sábado, 5 de novembro de 2016

Estranhamentos da tal pessoa e dos tais outros humanos







A tese de Marx sobre “As diferenças entre as filosofias da natureza de Demócrito e de Epicuro” também é uma tese sobre as diferenças entre dois filósofos da natureza que se diferenciam pela dedicação de um a mudar as circunstâncias e a dedicação do outro a mudar a educação, assim, Demócrito se atém às circunstâncias, aos objetos, às coisas, enquanto que Epicuro se atém à educação, à subjetividade, ao fantasmal, logo, Demócrito se situa naquilo que Hegel chamava de “Consciência” e que Kant chamava de “Consciência Para Si/Conhecimento”, já Epicuro se situa naquilo que Hegel chamava de “Consciência De Si” e que Kant chamava de “Crença/Vontade Prática De Si”, mas, de acordo com a tradição, Demócrito se situava na prática do saber positivo, do conhecimento e Epicuro se situava na prática do saber filosófico, da verdadeira perfeição.


Porém, isto não é suficiente para caracterizar o ponto de partida de cada um. Com isso fica caracterizado apenas que Demócrito colecionava e acumulava conhecimentos, objetos, coisas e que Epicuro exercitava e desenvolvia saber filosófico, subjetividade, fantasmalidade. Um se apoderava das circunstâncias e desenvolvia as circunstâncias, o outro se apoderava da educação e desenvolvia a educação, de modo que Demócrito desenvolvia o ter e Epicuro desenvolvia o ser.


Demócrito também partia do princípio de que as circunstâncias sensíveis eram aparência subjetiva e que a realidade objetiva eram os átomos e o vazio. Epicuro partia do princípio de que as circunstâncias sensíveis eram fenômeno objetivo e que a essência subjetiva eram os átomos e o vazio. Demócrito queria atravessar a aparência subjetiva das circunstâncias sensíveis para encontrar a realidade verdadeira dos átomos e do vazio. Epicuro aceitava e deixava em paz o fenômeno objetivo das circunstâncias sensíveis e se dedicava a elaborar a essência subjetiva dos átomos e do vazio. Por isso, o primeiro se dedicava à prática do saber positivo e o segundo se dedicava à prática do saber filosófico. Aquele que duvidava das circunstâncias sensíveis se dedicava a desenvolver circunstâncias sensíveis e o que aceitava sem nenhuma dúvida as circunstâncias sensíveis se dedicava a desenvolver a educação da subjetividade.


O desenvolvimento das circunstâncias sensíveis e da justificação delas era acompanhado todo o tempo pelo desenvolvimento dos átomos e do vazio como realidade verdadeira sob a aparência subjetiva das circunstâncias sensíveis até chegar o momento de desenvolvimento e justificação das circunstâncias cósmicas no qual a destruição e dissolução de toda a aparência subjetiva das circunstâncias cósmicas é alcançada e fica como resto, como realidade verdadeira o sistema dos átomos e do vazio inteiramente similar ao sistema cósmico que não passa de aparência subjetiva da realidade verdadeira dos átomos e do vazio.


O desenvolvimento da educação subjetiva e da justificação dela é acompanhado todo o tempo pelo desenvolvimento da elaboração dos átomos e do vazio como essência subjetiva do fenômeno objetivo das circunstâncias sensíveis até chegar ao mesmo momento da elaboração da essência subjetiva dos átomos e do vazio que corresponde ao fenômeno objetivo das circunstâncias cósmicas e de sua dissolução completa mas que, em lugar de resultar como resto a essência subjetiva dos átomos e do vazio, resulta como resto a essência subjetiva do filósofo, a essência subjetiva da subjetividade, da educação, quer dizer, a essência subjetiva da consciência humana de si, enquanto que os átomos são inteiramente dissolvidos, melhor, inteiramente sujeitos à dissolução tal qual as circunstâncias cósmicas sensíveis.


Um quer e alcança no final a realidade objetiva dos átomos e do vazio que se encontra sob a aparência subjetiva das circunstâncias sensíveis. O outro quer e alcança no final a essência subjetiva dos átomos e do vazio que se encontra dentro do fenômeno objetivo das circunstâncias sensíveis. Mas para um a realidade objetiva dos átomos e do vazio é a materialidade da realidade objetiva da positividade dos invisíveis e insensíveis átomos e vazio, donde se deduz que eles são coisas. Para outro a essência subjetiva dos átomos e do vazio é a materialidade da essência subjetiva da conceitualidade dos invisíveis e insensíveis átomos, donde se deduz que eles são fantasmas. Para aquele que chegou à realidade objetiva das coisas invisíveis e insensíveis ele também chegou, simultaneamente, à consciência fora de si. Para aquele que chegou à essência subjetiva dos fantasmas invisíveis e insensíveis ele também chegou, ao mesmo tempo, à consciência de si.


Para aquele que chegou como resultado à realidade objetiva das coisas invisíveis e insensíveis como quem chega à consciência fora de si resta agora a atividade de elaborar esse resultado para chegar à consciência de si, ou seja, chegou o momento de sair da dedicação ao saber positivo e entrar na dedicação ao saber filosófico.


Para aquele que chegou como resultado à essência subjetiva dos fantasmas invisíveis e insensíveis como quem chega à consciência de si resta agora a atividade de aplicar esse resultado para chegar à consciência fora de si, ou seja, chegou o momento de sair da dedicação ao saber filosófico e entrar na dedicação ao saber prático.



Mas, mesmo assim, aquele que vai se dedicar a filosofar a partir desse resultado permanece considerando as circunstâncias sensíveis mera aparência subjetiva e a sua elaboração da consciência de si é considerada como a elaboração que os átomos e o vazio da consciência fora de si fazem da consciência de si. E, por outro lado, aquele que vai se dedicar a praticar a partir desse resultado permanece considerando as circunstâncias sensíveis complexo fenômeno objetivo e sua aplicação da consciência fora de si é considerada como a crítica que a consciência de si faz do fenômeno objetivo ao se aplicar e imprimir nele como consciência fora de si. Noutras palavras, aquela que se dedica a filosofar a partir da consciência fora de si visando a elaboração da consciência de si desenvolve uma elaboração na qual a consciência de si vive sob tutela da realidade objetiva da consciência fora de si, quer dizer, vive teleguiado pela consciência fora de si dos átomos e do vazio. Já aquele que se dedica à prática a partir da consciência de si visando a aplicação da consciência fora de si desenvolve uma aplicação na qual a consciência fora de si vive sendo livremente impressa no fenômeno objetivo pela consciência de si, quer dizer, vive sendo autoguiada e/ou livremente desenvolvida pela consciência de si.



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