sujeitos, pelas forças humanas de trabalho, mas, por outro lado, também
ocorre o deslocamento dos sujeitos, das forças humanas de trabalho para uma
série de redes de informalizações que adquirem e desenvolvem seu poder como
sistema, modo de produção.
Os sujeitos sindicalizados e os sindicatos das forças
humanas de trabalho passaram a perder forças, empregos e capacidades para
formalizar o mercado de trabalho. Já os sujeitos empreendedores e os
empreendedorismos das forças humanas de trabalho passaram a ganhar forças, usos
e capacidades para informalizar o mercado de trabalho. Com os sindicatos
incapacitados para garantir direitos, salários, empregos, jornadas de trabalho
e com os mercados informais garantindo a expansão dos empreendimentos, dos
ganhos monetários, das alternativas aos empregos e às jornadas
formais/regulamentadas de trabalho as relações humanas de produção que
permanecem invariantes são as relações humanas mercantis ou são as relações
humanas que exploram os humanos como mercadorias para outros humanos.
Mesmo que a mercadoria não deixe de ser mercadoria, quando
ela é formal bem como quando ela é informal, ou seja, mesmo que não passe de uma ilusão acreditar que a
formalização suprime a mercadoria, o que se destaca na
mercadoria informal é a predominância da vivência cotidiana, no âmbito da
sociedade civil capitalista, regulada quase que exclusivamente pela troca de
valor frente à antiga predominância da cidadania política regulada quase que
exclusivamente pela invariância de valor. Em ambos os casos a mercadoria
permanece predominante, mas, a mercadoria formal da cidadania política difundia
a ilusão de que a mais completa formalização da cidadania política ou do Estado
viria a suprimir a mercadoria e só deixaria subsistir a formalização sem
mercadoria. Ilusão completa porque um Estado completamente formalizado que
suprime a sociedade, logo, um Estado sem sociedade é um Estado que nunca nasceu
porque a fonte de onde se origina o Estado é a sociedade, portanto, o
contrário, uma sociedade sem Estado não só é perfeitamente possível como também é a
realidade original da sociedade e/ou da fonte do Estado: Vir a ser e existir
sem Estado. Porém, supondo que o desenvolvimento venha a permitir que o Estado
se desenvolva tão completamente que consiga suprimir sua fonte, a sociedade, e
permanecer se desenvolvendo como Estado Completo, então, também se torna
preciso supor que a sociedade exista subsumida no interior desse Estado
Completo e, nesse caso, também é preciso indagar que sociedade é esta que
existe como o conteúdo de um Estado? Bem como que Estado Completo é este que
contém uma sociedade inteira? Certamente é um Estado que circunda a sua fonte, a
sociedade, por completo, mas, então, que fonte criadora é esta que permite ser
circundada pela sua criatura? É a fonte criadora que, para se desenvolver, precisa que sua criatura a circunde e a proteja de modo que sua fonte criadora
possa superar a fonte criadora anterior que também era protegida por sua
criatura, ainda que não de forma tão completa quanto no caso do Estado Completo.
Então a fonte criadora para se desenvolver e superar uma outra fonte criadora
recorreu à proteção completa de sua criatura, o Estado. Conclusão: A fonte
criadora que permite ser circundada de forma completa pela sua criatura é uma
fonte criadora que precisa ser protegida por sua criatura até ter condições de
se desenvolver por completo e não precisar mais ser circundada completamente
por sua criatura, o Estado. Noutras palavras, a criatura e/ou o Estado Completo
nunca suprimirá a sociedade, sua fonte criadora, por mais que a circunde por
completo, mas poderá sim ser dissolvido quase por completo quando a sociedade,
sua fonte criadora, tiver se desenvolvido de forma suficientemente livre e
independente de suas necessidades de proteção, de segurança.
Essa teoria foi expressa por Marx na “Ideologia Alemã” e
noutros textos, mas se tornou prática expressa na experiência de edificação e de dissolução
da URSS no século XX. Donde se conclui que a sociedade que foi a fonte criadora
da experiência da URSS e que saiu dessa experiência suficientemente livre e
independente foi precisamente a sociedade capitalista desse momento atual de
predomínio da fonte criadora sobre a criatura, de predomínio da sociedade civil
sobre o Estado, de predomínio do mercado informal sobre o mercado formal, donde
se conclui, enfim, que o Estado Completo e/ou a criatura absoluta só pode ter
por resultado a dissolução quase Completa do Estado e/ou a dissolução quase
absoluta da criatura para que a sua fonte criadora, a sociedade, deixe
claramente explícito por que criou, fez funcionar e existir a criatura, o
Estado.
Sob outro ângulo, o Estado não parece ser parte das
circunstânjcias e sim da educação. E na educação o Estado é aquele educador que
se supõe acima e fora da subjetividade que reduz a seu objeto, a sociedade. E o
Estado educador que supõe ter reduzido a subjetividade da sociedade a objeto
abaixo e dentro da sua subjetividade é precisamente aquele que se dissolve para
que dele saia suficientemente forte a subjetividade que desenvolve
sistematicamente a exploração do humano pelo humano, a sociedade desenvolvida
da exploração capitalista/a sociedade da exploração capitalista desenvolvida.
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