O interdito
vive em alguma instituição, em geral, no seio da família, mas também pode viver
em qualquer outra onde seja mantido na sua menoridade.
Existem algumas situações excepcionais que parecem contradizer esta menoridade do interdito. Por exemplo,
quando o interdito vive numa instituição universitária, num instituto de
pesquisa e/ou é celebrado como um gênio
acadêmico, filosófico, literário, musical, científico, da biologia, da física
etc. A questão é que a menoridade do interdito é uma tal capacidade de abstração
que a deixa alienada da capacidade de concreção
da maioria, da maioridade, mas, por
outro lado, lá no âmbito da minoria,
tal capacidade de abstração não só é reconhecida, mas é celebradíssima por ser uma
tão genial capacidade de apropriação
abstrata.
Este
interdito é o clássico e aparece
amenizado naquelas expressões “de gênio e louco ou de médico e louco todos tem
um pouco” que buscam socializar o seu caráter aristocrático. Porém, existem outros interditos que não são nada
geniais e para os quais também se indica o caminho do exercício e/ou da prática
da capacidade de abstração como forma de reconhecimento e de saída da menoridade. É isso o que propõe e faz Kant com sua filosofia e não
tão só com sua “Resposta à questão: O Que É O Esclarecimento? ”. Porém é com
este último texto que ele estabelece e inscreve o caminho de saída da
menoridade como exercício e prática da emancipação política, como exercício e
prática da democracia de uma sociedade burguesa.
Hegel vai
exercitar e praticar essa capacidade de abstração ao máximo e, por isso, ele
vai ultrapassar as fronteiras estabelecidas por Kant para o conhecimento
possível, que é exclusivamente do fenômeno e nunca do númeno, por meio da sua
“Fenomenologia do Espírito” que parte igualmente do conhecimento dentro dos
limites estritos do fenômeno e avança progressivamente de conhecimento de (um)
espírito fenomênico a conhecimento de (outro) espírito fenomênico até chegar ao
conhecimento completo do espírito que se torna fenômeno, logo, alcançando um
conhecimento absoluto do espírito e, assim, também um conhecimento fenomênico
do espírito absoluto e, portanto, um conhecimento fenomênico do númeno.
Mas, na
verdade, para Kant, o uso da capacidade de abstração que permite e faz a saída
da menoridade não é um desenvolvimento propriamente dito do conhecimento do fenômeno e sim um
desenvolvimento da prática do
fenômeno de um suposto númeno, ou seja, o esclarecimento
é feito por quem assumindo a sua suposição
ou hipótese de como seja o númeno
desenvolve essa crença como prática fenomênica da sua capacidade de
abstração para se apropriar e concretizar o númeno suposto. Como não existe um
conhecimento do númeno e só é possível supor o númeno, de modo que cada um pode
supor o númeno de acordo com a sua crença, então é a prática da crença de cada
um que se torna o exercício da capacidade de abstração e, por aí, também, se
torna prática do esclarecimento e/ou de saída da menoridade pelo uso público da
razão em torno da prática da(s) crença(s) e não mais em torno da crença de cada
um. E, nesse sentido, se torna possível compreender a atividade de Schopenhauer
que simplesmente nega o tal do conhecimento fenomênico de Kant e só considera a
possibilidade de acesso do sujeito à coisa em si ou ao númeno que nele se incorpora
como prática, mas não como prática duma crença racional e sim como prática duma
vontade que nele se incorpora e dele se apropria e a ele concretiza como mundo,
quer dizer, para além da mera representação do mundo. Ou seja, para ele é a
prática da forma subjetiva que importa e não a forma objetiva que a forma
subjetiva contempla, quer dizer, o que importa é a vontade do sujeito e não a
representação do sujeito. Daí que a prática da vontade do sujeito não seja mais
coerente e de acordo com a representação do sujeito e, nesse sentido, não seja
mais racional e seja sim, até mesmo, irracional, por ser coerente e de acordo
com a vontade do sujeito, logo, como a vontade do sujeito pode ser mutável e
contradizer uma representação fixa dessa vontade do sujeito, então, o
esclarecimento se torna a livre prática dessa vontade e/ou o
esclarecimento assume a emancipação
política como a livre prática da vontade/a prática da vontade livre.
Essa
diferença entre Kant e dois de seus continuadores por seus próprios méritos, Hegel
e Schopenhauer, vai se constituir também numa diferença entre a emancipação
política que sistematiza o poder político do Estado/representação e a
emancipação política que sistematiza o poder civil da Sociedade Civil/vontade.
