A sociedade é a fonte criadora da sociedade, quer dizer, é a fonte criadora de suas crias que se desenvolvem até se tornarem fontes criadoras de outras crias e, assim, sucessivamente. E o Estado? A sociedade é instável no sentido de ser fonte de crias e, com isso, crescer e mudar como sociedade no espaço e no tempo e mais ainda porque as crias crescem e se tornam fontes criadoras de novas crias. Então, a sociedade, nesse processo, passa por “estados” diferenciados de desenvolvimento, sem que tenha sido constituído um Estado que se diferencia da sociedade por sua “estabilidade”.
A “instabilidade” da sociedade, que é
fonte criadora de crias, que se tornam novas fontes criadoras de novas crias, é
uma “instabilidade” muito estável, no sentido de ser um processo contínuo de
desenvolvimento da sociedade, da fonte criadora e de suas crias.
A sociedade renova a si mesma através
de seus sócios que se constituem como renovadores, nesse processo de renovação,
que originam uma nova sociedade e, ao mesmo tempo, criam seus sócios sucessores
que também vão originar a constituição duma nova sociedade. Entre a fonte
criadora da antiga sociedade e a fonte criadora que se desenvolve a partir das
crias existe um período de predomínio da fonte criadora da antiga sociedade com
suas crias. Então, quando, as crias começam a se tornar as novas fontes
criadoras, as antigas fontes criadoras, que já não são mais crias faz muito
tempo, estão deixando de ser fontes criadoras, mas elas permanecem existindo
como criaturas. Durante o período de predomínio da criação sobre as crias as
fontes criadoras começam seu processo de vir a ser criaturas. São essas
criaturas que protegem as crias durante a criação bem como representam o
predomínio das fontes criadoras sobre as crias.
As crias, no entanto, se tornam novas
fontes criadoras e, desse modo, trazem ao mundo novas crias, bem como iniciam
seu próprio processo de se tornar criaturas durante a criação. As primeiras e
antigas criaturas já estão constituídas quando as novas fontes criadoras de
crias deixaram de ser apenas crias e estão vindo a ser novas criaturas. As
antigas criaturas, que protegeram as crias até que elas começaram a se tornar
fontes criadoras, tendem a permanecer sendo representantes das antigas fontes
criadoras e da antiga criação, enquanto que as novas fontes criadoras de crias
que estão surgindo são, em parte, crias das antigas fontes criadoras e da
antiga criação e, em parte, fontes criadoras de novas crias e nova criação,
portanto, também são novas criaturas ou criaturas da nova criação.
O Estado parece ser oriundo do
espaço-tempo das criaturas, seja das criaturas da fonte criadora original, seja
das criaturas da fonte criadora originada das crias. A passagem da fonte criadora
original das crias para a condição de criatura ocorre junto com a passagem das
crias à condição de novas fontes criadoras e, consequentemente, também à
condição de novas criaturas. Então, quando as crias estão se tornando novas
fontes criadoras é o momento que as antigas fontes criadoras estão se tornando
criaturas. Se as crias tiveram sua criação por meio das fontes criadoras
originais, então as novas fontes criadoras da criação de novas crias são
mediadas no desenvolvimento da sua nova criação pelas criaturas da antiga
criação. O Estado parece ser o espaço-tempo das criaturas da antiga fonte
criadora que aprovam e/ou rejeitam, melhor, que procura regular o
desenvolvimento das novas criações das novas crias das novas fontes criadoras.
É um lugar determinado como de passagem do “bastão” e também um lugar de
reunião de todas as antigas criaturas e de acolhimento parcial das novas
criaturas que representam as novas criações das novas fontes criadoras de novas
crias.
Porque as criaturas tiveram de
formalizar o Estado, afinal, essa passagem de fonte criadora para criatura é uma
passagem natural que ocorre e pode continuar ocorrendo na sociedade sem que
dela se separe como Estado? Então, porque o Estado se separou da sociedade?
Porque o futuro das criaturas não é mais o de ser fonte criadora e sim o de ser
dissolução no vazio e o seu presente é feito de saudades de sua condição de
antiga fonte criadora de crias. As novas fontes criadoras, por sua vez, foram
crias das atuais criaturas e percebem que no futuro também serão criaturas. As
diferenças entre as antigas e as novas condições sociais trazem à tona
diferenças sociais, trazem à tona diferenças nos afetos tanto das antigas
fontes criadoras de crias com suas novas fontes criadoras de crias quanto das
antigas crias com suas novas condições como fontes criadoras de crias e,
finalmente, trazem à tona diferenças afetivas das criaturas tanto em relação às
antigas quanto às novas fontes criadoras bem como em relação às antigas e às
novas crias. O Estado resulta então dessas diferenças sociais e afetivas como
tentativa de conciliar ou, pelo menos, impedir que tais diferenças e/ou
dissociações que ocorrem na sociedade venham a ser dissolventes da própria
sociedade. Se as fontes criadoras de crias e as crias que se tornam novas
fontes criadoras de crias estão presentes na sociedade como egos, então o
Estado, que resulta das diferenças sociais e afetivas dos diferentes egos, se
apresenta para o conjunto desta sociedade com diferenças sociais e afetivas
como um único e mesmo Superego que combina e concilia todas essas diferenças sociais
e afetivas num mesmo contrato social que impede a dissociação e dissolução da
sociedade.
Se nos concebermos como seres para a
morte nos conceberemos como criaturas, logo, como seres para o Estado, para o
Superego ou consciência fora de si. Mas, se nos concebermos como seres da vida
nos conceberemos como crias e fontes criadoras, logo, como seres para a
sociedade, para o Ego ou consciência de si.
“... nada além... nada além de uma... ilusão...”
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