O problema é mais precisa e exatamente qual? No Brasil, em
1930, Getúlio Vargas acusou o governo de favorecer uma fraude eleitoral, contestando
o resultado das eleições presidenciais e partindo para a luta armada contra o governo,
numa aliança do Rio Grande do Sul e da Paraíba com Minas Gerais contra São Paulo
e o Governo Federal. Getúlio Vargas saiu vitorioso e a tomada do poder passou a
ser chamada e conhecida como Revolução de 30 e não de Golpe de 30. São Paulo
permaneceu o principal centro de oposição a Vargas e em 1932 desencadeou o que
passou a ser conhecido como a Revolução Constitucionalista de 32. E São Paulo novamente
perdeu. Em novembro de 1935 os comunistas do PCB tentaram tomar o poder em
Natal, Recife e no Rio de Janeiro (ver: http://cpdoc.fgv.br/producao/dossies/FatosImagens/RevoltaComunista)
e eles se basearam na Aliança Nacional Libertadora que foi criada em março de
1935, mas, já em 4 de abril, o governo Vargas sancionou a primeira Lei de
Segurança Nacional (ver: https://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_de_Seguran%C3%A7a_Nacional)
que veio em seguida ao Acordo Comercial Brasil-Estados Unidos de 2 de fevereiro
(ver: https://pt.wikipedia.org/wiki/1935_no_Brasil).
Em 1937 vem, finalmente, o que entrou para a história como o Golpe do Estado
Novo (ver: https://pt.wikipedia.org/wiki/Constitui%C3%A7%C3%A3o_brasileira_de_1937)
e é curioso que Olímpio Mourão Filho, que será o golpista desencadeador do
Golpe de 64, seja o golpista do Estado Novo, junto com Eurico Gaspar Dutra, que
será sucessor de Vargas, colocará o PCB na ilegalidade e também participará, como
apoiador, do Golpe de 64, e ainda a participação decisiva de Pedro Aurélio de Góes
Monteiro (ver: https://pt.wikipedia.org/wiki/Pedro_Aur%C3%A9lio_de_G%C3%B3is_Monteiro)
considerado o formulador da Doutrina de Segurança Nacional desde 1934. Pelo
afastamento que esses três militares golpistas tiveram de Getúlio Vargas é de
se supor que Vargas, já antes do tiro no coração, não queria mais o retorno da
ditadura e sim a permanência da democracia. E se para Vargas o tiro em Rubens
Vaz foi um tiro que acertou nas costas de Vargas, então, entre os seus, havia
quem queria o retorno da ditadura. (ver A tragédia/castração é uma farsa?! Ou o trauma/orgasmo é uma revelação?!; Mecânica de Demócrito a Newton e Relatividade de Epicuro a Einstein; Mãe Natureza: Amor ou Vida Mortal-e-Mortalidade vital?!; e, Impeachment desde sua invenção pelos trágicos gregos: Sófocles, Ésquilo e Eurípedes)
O poder, este é o problema. Poder do Governo e poder do
Estado. Quem tem o poder do Estado assume o poder do Governo por meio de fraude
eleitoral. Essa teria sido a praxe da República Velha até a Revolução de 30,
onde o poder do Governo e o poder do Estado são assumidos por quem os toma por
meio da luta armada. Quando Vargas retorna por meio de eleições ele não quer
mais o retorno da ditadura porque quer que o poder do Governo se exerça sobre o
poder do Estado de forma legítima, sem fraude eleitoral e sem poder armado. E
ele se suicida porque entre os seus existem aqueles que seguem um Getúlio
Vargas que ele não reconhece como sendo o autêntico Getúlio Vargas, mas, ainda
assim, ele reconhece que, no passado, deu margem para que entre os seus
existissem aqueles apoiadores dum Getúlio Vargas que foi farsante, por isso, ao
que tudo indica, percebeu e optou por retirar da vida o farsante para que o
autêntico Getúlio Vargas pudesse entrar na história, ou seja, para deixar claro
e estabelecido que é pela liberdade e pela democracia que sempre esteve
disposto a sacrificar sua vida.
Porém, seus sucessores getulistas, na época democrática,
enfrentaram, cada vez mais, uma distância entre o seu poder do Governo ou da
intenção e o poder do Estado ou do gesto, ou seja, cada vez mais, estavam sem a
capacidade de exercer efetivamente seu Governo porque o Estado não era governado
por eles e os deixava à margem do poder do Estado, em especial, por meio dos
funcionários do Estado organizados na Forças Armadas que se articulavam com os
opositores do Governo, em especial, os do partido da UDN, mas também se
articulavam com os do PSD. Além disso, os membros da Forças Armadas usavam estruturas
de informação e espionagem, que iam criando, e estavam dispostos a exercer
direta e completamente o poder do Estado assumindo o poder do Governo.
Porém, para dar o Golpe era preciso estabelecer em defesa de
que ele estava sendo dado e foi preciso esperar que os getulistas passassem da
posição de defensores da legalidade para a de transgressores da legalidade para
que o Golpe se afirmasse como legítimo defensor das instituições democráticas
que se apodera do Governo fechando essas mesmas instituições democráticas que
defende.