Com efeito,
Hegel é um homem da universidade e Schopenhauer é um homem da Sociedade Civil.
O movimento hegeliano pós-Hegel vai se voltar para fora da universidade e para
dentro da Sociedade Civil de modo que vai querer mudar a Sociedade Civil para
com ela combater e mudar o Estado.
É aí que se situa Marx. Aquilo que chama a atenção é que na “Carta
ao Pai” e na “tese de doutorado” Marx se declara materialista. Na “Carta” ele
faz um histórico de sua formação filosófica na qual antes de Hegel predominava
Kant, mas, mesmo assim, ele já se dizia materialista, apesar de estar sob a
influência de Kant e, depois, de quem ele não gostava e considerava seu inimigo,
Hegel. Ele fala de sua tentativa de construir um sistema materialista se
baseando, ao que tudo indica, num filósofo estoico da Grécia Antiga, Cleantes
de Assos (ver em https://pt.wikipedia.org/wiki/Cleantes_de_Assos)
que defendia o materialismo e se diferenciava dos demais por se manter através
do trabalho manual para poder se dedicar à filosofia. Ele chamou este sistema
de “Cleanthes ou o Ponto de Partida e a Necessária Continuação da Filosofia”
(ver em http://www.scientific-socialism.de/KMFEDireitoCAP4Port.htm#_ftnref10).[Cleanto
também é personagem do debate duma obra de David Hume sobre a religião]. E ele simplesmente entrou em desespero, já que sua pretensão era dar uma
resposta definitiva ao odiado sistema de Hegel, e para sua desgraça ele
descobre que o seu sistema materialista terminava ali onde começava o sistema
idealista de Hegel, ou seja, descobre que seu materialismo está aquém do
idealismo de Hegel. Ele queima seu trabalho e, inteiramente contrariado, se
torna discípulo do detestável Hegel.
Já na “tese”
ele não é tão emocional, não é tão sentimental quando se refere a Hegel e, até
mesmo, demonstra um respeito e uma aceitação da dignidade de Hegel que o diferencia
dos demais discípulos aos quais, aliás, critica por suspeitarem de Hegel
quando, lá atrás, o aceitaram entusiasmados. O percurso dos discípulos que está
criticando é o inverso do seu próprio percurso. Ele que detestava e suspeitava
de Hegel fica decepcionado com sua própria limitação e acaba aceitando a
superioridade de Hegel e se tornando seu discípulo, já os demais discípulos
adoravam e aceitavam Hegel entusiasmados e quando encontram uma limitação no
uso do sistema hegeliano acusam Hegel de ser suspeito e de agir de forma
detestável, ou seja, o acusam de propositalmente manter o sistema limitado e de
esconder essa limitação do sistema de todos. Marx os critica dizendo que Hegel
não merece isso nem é suspeito de nada, muito menos de limitar seu sistema
propositalmente. Ao contrário, considera que se o sistema de Hegel está de
algum modo efetivamente limitado, então este é um problema filosófico que
precisa ser resolvido de modo filosófico. Considera, portanto, que o problema
decorre de uma compreensão e de um desenvolvimento insuficiente do princípio
filosófico do qual parte e no qual se sustenta o sistema filosófico. E para
poder resolver isso considera que é preciso aceitar e conhecer a consciência do
filósofo na sua intimidade para vir a perceber o que é que aparece nela como
uma consciência exterior, quer dizer, como aquilo que sua consciência ainda não
conseguiu conhecer filosoficamente. De certo modo este seu método é uma
reflexão sobre a trajetória de sua própria consciência íntima que descobre que seu
princípio materialista está aquém do princípio idealista de uma consciência
externa, a de Hegel, e, assim, se submete a ela para apreender a sua
interioridade e vir, posteriormente, a desenvolver o princípio materialista da
sua própria consciência para além do princípio idealista da consciência de
Hegel. Portanto, aos olhos de Marx, aquilo que está incomodando os demais
discípulos de Hegel não é nenhum ato suspeito de Hegel e sim a limitação a que
chegou o princípio idealista de seu sistema. Então, a seu ver, a superação do
princípio idealista do sistema de Hegel se torna viável fazendo a passagem do
princípio idealista do sistema para o princípio materialista do sistema.
Na “tese”
fica bem claro que Marx quer passar o sistema do idealismo para o materialismo,
logo, quer passar o sistema da filosofia para o mundo, da teoria para a prática.
