O espírito teórico que se torna livre em si mesmo se
transforma em energia prática que sai do mundo dos mortos como vontade voltada
contra o mundo que existe sem ele. Os corpos, as forças, os átomos, os
espíritos teóricos ou as massas estão em queda em linha reta no vazio na mesma
velocidade, que é a velocidade máxima e limite que possuem em queda no vazio,
mas esta velocidade máxima e limite transforma as massas inerciais teóricas ou
os espíritos teóricos livres em energias luminosas práticas que saem do mundo
dos mortos e vão ao encontro umas das outras de modo que as diferenças relativas
das massas entre si se tornam um sistema gravitacional.
Marx indica claramente a divisão entre Demócrito e Epicuro,
que é uma divisão que continua entre Newton e Einstein, mas também entre Kant e
Hegel, como uma divisão entre os partidários da positividade e os partidários
do conceito. Para tomarmos Demócrito como ponto de partida parece que
precisamos suprir muito mais lacunas do que se tomarmos Kant como ponto de
partida, aliás, talvez, até venhamos a ser supridos em algumas de nossas
lacunas relativas a Demócrito. A divisão que Marx aponta com clareza entre o
ponto de vista positivo e o ponto de vista conceitual é uma divisão subjetiva
que se realiza objetivamente porque ela tem início na subjetividade que quer se
realizar objetivamente. Kant também parece ter clareza da divisão subjetiva
entre os dois pontos de vista, mas, na sua época, o ponto de vista conceitual
era o ponto de vista que tinha pendido para a metafísica e a crítica da
metafísica que podia ser feita era a que pendia para o ponto de vista positivo.
Estamos falando de peso e da gravidade relativa, quer dizer, da relação entre
os dois lados de uma balança de acordo com o maior peso e gravidade de um lado
e o menor peso e gravidade do outro, ou seja, como se diz ordinariamente nas
análises das conjunturas políticas, estamos falando das correlações de forças. A
afirmação do ponto de vista metafísico é a afirmação de um ponto de vista
inteiramente subjetivo e não objetivo, quer dizer, é a afirmação de um ponto de
vista não-físico e que se situa além do ponto vista físico, ou seja, é a plena
afirmação da ideia ou do conceito como sendo aquilo que é verdadeiro, como a
verdade exclusiva. A afirmação do ponto de vista positivo de Kant parte da
crítica da metafísica, quer dizer, da crítica da subjetividade, da ideia ou do
conceito como verdade exclusiva. A primeira coisa que a crítica da metafísica
faz é um corte na potência da subjetividade, da ideia ou do conceito e, desse
modo, ela perde a verdade exclusiva porque com o corte na sua onipotência
subjetiva, ideal ou conceitual ela adquire a carência da potência da
objetividade, do real ou da positividade, ou seja, com o corte na onipotência
da subjetividade ou do conceito a crítica leva a subjetividade ou o conceito à
impotência ou carência da coisa em si objetiva, real, positiva. De agora em
diante a crítica restringe a potência possível da subjetividade ao acesso à
coisa positiva, real, objetiva para si, quer dizer, restringe a potência
possível da subjetividade ou do conceito ao sonhar com a coisa para si ou ao sonho
que são as formas a priori (para si) da sensibilidade, o espaço e o tempo. E, ao
mesmo tempo, amplia a potência possível da coisa em si ou da positividade de se
manifestar como transe, embriaguez, alucinação, dever, imperativo que faz a
subjetividade agir positivamente na efetivação para si do que supõe ser a coisa
em si. Melhor: Se a potência possível do conceito ou subjetividade é a
percepção sensível para si, quer dizer, exclusiva da coisa para si e nunca da
coisa em si, então, quando a subjetividade ou conceito se dá conta de que não
pode acessar subjetiva nem conceitualmente a coisa em si porque a coisa em si é
imperceptível e insensível para a subjetividade e para o conceito, então, o
sujeito e o conceito cegos, surdos, mudos, imperceptíveis e insensíveis, mas,
ainda assim, subjetividade e conceituar, se lançam a inventar na prática a
coisa em si possível como coisa para si.
A crítica da metafísica com o seu corte da coisa em si, com
seu corte na carne, se submete à castração e, desse modo, não tendo mais a
coisa em si se limita a acessar a coisa para si. E a coisa para si que pode
perceber sensivelmente é aquilo que sua subjetividade pode conhecer, tem
potência e poder de conhecer, enquanto que a coisa para si que não pode
perceber sensivelmente é aquilo que sua subjetividade não pode conhecer, não
tem potência nem poder de conhecer mas pode praticar, tem potência e poder de
praticar, de desenvolver positiva e sensivelmente como se fosse
efetivamente a coisa em si invisível e incognoscível. O castrado tem consciência
de que seu conhecimento possível é conhecimento do sonho e de que sua
prática possível é prática da sua castração, quer dizer, é prática da ilusão
embriagadora para si de possuir a coisa em si.
A partir de Hegel volta a pesar e ter gravidade o ponto de
vista da subjetividade ou do conceito, da ideia e com a potência da
subjetividade, da ideia, do conceito de poder acessar e conhecer a coisa em si,
porque agora a coisa em si é o conceito, a ideia, a subjetividade e de um modo
objetivo, quer dizer, metafísico, porque tudo vem a ser alienação objetiva da
ideia, da subjetividade, do conceito.