Brizola e outros getulistas querem se apoderar do poder do Estado
porque percebem que estão fadados a viver no inferno das intenções ou do poder
do Governo, mas sem efetivar nenhum gesto dessas intenções ou à margem do
exercício do poder do Estado. E eles acabam fazendo o serviço, requerido pelos
golpistas no poder do Estado que querem o poder do Governo, que é levar o
presidente Jango a manifestar apoio à tomada pelos getulistas e pelo povo do
poder do Estado de modo que as intenções do poder do Governo saiam do inferno e
entrem como gestos efetivos no mundo real. Na conjuntura da Guerra Fria e para
a Doutrina da Lei de Segurança Nacional estava caracterizado o movimento de
subversão comunista golpeando e se apoderando do poder do Estado, logo, as
condições para uma legitimação do Golpe de Estado que tanto prepararam e
desejaram.
Só algum tempo depois do Golpe de 64 é que veio a luta
armada contra o Regime Militar e Dilma Rousseff fez parte disso e quem fez esta
luta armada era tanto quem tinha lutado, apoiado e simpatizado com a Rede da
Legalidade liderada por Brizola quanto quem tinha lutado, apoiado e simpatizado
com as Reformas Na Lei Ou Na Marra defendidas por Brizola, quer dizer, muito
mais Na Marra porque Brizola propunha o rompimento com o PSD e com o Congresso
(Câmara e Senado) e a aliança do Governo com o Povo e os Trabalhadores
(partidos populares, sindicatos e associações).
Ora, é aí que se encontra o
problema que permanece ainda hoje “atual”. Logo após as eleições de 2014 (ver
no blog de 29/11/14 a postagem "Esta presidenta quer o diálogo!"- do
discurso da vitória de Dilma - e
"Teoria Marxista", de Cristiane Rubão {9/c}) entrou em cena uma luta
de vida ou morte do Congresso e da oposição contra o Governo Dilma e pelo leque,
melhor, espectro das forças oposicionistas que se juntaram contra Dilma, indo
do centro até à extrema-direita, ficou claro que a proposta dela, expressa no
projeto sob o nome de Decreto 8.243 de 23 de maio de 2014 (ver: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2014/Decreto/D8243.htm),
trouxe de volta a ideia de Brizola de Governo em aliança com o Povo e os
Trabalhadores e sem o Congresso, quer dizer, trouxe de volta aquilo que juntou
o centro, PSD, com a extrema-direita, UDN, em 64 em apoio ao Golpe Militar.
Então, todo o processo político
que se desencadeia durante as eleições e que explode logo após as eleições tem
por origem este problema que permaneceu central durante toda a Guerra Fria, ou
seja, quem tem o poder do Estado? As forças conservadoras do status quo ou as
forças reformistas transformadoras da realidade existente? O poder do Estado
pode sair das mãos das classes dominantes ou não pode sair das mãos das classes
dominantes? O poder do Estado caindo nas mãos das classes dominadas condena à
morte as classes dominantes ou avança para estabelecer melhores e mais
aperfeiçoadas relações democráticas de convivência pacífica entre as classes?
Enfim, o poder do Estado na Democracia é efetivamente exclusivo das forças
conservadoras das classes dominantes ou as forças reformistas das classes
dominadas também podem exercer o poder do Estado na Democracia? Enfim, só
existe a Democracia das classes dominantes porque desde que surgiu no mundo ela
foi um poder do Estado dos senhores sobre os escravos tal qual foi na Antiga
Grécia? O problema que persiste é o de saber se o poder do Estado da Democracia
só compatível com as classes dominantes e, assim, pertence a elas ou se o poder
do Estado da Democracia também é compatível com as classes dominadas e pode ser
exercido por elas? Então, no final das contas, tudo consiste em saber se este é
um problema efetivamente anacrônico ou permanece um problema atual, ou seja, a
atualidade admite ou não que as forças reformistas transformadoras da realidade
existente exerçam efetivamente o poder do Estado da Democracia, logo, se trata
também de saber no limite se efetivamente vivemos num mundo contínua
transformação, mudança e mutação ou se, ao contrário, vivemos num mundo em
contínua conservação, permanência e imutabilidade?
Tudo leva a crer, e para isto
basta olhar ao redor e ver o que acontece no mundo desde a Queda do Muro, que o
poder do Estado da Democracia é compatível com as forças reformistas
transformadoras da realidade existente porque por toda parte os países que se
apoderaram do poder do Estado sob o modelo do Estado Comunista estão
dissolvendo seu Estadão numa Sociedade Civil Democrática. Então, o Brasil está
na atualidade em condições de solucionar este problema de modo a superar
tragédias inexoráveis e traumáticos males necessários porque está em condições
de vir a afirmar que não existe mais a inexorabilidade das tragédias nem a
necessidade dos males traumáticos tal como dizia Epicuro “viver na necessidade não
é uma necessidade porque é permitido domar a necessidade” e a inexorabilidade,
logo, podemos nos libertar das tragédias e dos males porque não são inexoráveis
nem necessários.
É efetivamente isto que nos ensina
o mundo atual em permanente mutação ou não é? Temos ou não a chance de superar
em nosso país as tragédias e os males de Getúlio Vargas, de Jango, da Ditadura
Militar, da Anistia, do Impeachment de Collor, do Mensalão, da Lava-Jato, do
Réu Cunha presidindo a Câmara, da Presidente Dilma sendo submetida a
Impeachment porque defendeu um Governo direto com a Sociedade Civil sem passar
pela Câmara e o Senado?!
Nenhum comentário:
Postar um comentário