sexta-feira, 14 de agosto de 2015
A que se entrega o coração valente da pátria educadora?!
Ele condenou o responsável pela Peste de Tebas ao ostracismo. Investigou e descobriu que a Peste era consequência do parricídio e do incesto cometidos pelo criminoso. Finalmente, descobriu que ele próprio era o autor dos crimes e da Peste, então partiu para o ostracismo cumprindo a pena que havia estabelecido.
Getúlio Vargas não fez isso tampouco o fez Jango, ambos resistiram aos golpes até o cometimento do suicídio real e do suicídio político. O ato de Jânio Quadros é inteiramente diferente porque não há resistência nem autenticidade no seu ato de renúncia, o qual é consequência das forças alheias e não das próprias forças do suicida nas circunstâncias. O ato de Jânio Quadros entrou para a história como o de um golpista e farsante. Collor sofreu um impeachment e, apesar da tragédia familiar, posteriormente foi absolvido das acusações, ou seja, em momento algum assumiu qualquer responsabilidade, exceto ao tentar renunciar pouco antes de ser declarado seu impeachment pelo legislativo.
Um uso público da razão através do qual, aquele que condena o crime, investiga, descobre o criminoso e executa a condenação de si próprio pode parecer algo surpreendente mas é inseparável da obediência daquele que raciocina por si mesmo, inseparável da filosofia da razão prática que se realiza como dever, como disciplina.
O tal coração valente da Dilma é capaz de tamanha tragicidade tal qual foi capaz o "Coração Valente" do filme de Mel Gibson e do lendário herói escocês?! Condenar e executar a si próprio não arredando um milímetro do dever ou disciplina de bradar: "Liberdade!!!!!!!"?!
Garantir e promover a liberdade mesmo que signifique a condenação e execução de si própria?! É este o coração valente da Dilma e também é um uso público da razão através do qual Dilma Roussef vai além de Getúlio Vargas e de João Goulart no alcance da grandeza dum ato esclarecedor e educador como o de "Édipo-Rei"?!
Bradar e realizar a liberdade mesmo que implique no sacrifício de si mesma é a que se entrega e o que faz o coração valente duma pátria educadora?!
Se entrega à liberdade como dever e disciplina do uso público da razão?!
quinta-feira, 13 de agosto de 2015
"Toda nudez será castigada!"
Que relação existe entre os corruptos que devoram o dinheiro público, os empreendedores do agronegócio, o novo código florestal, o neoliberalismo e as heranças colonial e escravista brasileiras?
No "Bom dia Brasil" de hoje, 13/08/2015, tem matéria mostrando os "funcionários" duma prefeitura que não comparecem ao trabalho, recebem e usam seu tempo para desenvolver seus próprios agronegócios.
A formação do Brasil foi parecida com isso.
Os colonizadores eram funcionários pagos pela metrópole para desenvolver seus próprios negócios de exploração da coleta de pau brasil; os escravocratas eram funcionários e senhores pagos e incentivados pela metrópole, por serem os únicos reconhecidos pela metrópole, para desenvolver seus próprios negócios escravistas; tanto os colonizadores quanto os escravocratas eram fiéis à metrópole principalmente porque através dela que seus negócios se realizavam no mercado internacional.
A Independência do Brasil ocorreu com a absorção da metrópole, ou seja, a Corte se transferiu para o Brasil e com ela a relação com o mercado internacional se tornou direta. Retroceder depois disso se tornou inaceitável para os escravocratas brasileiros que, assim, preferiram favorecer a Independência com a família real, a Corte e o status de metrópole que haviam conquistado.
O autor do Novo Código Florestal Brasileiro, atualmente Ministro da Ciência e Tecnologia, Aldo Rebelo, se considera um nacionalista preocupado com as vantagens do Brasil no mercado internacional. A seu ver as críticas ao agronegócio são orquestradas pelos interesses estrangeiros que querem boicotar as vantagens do Brasil no mercado internacional. Mais, segundo ele, é inteiramente falso considerar que na estrutura fundiária brasileira o agronegócio seja exclusivo de grandes proprietários e que os proprietários médios e pequenos estejam excluídos do agronegócio. E esse conjunto de interesses estrangeiros mais o falso interesse de proprietários médios e pequenos que seriam críticos do agronegócio se constituem na articulação duma verdadeira conspiração que visa o boicote das vantagens do Brasil no mercado internacional. E, segundo ele, isto tudo se cristaliza num falso e conspirativo ambientalismo que quer deixar o Brasil para trás no processo de desenvolvimento econômico e social.
