domingo, 10 de abril de 2016

A tragédia/castração é uma farsa?! O trauma/orgasmo é uma revelação?!




O espírito teórico que se torna livre em si mesmo se transforma em energia prática que sai do mundo dos mortos como vontade voltada contra o mundo que existe sem ele. Os corpos, as forças, os átomos, os espíritos teóricos ou as massas estão em queda em linha reta no vazio na mesma velocidade, que é a velocidade máxima e limite que possuem em queda no vazio, mas esta velocidade máxima e limite transforma as massas inerciais teóricas ou os espíritos teóricos livres em energias luminosas práticas que saem do mundo dos mortos e vão ao encontro umas das outras de modo que as diferenças relativas das massas entre si se tornam um sistema gravitacional.


Marx indica claramente a divisão entre Demócrito e Epicuro, que é uma divisão que continua entre Newton e Einstein, mas também entre Kant e Hegel, como uma divisão entre os partidários da positividade e os partidários do conceito. Para tomarmos Demócrito como ponto de partida parece que precisamos suprir muito mais lacunas do que se tomarmos Kant como ponto de partida, aliás, talvez, até venhamos a ser supridos em algumas de nossas lacunas relativas a Demócrito. A divisão que Marx aponta com clareza entre o ponto de vista positivo e o ponto de vista conceitual é uma divisão subjetiva que se realiza objetivamente porque ela tem início na subjetividade que quer se realizar objetivamente. Kant também parece ter clareza da divisão subjetiva entre os dois pontos de vista, mas, na sua época, o ponto de vista conceitual era o ponto de vista que tinha pendido para a metafísica e a crítica da metafísica que podia ser feita era a que pendia para o ponto de vista positivo. Estamos falando de peso e da gravidade relativa, quer dizer, da relação entre os dois lados de uma balança de acordo com o maior peso e gravidade de um lado e o menor peso e gravidade do outro, ou seja, como se diz ordinariamente nas análises das conjunturas políticas, estamos falando das correlações de forças. A afirmação do ponto de vista metafísico é a afirmação de um ponto de vista inteiramente subjetivo e não objetivo, quer dizer, é a afirmação de um ponto de vista não-físico e que se situa além do ponto vista físico, ou seja, é a plena afirmação da ideia ou do conceito como sendo aquilo que é verdadeiro, como a verdade exclusiva. A afirmação do ponto de vista positivo de Kant parte da crítica da metafísica, quer dizer, da crítica da subjetividade, da ideia ou do conceito como verdade exclusiva. A primeira coisa que a crítica da metafísica faz é um corte na potência da subjetividade, da ideia ou do conceito e, desse modo, ela perde a verdade exclusiva porque com o corte na sua onipotência subjetiva, ideal ou conceitual ela adquire a carência da potência da objetividade, do real ou da positividade, ou seja, com o corte na onipotência da subjetividade ou do conceito a crítica leva a subjetividade ou o conceito à impotência ou carência da coisa em si objetiva, real, positiva. De agora em diante a crítica restringe a potência possível da subjetividade ao acesso à coisa positiva, real, objetiva para si, quer dizer, restringe a potência possível da subjetividade ou do conceito ao sonhar com a coisa para si ou ao sonho que são as formas a priori (para si) da sensibilidade, o espaço e o tempo. E, ao mesmo tempo, amplia a potência possível da coisa em si ou da positividade de se manifestar como transe, embriaguez, alucinação, dever, imperativo que faz a subjetividade agir positivamente na efetivação para si do que supõe ser a coisa em si. Melhor: Se a potência possível do conceito ou subjetividade é a percepção sensível para si, quer dizer, exclusiva da coisa para si e nunca da coisa em si, então, quando a subjetividade ou conceito se dá conta de que não pode acessar subjetiva nem conceitualmente a coisa em si porque a coisa em si é imperceptível e insensível para a subjetividade e para o conceito, então, o sujeito e o conceito cegos, surdos, mudos, imperceptíveis e insensíveis, mas, ainda assim, subjetividade e conceituar, se lançam a inventar na prática a coisa em si possível como coisa para si.


A crítica da metafísica com o seu corte da coisa em si, com seu corte na carne, se submete à castração e, desse modo, não tendo mais a coisa em si se limita a acessar a coisa para si. E a coisa para si que pode perceber sensivelmente é aquilo que sua subjetividade pode conhecer, tem potência e poder de conhecer, enquanto que a coisa para si que não pode perceber sensivelmente é aquilo que sua subjetividade não pode conhecer, não tem potência nem poder de conhecer mas pode praticar, tem potência e poder de praticar, de desenvolver positiva e sensivelmente como se fosse efetivamente a coisa em si invisível e incognoscível. O castrado tem consciência de que seu conhecimento possível é conhecimento do sonho e de que sua prática possível é prática da sua castração, quer dizer, é prática da ilusão embriagadora para si de possuir a coisa em si.


A partir de Hegel volta a pesar e ter gravidade o ponto de vista da subjetividade ou do conceito, da ideia e com a potência da subjetividade, da ideia, do conceito de poder acessar e conhecer a coisa em si, porque agora a coisa em si é o conceito, a ideia, a subjetividade e de um modo objetivo, quer dizer, metafísico, porque tudo vem a ser alienação objetiva da ideia, da subjetividade, do conceito.