Mas, também fica claro, que essa é uma passagem filosófica e não uma passagem
mundana, ou seja, não se trata dum abandono da filosofia em troca da adoção do
mundo e se trata sim é de um desenvolvimento da filosofia que traz e
materializa no mundo seu desenvolvimento filosófico como prática do próprio
mundo e, desse modo, faz o mundo adotar a filosofia e abandonar a ausência de
filosofia na qual vivia anteriormente.
Isto fica
ainda mais claro quando Marx desenvolve a tese de que não é o espírito nem é o
Estado que são responsáveis pelo desenvolvimento humano, mas que é sim a
matéria e é a sociedade humana que são responsáveis pelo desenvolvimento
humano, logo, se a matéria e a sociedade humana se desenvolverem de forma
consciente de si mesmas, então elas se desenvolverão de forma humana material e
socialmente científicas, quer dizer,
como princípio filosófico
materialista. Mas, isso não é estranho? Afinal, porque Marx defende a
realização efetiva do sistema hegeliano? Porque ele afirma que é o sistema
hegeliano a única realidade que, na Alemanha, está suficientemente avançada
para manter relações de correspondência com o desenvolvimento humano material e
social mais avançado que é a realidade da Inglaterra e da França. O idealismo
de Hegel é a única realidade à altura do materialismo da Inglaterra e da
França, logo, a sua limitação é precisamente ser apenas idealismo, apenas
consciência de uma realidade que existe fora da Alemanha, uma realidade
exterior e/ou de uma consciência exterior à Alemanha e que é uma consciência
materialista e não idealista como na Alemanha. Como podemos verificar Marx viu
no idealismo de Hegel a ponte para chegar ao materialismo inglês e francês, ou
seja, a limitação do seu materialismo, que estava aquém do idealismo de Hegel, era uma limitação do materialismo alemão, porque apenas o idealismo alemão
estava à altura do materialismo inglês e francês, portanto, apenas
materializando o idealismo alemão seria possível trazer para a Alemanha um
materialismo à altura dos avançados materialismos da Inglaterra e da França. A
relação do seu materialismo aquém do idealismo de Hegel se torna agora a
realização efetiva do idealismo de Hegel para poder fazer a travessia para chegar
até o materialismo que está além do idealismo de Hegel.
Porém, Marx - que se tornou discípulo de Hegel para realizar o idealismo e, assim, alcançar o
materialismo que está além do idealismo e que tentou fazer esta passagem na
Alemanha desde a sua “tese de doutorado”, passando por sua atividade na “Gazeta
Renana”, por suas “Crítica da filosofia do direito de Hegel” e por sua “Introdução
à Crítica da Filosofia do Direito de Hegel”, onde sua proposta fica ainda mais
clara, passando por sua assunção do comunismo e por uma série de textos que vão
até meados dos anos 50 e que acompanham e sucedem as lutas que desenvolveu na
Alemanha dirigindo a “Nova Gazeta Renana” - avalia que a realização efetiva do
idealismo de Hegel na Alemanha está interditada e que a Alemanha só poderá realizar
efetivamente o idealismo hegeliano e passar para o materialismo além de Hegel
quando o materialismo além de Hegel chegar de fora na Alemanha. Portanto, Marx
decide ir ao encontro do materialismo além de Hegel se mudando para a
Inglaterra e se dedicando aí a fazer a “Crítica da Economia Política”, quer
dizer, passando aí a realizar efetivamente o idealismo hegeliano como “Crítica
do Materialismo Inglês”, ou seja, passando a desenvolver aí o seu materialismo
que é a realização efetiva do idealismo
hegeliano como consciência à altura do materialismo inglês, logo, também
passando igualmente a desenvolver o seu materialismo que vai além do idealismo
de Hegel, que está à altura do materialismo inglês, como materialismo que vai
além do materialismo inglês. Daí que sua “Crítica da Economia Política” e/ou sua
crítica do materialismo inglês seja tanto sua realização efetiva do idealismo
hegeliano que corresponde ao materialismo inglês quanto acesso decisivo ao seu
próprio materialismo que está além do idealismo hegeliano e além do materialismo
inglês.