A crise de energia hidrelétrica e de escassez de água que o Brasil está vivendo, nesses pouquíssimos anos após a aprovação do Novo Código Florestal Brasileiro que, entre outras necessidades, praticamente desconhece a de proteção das matas ciliares dos rios, pode resultar dessa conspiração dos interesses estrangeiros com os falsos interesses de pequenos e médios proprietários fundiários do Brasil?!
Não existe aí algo da Peste de Tebas presente na tragédia grega "Édipo-Rei"?!
Em todo caso, algo é inegável, desde a Colônia extrativista, passando pela Colônia escravista e pela Independência Monárquica escravista, até chegar à República assalariada que a relação do Brasil é inteiramente voltada para a obtenção de vantagens no mercado internacional, ou seja, é guiada pela tese liberal das chamadas "vantagens comparativas".
Na fase atual, dita Neoliberal, o resultado disso só pode ser o vir à tona e/ou o ficar à mostra a estrutura brasileira na sua totalidade.
terça-feira, 11 de agosto de 2015
Libertação é a monstruosidade do uso público da razão?!
Nada a fazer exceto ir até o fim da vida e morrer, morrer, morrer. Fim da vida, da espontaneidade, quer dizer, da vontade que não obedece à reflexão, ao pensamento, à razão ou à morte. Fim também do espontaneísmo, do economicismo e, até mesmo, do terrorismo. Início do disciplinado, do sistematizado, do refletido, do morto. É a partir da vontade obediente à reflexão, ao pensamento, à razão ou à morte imortal que a filosofia se realiza e conquista a liberdade. É a partir do renascido, do Nosferatu, do morto vivo, do Frankenstein, do Drácula, do lobisomen ou do Prometeu Desacorrentado que se inicia a libertação da Humanidade da época pré-Humana ou que se inicia a libertação da Super-Humanidade da época Humana. Noutras palavras, é depois do capital e/ou do trabalho morto plenamente desenvolvidos que se faz a libertação do vivo do trabalho.
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
"Sapere Aude!... E o vento levou?!..."
Comecei a escrever isso:
"O que importa para o Esclarecimento, para a saída da Menoridade Política ou para a conquista e desenvolvimento da Maioridade Política é fazer ou praticar o uso público da razão. A política do "quanto pior, melhor" com as chamadas "pautas bombas", "bombas fiscais" & cia é a do uso público do capricho, da manipulação, do egoísmo, do ressentimento, enfim, do Anti-Esclarecimento, da permanência na Menoridade Política ou da perda e dissolução da Maioridade Política."
e parei aí porque percebi a fragilidade, falta de fundamentação ou de informação para poder desenvolver o tal uso público da razão.
Pensei que o ajuste fiscal do governo não é aceito especialmente pela base eleitoral da Dilma; que as mudanças nos prazos das leis trabalhistas de proteção contra o desemprego não são aceitas especialmente pela base eleitoral da Dilma; que a CUT e o MST vão se manifestar em apoio a Dilma mas contra o ajuste fiscal; que o PT é contra o ajuste fiscal mas a favor da Dilma, ainda que o PT esteja até cada vez mais desacreditado do que a Dilma.
O Eduardo Cunha parece até querer comprar delegados e juízes, além de funcionários públicos, mas também parece "representar" a oposição do PT ao ajuste fiscal da Dilma.
O governo, por sua vez, lançou um plano, aprovado pela CUT, pelo menos de acordo com um representante dela que falou para a Globo, no qual com recursos do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) banca parte do salário dos trabalhadores que terão seu salário reduzido junto com a redução da jornada de trabalho. Então, a CUT aceita fazer ajuste das condições de trabalho usando os recursos fiscais do FAT para não mexer nos recursos ou lucros dos empregadores.
