A tese de Marx sobre “As diferenças entre as filosofias da
natureza de Demócrito e de Epicuro” também é uma tese sobre as diferenças entre
dois filósofos da natureza que se diferenciam pela dedicação de um a mudar as
circunstâncias e a dedicação do outro a mudar a educação, assim, Demócrito se
atém às circunstâncias, aos objetos, às coisas, enquanto que Epicuro se atém à
educação, à subjetividade, ao fantasmal, logo, Demócrito se situa naquilo que
Hegel chamava de “Consciência” e que Kant chamava de “Consciência Para Si/Conhecimento”,
já Epicuro se situa naquilo que Hegel chamava de “Consciência De Si” e que Kant
chamava de “Crença/Vontade Prática De Si”, mas, de acordo com a tradição,
Demócrito se situava na prática do saber positivo, do conhecimento e Epicuro se
situava na prática do saber filosófico, da verdadeira perfeição.
Porém, isto não é suficiente para caracterizar o ponto de
partida de cada um. Com isso fica caracterizado apenas que Demócrito
colecionava e acumulava conhecimentos, objetos, coisas e que Epicuro exercitava
e desenvolvia saber filosófico, subjetividade, fantasmalidade. Um se apoderava
das circunstâncias e desenvolvia as circunstâncias, o outro se apoderava da
educação e desenvolvia a educação, de modo que Demócrito desenvolvia o ter e
Epicuro desenvolvia o ser.
Demócrito também partia do princípio de que as
circunstâncias sensíveis eram aparência subjetiva e que a realidade objetiva
eram os átomos e o vazio. Epicuro partia do princípio de que as circunstâncias
sensíveis eram fenômeno objetivo e que a essência subjetiva eram os átomos e o
vazio. Demócrito queria atravessar a aparência subjetiva das circunstâncias
sensíveis para encontrar a realidade verdadeira dos átomos e do vazio. Epicuro aceitava
e deixava em paz o fenômeno objetivo das circunstâncias sensíveis e se dedicava
a elaborar a essência subjetiva dos átomos e do vazio. Por isso, o primeiro se
dedicava à prática do saber positivo e o segundo se dedicava à prática do saber
filosófico. Aquele que duvidava das circunstâncias sensíveis se dedicava a
desenvolver circunstâncias sensíveis e o que aceitava sem nenhuma dúvida as
circunstâncias sensíveis se dedicava a desenvolver a educação da subjetividade.
O desenvolvimento das circunstâncias sensíveis e da justificação
delas era acompanhado todo o tempo pelo desenvolvimento dos átomos e do vazio
como realidade verdadeira sob a aparência subjetiva das circunstâncias
sensíveis até chegar o momento de desenvolvimento e justificação das
circunstâncias cósmicas no qual a destruição e dissolução de toda a aparência
subjetiva das circunstâncias cósmicas é alcançada e fica como resto, como
realidade verdadeira o sistema dos átomos e do vazio inteiramente similar ao
sistema cósmico que não passa de aparência subjetiva da realidade verdadeira
dos átomos e do vazio.
O desenvolvimento da educação subjetiva e da justificação
dela é acompanhado todo o tempo pelo desenvolvimento da elaboração dos átomos e
do vazio como essência subjetiva do fenômeno objetivo das circunstâncias
sensíveis até chegar ao mesmo momento da elaboração da essência subjetiva dos
átomos e do vazio que corresponde ao fenômeno objetivo das circunstâncias
cósmicas e de sua dissolução completa mas que, em lugar de resultar como resto
a essência subjetiva dos átomos e do vazio, resulta como resto a essência
subjetiva do filósofo, a essência subjetiva da subjetividade, da educação, quer
dizer, a essência subjetiva da consciência humana de si, enquanto que os átomos
são inteiramente dissolvidos, melhor, inteiramente sujeitos à dissolução tal
qual as circunstâncias cósmicas sensíveis.
Um quer e alcança no final a realidade objetiva dos átomos e
do vazio que se encontra sob a aparência subjetiva das circunstâncias sensíveis.
O outro quer e alcança no final a essência subjetiva dos átomos e do vazio que
se encontra dentro do fenômeno objetivo das circunstâncias sensíveis. Mas para
um a realidade objetiva dos átomos e do vazio é a materialidade da realidade
objetiva da positividade dos invisíveis e insensíveis átomos e vazio, donde se
deduz que eles são coisas. Para outro a essência subjetiva dos átomos e do vazio
é a materialidade da essência subjetiva da conceitualidade dos invisíveis e
insensíveis átomos, donde se deduz que eles são fantasmas. Para aquele que
chegou à realidade objetiva das coisas invisíveis e insensíveis ele também
chegou, simultaneamente, à consciência fora de si. Para aquele que chegou à
essência subjetiva dos fantasmas invisíveis e insensíveis ele também chegou, ao
mesmo tempo, à consciência de si.
Para aquele que chegou como resultado à realidade objetiva
das coisas invisíveis e insensíveis como quem chega à consciência fora de si
resta agora a atividade de elaborar esse resultado para chegar à consciência de
si, ou seja, chegou o momento de sair da dedicação ao saber positivo e entrar
na dedicação ao saber filosófico.
Para aquele que chegou como resultado à essência subjetiva
dos fantasmas invisíveis e insensíveis como quem chega à consciência de si
resta agora a atividade de aplicar esse resultado para chegar à consciência
fora de si, ou seja, chegou o momento de sair da dedicação ao saber filosófico
e entrar na dedicação ao saber prático.
Mas, mesmo assim, aquele que vai se dedicar a filosofar a
partir desse resultado permanece considerando as circunstâncias sensíveis mera
aparência subjetiva e a sua elaboração da consciência de si é considerada como
a elaboração que os átomos e o vazio da consciência fora de si fazem da consciência
de si. E, por outro lado, aquele que vai se dedicar a praticar a partir desse
resultado permanece considerando as circunstâncias sensíveis complexo fenômeno
objetivo e sua aplicação da consciência fora de si é considerada como a crítica
que a consciência de si faz do fenômeno objetivo ao se aplicar e imprimir nele
como consciência fora de si. Noutras palavras, aquela que se dedica a filosofar
a partir da consciência fora de si visando a elaboração da consciência de si
desenvolve uma elaboração na qual a consciência de si vive sob tutela da
realidade objetiva da consciência fora de si, quer dizer, vive teleguiado pela
consciência fora de si dos átomos e do vazio. Já aquele que se dedica à prática
a partir da consciência de si visando a aplicação da consciência fora de si
desenvolve uma aplicação na qual a consciência fora de si vive sendo livremente
impressa no fenômeno objetivo pela consciência de si, quer dizer, vive sendo autoguiada
e/ou livremente desenvolvida pela consciência de si.
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