terça-feira, 8 de novembro de 2016

A fonte criadora, a cria e a criatura.

          


          A sociedade é a fonte criadora da sociedade, quer dizer, é a fonte criadora de suas crias que se desenvolvem até se tornarem fontes criadoras de outras crias e, assim, sucessivamente. E o Estado? A sociedade é instável no sentido de ser fonte de crias e, com isso, crescer e mudar como sociedade no espaço e no tempo e mais ainda porque as crias crescem e se tornam fontes criadoras de novas crias. Então, a sociedade, nesse processo, passa por “estados” diferenciados de desenvolvimento, sem que tenha sido constituído um Estado que se diferencia da sociedade por sua “estabilidade”.


          A “instabilidade” da sociedade, que é fonte criadora de crias, que se tornam novas fontes criadoras de novas crias, é uma “instabilidade” muito estável, no sentido de ser um processo contínuo de desenvolvimento da sociedade, da fonte criadora e de suas crias.


          A sociedade renova a si mesma através de seus sócios que se constituem como renovadores, nesse processo de renovação, que originam uma nova sociedade e, ao mesmo tempo, criam seus sócios sucessores que também vão originar a constituição duma nova sociedade. Entre a fonte criadora da antiga sociedade e a fonte criadora que se desenvolve a partir das crias existe um período de predomínio da fonte criadora da antiga sociedade com suas crias. Então, quando, as crias começam a se tornar as novas fontes criadoras, as antigas fontes criadoras, que já não são mais crias faz muito tempo, estão deixando de ser fontes criadoras, mas elas permanecem existindo como criaturas. Durante o período de predomínio da criação sobre as crias as fontes criadoras começam seu processo de vir a ser criaturas. São essas criaturas que protegem as crias durante a criação bem como representam o predomínio das fontes criadoras sobre as crias.


          As crias, no entanto, se tornam novas fontes criadoras e, desse modo, trazem ao mundo novas crias, bem como iniciam seu próprio processo de se tornar criaturas durante a criação. As primeiras e antigas criaturas já estão constituídas quando as novas fontes criadoras de crias deixaram de ser apenas crias e estão vindo a ser novas criaturas. As antigas criaturas, que protegeram as crias até que elas começaram a se tornar fontes criadoras, tendem a permanecer sendo representantes das antigas fontes criadoras e da antiga criação, enquanto que as novas fontes criadoras de crias que estão surgindo são, em parte, crias das antigas fontes criadoras e da antiga criação e, em parte, fontes criadoras de novas crias e nova criação, portanto, também são novas criaturas ou criaturas da nova criação.


          O Estado parece ser oriundo do espaço-tempo das criaturas, seja das criaturas da fonte criadora original, seja das criaturas da fonte criadora originada das crias. A passagem da fonte criadora original das crias para a condição de criatura ocorre junto com a passagem das crias à condição de novas fontes criadoras e, consequentemente, também à condição de novas criaturas. Então, quando as crias estão se tornando novas fontes criadoras é o momento que as antigas fontes criadoras estão se tornando criaturas. Se as crias tiveram sua criação por meio das fontes criadoras originais, então as novas fontes criadoras da criação de novas crias são mediadas no desenvolvimento da sua nova criação pelas criaturas da antiga criação. O Estado parece ser o espaço-tempo das criaturas da antiga fonte criadora que aprovam e/ou rejeitam, melhor, que procura regular o desenvolvimento das novas criações das novas crias das novas fontes criadoras. É um lugar determinado como de passagem do “bastão” e também um lugar de reunião de todas as antigas criaturas e de acolhimento parcial das novas criaturas que representam as novas criações das novas fontes criadoras de novas crias.


          Porque as criaturas tiveram de formalizar o Estado, afinal, essa passagem de fonte criadora para criatura é uma passagem natural que ocorre e pode continuar ocorrendo na sociedade sem que dela se separe como Estado? Então, porque o Estado se separou da sociedade? Porque o futuro das criaturas não é mais o de ser fonte criadora e sim o de ser dissolução no vazio e o seu presente é feito de saudades de sua condição de antiga fonte criadora de crias. As novas fontes criadoras, por sua vez, foram crias das atuais criaturas e percebem que no futuro também serão criaturas. As diferenças entre as antigas e as novas condições sociais trazem à tona diferenças sociais, trazem à tona diferenças nos afetos tanto das antigas fontes criadoras de crias com suas novas fontes criadoras de crias quanto das antigas crias com suas novas condições como fontes criadoras de crias e, finalmente, trazem à tona diferenças afetivas das criaturas tanto em relação às antigas quanto às novas fontes criadoras bem como em relação às antigas e às novas crias. O Estado resulta então dessas diferenças sociais e afetivas como tentativa de conciliar ou, pelo menos, impedir que tais diferenças e/ou dissociações que ocorrem na sociedade venham a ser dissolventes da própria sociedade. Se as fontes criadoras de crias e as crias que se tornam novas fontes criadoras de crias estão presentes na sociedade como egos, então o Estado, que resulta das diferenças sociais e afetivas dos diferentes egos, se apresenta para o conjunto desta sociedade com diferenças sociais e afetivas como um único e mesmo Superego que combina e concilia todas essas diferenças sociais e afetivas num mesmo contrato social que impede a dissociação e dissolução da sociedade.


          Se nos concebermos como seres para a morte nos conceberemos como criaturas, logo, como seres para o Estado, para o Superego ou consciência fora de si. Mas, se nos concebermos como seres da vida nos conceberemos como crias e fontes criadoras, logo, como seres para a sociedade, para o Ego ou consciência de si.



          “... nada além... nada além de uma... ilusão...”


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