Marx estava
interdito no seu materialismo aquém do idealismo de Hegel e para sair de sua
interdição se assumiu discípulo de Hegel de modo a tirar seu materialismo da
situação aquém para poder ir além realizando efetivamente/materialmente o
idealismo de Hegel. Seu projeto de saída da interdição e/ou de saída da
menoridade e/ou de emancipação do seu materialismo passava pelo aprendizado na
escola idealista de Hegel e pela colocação em prática desse aprendizado na
realidade material alemã. Nesse processo ele encontrou resistências na
realização efetiva do idealismo na Alemanha porque a realidade alemã era muito
atrasada e para prosseguir o avanço na realização efetiva do idealismo na
Alemanha seria preciso avançar a realidade alemã. Aliás, era precisamente para
poder avançar a realidade alemã que ele tratava de realizar materialmente o
idealismo hegeliano na Alemanha. Porém, fazendo um balanço das resistências que
encontrou no processo de realização do idealismo hegeliano e/ou no processo de
avanço da realidade alemã ele concluiu que o processo de realização do
idealismo hegeliano, quer dizer, o processo de alcançar o seu materialismo além
do idealismo de Hegel e também o processo de avançar materialmente a realidade
alemã tinha maior possibilidade de superar as resistências presentes na Alemanha
se fosse desenvolvido na Inglaterra onde tais resistências estavam ausentes,
ainda que outras resistências estivessem presentes. Assim, Marx pôde chegar com
seu materialismo, dependente da realização do idealismo hegeliano, num campo
diretamente materialista e nele praticar a realização do idealismo hegeliano,
quer dizer, praticar o seu materialismo num campo diretamente materialista e
correspondente ao da consciência idealista hegeliana. Pôde assim perceber que a
limitação, da consciência idealista hegeliana, que era a ausência do seu ser
materialista inglês, estava sanada, mas, ao mesmo tempo, esta unidade da
consciência idealista hegeliana e do ser materialista inglês permanecia, enquanto
unidade, aquém da consciência materialista marxiana e do outro ser materialista
inglês. Uma era unidade da consciência idealista hegeliana e do ser
materialista inglês burguês e a outra era a unidade da consciência materialista
marxiana e do ser materialista inglês proletário. Daí que era preciso fazer a
crítica da primeira unidade (“Crítica da Economia Política”) para poder
desenvolver e emancipar a segunda unidade.
Mas, estamos
num período que a emancipação do proletariado fracassou, até porque ela adotou
a realização efetiva do idealismo hegeliano sob a forma de realização efetiva
do Estado hegeliano, quer dizer, precisamente daquilo que Marx desenvolvia uma
crítica para fazer a realização efetiva do idealismo hegeliano, ou seja,
considerava que o desenvolvimento não resultava nem da evolução do espírito nem
da evolução do Estado e sim da evolução material e da evolução da sociedade humana.
De modo que para Marx a realização efetiva do idealismo hegeliano era a maneira
de trazer à tona e desenvolver a realidade material e social humana, logo, era
a maneira de dissolver o idealismo do espírito e do Estado no materialismo da
matéria e da sociedade humana. Precisamente o contrário daquilo que a dita emancipação
do proletariado realizou no século XX. Não foi a emancipação do proletariado que
se realizou no século XX e sim a interdição do proletariado que se realizou no
século XX e se expandiu no século XXI. Até agora estamos na plena interdição do
proletariado.
Que fazer?
Talvez o que
importe seja cada um descobrir porque está na interdição e porque não está na
emancipação. Marx fazia uso público de sua razão como jornalista. Porém o que é
fazer uso público de sua razão como blogueiro e/ou através da internet?
Aparentemente é adentrar muito mais por um uso privado do que por um uso
público da razão, já que equivale quase que a lançar ao mar garrafa com mensagem ou
quase que a trocar correspondências com conhecidos ou quase que a organizar a
comunicação de pequenos grupos ou ainda quase que a desenvolver uma atividade
jornalística em nichos ou grupos privados e muitíssimo raramente corresponde a
desenvolver uma atividade comunicativa com o grau de abrangência do jornal, do
rádio, da televisão. Porque? Porque a quantidade de participantes quase que
reproduz a sociedade real tal qual ela existe e, desse modo, também há de
existir diferentes graus de comunicação e, evidentemente, aqueles que
conseguirem efetivar o maior grau de comunicação na internet serão aqueles que
conseguirão estar à altura e competir com os jornais, rádios, televisões.
Porém, se o
uso da internet não equivale ao de nenhum dos meios de comunicação anteriores
no grau de comunicação que se pode alcançar nela, então também podemos nos
perguntar se esse grau de comunicação muito mais íntimo e privado do que
externo e público é indício duma outra materialidade e sociabilidade humanas de
modo que a elaboração da emancipação é inteiramente outra bem como a interdição
é igualmente outra.
Como sair
dessa?!
Nenhum comentário:
Postar um comentário