Os discípulos de Hegel, que recusam a metafísica absoluta,
que recusam a ideia, o sujeito e o conceito absolutos, querem manter o conceito
aceitando a física relativa, aceitando a matéria, a energia, o sujeito e o
conceito relativos. Eles fazem um corte com a castração oposta à do ponto de
vista da positividade, porque, para eles, a onipotência do ponto de vista do
conceito corresponde a uma castração da realização positiva do conceito,
corresponde a restringir a subjetividade a viver fora do mundo, fora da vida, a
viver inteiramente ensimesmada e sem vir a ser, sem nascer, enfim, inteiramente
aprisionada no mundo dos mortos. Este corte dos discípulos de Hegel corresponde
a uma cesariana, a uma ruptura com a castração ou o aborto que impede o
nascimento, corresponde um compromisso com o nascimento da subjetividade e do
conceito na positividade, na existência de maneira que se torna possível não só
conhecer a coisa em si, mas também praticar a coisa em si porque a coisa em si
é o conceito que nasce e se realiza efetivamente na positividade, na
existência. Desse modo, a subjetividade e o conceito não só nascem na matéria,
mas também são eles mesmos a matéria nascida e conhecem e praticam a si mesmos
como matéria e coisa em si.
Mas, a partir de Schopenhauer o peso e a gravidade do ponto
de vista positivo ficam reforçados por meio da recusa do conhecimento da coisa
para si, por meio da recusa do conceito e da subjetividade para si. O ponto de
vista positivo de Schopenhauer só aceita prática como ponto de vista verdadeiramente
positivo e, desse modo, é a arte que ocupa o espaço e o tempo da embriagadora
criação de ilusão para si de possuir a coisa em si. Mais ainda o ápice dessa
prática artística se dá quando o ponto de vista positivo aceita o apaziguamento
budista da extirpação do desejo, quer dizer, quando o ponto de vista positivo
aceita que a obra prima da criação ilusória para si de possuir a coisa em si é a
prática da aceitação para si da castração como sendo a posse da coisa em si,
ainda que, evidentemente, no mínimo, seja a da perda de alguma coisa em si. E
Nietzsche, como discípulo de Schopenhauer, vai se voltar contra esse niilismo
da prática positiva da castração que Schopenhauer considera a obra prima desse
ponto vista da positividade. Nietzsche vai se ater à prática positiva como
embriagadora criação da ilusão para si de possuir a coisa em si, logo, mesmo
que se trate de uma ilusão, esta ilusão é resultante duma atividade criadora
embriagadora, esta embriagadora criação de ilusão para si parece estar possuída
efetivamente por uma coisa em si que representa a vontade de potência da coisa
em si, a vontade de poder possuída pela coisa em si incognoscível, insensível.
Carregar e cultuar a coisa em si como coisa possuída para si, quer dizer,
cultuar o dionisíaco, que carrega o pênis (ou será o falo?), durante seus
rituais ou orgias de castração, é aqui afirmar esta embriagadora criação de
ilusão para si de possuir e de ser possuído pela vontade de potência da coisa
em si incognoscível, esta embriagadora criação da ilusão de praticar o orgasmo,
mesmo e apesar da castração da coisa em si.
Apareceu aí algo sintomático. A tragédia da castração
apareceu naqueles que defendem a prática criadora da ilusão, que defendem a
moral do dever, que defendem a arte, que defendem a mentira. O trauma e orgasmo da
expulsão da coisa em si, do nascimento, da cesariana acompanhou aqueles que
defendem o conhecimento da coisa em si e a prática sexual de conhecimento da
coisa em si, a prática criadora da realidade da coisa em si, que defendem a lei
do prazer, que defendem a ciência, que defendem a verdade.
A tragédia/castração é uma farsa?! O trauma/orgasmo é uma revelação?!
Porém, parece que esquecemos das correlações de forças, não
é mesmo? Em parte, não esquecemos, porque só correlacionamos os pontos de vista
do conceito e da positividade, mas, por outro lado, as diferenças entre as
forças conceituais e as forças positivas foram vistas como diferenças entre
potências sexuais afirmadas e potências sexuais castradas. E, desse modo, a
presença da funcionalidade da potência sexual e a ausência da funcionalidade da
potência sexual estabelece uma diferença nas análises conjunturais das
correlações de forças, mas não só porque um dos lados pode crescer e se
multiplicar muito mais rápida e facilmente e sim porque um dos lados pode tanto
conhecer quanto praticar o processo de criação da própria coisa em si, ou seja,
um dos lados, com a presença da funcionalidade da potência sexual, parece
possuir um diferencial similar, em tudo e por tudo, à alavanca de Arquimedes.
Então, por mais que as potências sexuais castradas se configurem como a prática
positiva dos capitalistas, seu superdesenvolvimento como capital só é possível
por meio do domínio e exploração das potências sexuais afirmadas, configuradas
como a prática conceitual/criativa dos trabalhadores, basta a pura e simples
ruptura da prática conceitual criativa dos trabalhadores com a dominação e a
exploração de suas potências sexuais afirmadas para, ao mesmo tempo, socializar
e suprimir o superdesenvolvimento do capital, ainda que precisamente esta pura
e simples ruptura, emancipação ou libertação dos trabalhadores seja
precisamente o que é mais raro e difícil de acontecer porque a ideologia
dominante e exploradora influencia as consciências no sentido de perceber as
correlações de forças exclusivamente como correlações de forças positivas e não
como correlações de forças conceituais. E o que é ainda pior, não mais a
ideologia, mas sim a própria dominação e exploração das potências sexuais
afirmadas pelas potências sexuais castradas coloca sob poder destas últimas a
percepção e o acúmulo das forças conceituais criativas como capital, ou seja,
estas últimas percebem que podem se assenhorear da alavanca e se elevar acima
das potências sexuais afirmadas como super-homens que vem a ser sucumbindo as
forças humanas de trabalho/as potências sexuais afirmadas.
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