Os discípulos de Hegel, que recusam a metafísica absoluta, que recusam a ideia, o sujeito e o conceito absolutos, querem manter o conceito aceitando a física relativa, aceitando a matéria, a energia, o sujeito e o conceito relativos. Eles fazem um corte com a castração oposta à do ponto de vista da positividade, porque, para eles, a onipotência do ponto de vista do conceito corresponde a uma castração da realização positiva do conceito, corresponde a restringir a subjetividade a viver fora do mundo, fora da vida, a viver inteiramente ensimesmada e sem vir a ser, sem nascer, enfim, inteiramente aprisionada no mundo dos mortos. Este corte dos discípulos de Hegel corresponde a uma cesariana, a uma ruptura com a castração ou o aborto que impede o nascimento, corresponde um compromisso com o nascimento da subjetividade e do conceito na positividade, na existência de maneira que se torna possível não só conhecer a coisa em si, mas também praticar a coisa em si porque a coisa em si é o conceito que nasce e se realiza efetivamente na positividade, na existência. Desse modo, a subjetividade e o conceito não só nascem na matéria, mas também são eles mesmos a matéria nascida e conhecem e praticam a si mesmos como matéria e coisa em si.


Mas, a partir de Schopenhauer o peso e a gravidade do ponto de vista positivo ficam reforçados por meio da recusa do conhecimento da coisa para si, por meio da recusa do conceito e da subjetividade para si. O ponto de vista positivo de Schopenhauer só aceita prática como ponto de vista verdadeiramente positivo e, desse modo, é a arte que ocupa o espaço e o tempo da embriagadora criação de ilusão para si de possuir a coisa em si. Mais ainda o ápice dessa prática artística se dá quando o ponto de vista positivo aceita o apaziguamento budista da extirpação do desejo, quer dizer, quando o ponto de vista positivo aceita que a obra prima da criação ilusória para si de possuir a coisa em si é a prática da aceitação para si da castração como sendo a posse da coisa em si, ainda que, evidentemente, no mínimo, seja a da perda de alguma coisa em si. E Nietzsche, como discípulo de Schopenhauer, vai se voltar contra esse niilismo da prática positiva da castração que Schopenhauer considera a obra prima desse ponto vista da positividade. Nietzsche vai se ater à prática positiva como embriagadora criação da ilusão para si de possuir a coisa em si, logo, mesmo que se trate de uma ilusão, esta ilusão é resultante duma atividade criadora embriagadora, esta embriagadora criação de ilusão para si parece estar possuída efetivamente por uma coisa em si que representa a vontade de potência da coisa em si, a vontade de poder possuída pela coisa em si incognoscível, insensível. Carregar e cultuar a coisa em si como coisa possuída para si, quer dizer, cultuar o dionisíaco, que carrega o pênis (ou será o falo?), durante seus rituais ou orgias de castração, é aqui afirmar esta embriagadora criação de ilusão para si de possuir e de ser possuído pela vontade de potência da coisa em si incognoscível, esta embriagadora criação da ilusão de praticar o orgasmo, mesmo e apesar da castração da coisa em si.



Apareceu aí algo sintomático. A tragédia da castração apareceu naqueles que defendem a prática criadora da ilusão, que defendem a moral do dever, que defendem a arte, que defendem a mentira. O trauma e orgasmo da expulsão da coisa em si, do nascimento, da cesariana acompanhou aqueles que defendem o conhecimento da coisa em si e a prática sexual de conhecimento da coisa em si, a prática criadora da realidade da coisa em si, que defendem a lei do prazer, que defendem a ciência, que defendem a verdade.


 A tragédia/castração é uma farsa?! O trauma/orgasmo é uma revelação?!


Porém, parece que esquecemos das correlações de forças, não é mesmo? Em parte, não esquecemos, porque só correlacionamos os pontos de vista do conceito e da positividade, mas, por outro lado, as diferenças entre as forças conceituais e as forças positivas foram vistas como diferenças entre potências sexuais afirmadas e potências sexuais castradas. E, desse modo, a presença da funcionalidade da potência sexual e a ausência da funcionalidade da potência sexual estabelece uma diferença nas análises conjunturais das correlações de forças, mas não só porque um dos lados pode crescer e se multiplicar muito mais rápida e facilmente e sim porque um dos lados pode tanto conhecer quanto praticar o processo de criação da própria coisa em si, ou seja, um dos lados, com a presença da funcionalidade da potência sexual, parece possuir um diferencial similar, em tudo e por tudo, à alavanca de Arquimedes. Então, por mais que as potências sexuais castradas se configurem como a prática positiva dos capitalistas, seu superdesenvolvimento como capital só é possível por meio do domínio e exploração das potências sexuais afirmadas, configuradas como a prática conceitual/criativa dos trabalhadores, basta a pura e simples ruptura da prática conceitual criativa dos trabalhadores com a dominação e a exploração de suas potências sexuais afirmadas para, ao mesmo tempo, socializar e suprimir o superdesenvolvimento do capital, ainda que precisamente esta pura e simples ruptura, emancipação ou libertação dos trabalhadores seja precisamente o que é mais raro e difícil de acontecer porque a ideologia dominante e exploradora influencia as consciências no sentido de perceber as correlações de forças exclusivamente como correlações de forças positivas e não como correlações de forças conceituais. E o que é ainda pior, não mais a ideologia, mas sim a própria dominação e exploração das potências sexuais afirmadas pelas potências sexuais castradas coloca sob poder destas últimas a percepção e o acúmulo das forças conceituais criativas como capital, ou seja, estas últimas percebem que podem se assenhorear da alavanca e se elevar acima das potências sexuais afirmadas como super-homens que vem a ser sucumbindo as forças humanas de trabalho/as potências sexuais afirmadas. 



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