Me falta informação porque sou mesmo desinformado, melhor, não faço um bom uso da razão para me informar, mas, em todo caso, tendo a acreditar que o governo mandou para os parlamentares as mudanças nos prazos das leis trabalhistas e também suas propostas de contenção salarial de delegados, juízes, funcionários públicos etc., negociou com os empregadores e com a CUT o plano de redução de jornada e redução de salário. Tendo a crer que o governo não negociou com os trabalhadores as mudanças nos prazos das leis trabalhistas nem as propostas de contenção salarial do setor público, mas negociou com os empregadores e com os trabalhadores o plano de redução tanto da jornada quanto do salário. Também tendo a crer que os trabalhadores e o setor público (delegados, poder judiciário, funcionários) não abriram espaço para negociar com o governo. A iniciativa do governo parece ter sido a de negociar com os parlamentares deixando os trabalhadores e o setor público por sua conta e risco se entenderem ou não com os parlamentares; e, parece ter sido também a de negociar com os empregadores e trazendo os trabalhadores para a aceitação de propostas substitutivas de outras já aprovadas por eles que foram, por exemplo, a do banco de horas em articulação com a isenção fiscal do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados).
Os trabalhadores da CUT aceitam não mexer ou reduzir os lucros dos empregadores, aceitam mexer na política de contenção salarial do governo via parlamentares, aceitam não abir um espaço de negociação com o governo sobre os prazos das leis trabalhistas, a política de contenção salarial e a política de ajuste fiscal. Mas, não levantam a bandeira dos trabalhadores de lei geral de redução da jornada de trabalho, a bandeira de mudanças negociadas com os trabalhadores das leis trabalhistas, da política de contenção salarial e da política de ajuste fiscal. Pelo contrário, tudo indica que fazem uma política subalterna com os empregadores, com o governo e com os parlamentares. É aí, parece, que está o xis da questão. A postura dos trabalhadores da CUT é subalterna e, com isso, todo o Anti-Esclarecimento, toda a Menoridade Política, enfim, toda a corrupção tem "Vez, Voz e Voto".
O uso público da razão dos trabalhadores da CUT é o que pode mudar a conjuntura para a conquista da Maioridade Política e do Esclarecimento, mas, para tanto, é preciso assumir uma política independente que defenda seus próprios interesses em leis gerais e transparentes sem posturas subalternas com os parlamentares, com os empregadores e com o governo.
Enquanto se limitar a ser correia de transmissão dos interesses dos empregadores, do governo e dos parlamentares será impossível o Esclarecimento, a saída da Menoridade Política ou a conquista da Maioridade Política por mais que Dilma se esforce por manter as liberdades sem as quais não é possível conquistar a Maioridade Política. Porque apenas os próprios interessados na conquista da Maioridade Política podem fazer o seu próprio uso público da razão.
Cadê o "sapere aude" dos trabalhadores da CUT? Cadê o ousar saber que com uma lei geral da redução da jornada de trabalho os trabalhadores da CUT podem combater o desemprego com a transparência de representar a vontade geral? Cadê o ousar saber que com independência os trabalhadores da CUT podem defender e discutir suas posições em quaisquer ambientes, sejam eles dos empregadores, dos parlamentares, do governo, internacionais etc.? Cadê o ousar saber dos trabalhadores da CUT? Cadê o uso público da razão dos trabalhadores da CUT?
... E o vento levou?!...
sábado, 8 de agosto de 2015
Com o Esclarecimento de Kant Dilma fará do suicídio ou da morte uma saída?!
A solidão é verdadeiramente total e, desse modo, apenas o suicídio aparece como uma saída. Mas, como se pratica o suicídio? Com um tiro no peito, não reagindo ao golpe porque confirma a queda na solidão verdadeiramente total. Com o tiro no peito Getúlio usou o suicídio como saída da solidão verdadeiramente total e não reagindo ao golpe Jango usou o suicídio político como entrada na solidão verdadeiramente total.
E atualmente como agirá a Dilma? Eu não sei, só ela pode saber. Porém, a morte real do Getúlio e a morte política e social do Jango são ambas mortes e a morte está no cerne da filosofia de Hegel e, por aí, também no cerne da filosofia de Marx, o qual, aliás, concebe a conversão da filosofia em prática como a vontade saída do mundo dos mortos e voltada contra a realidade do mundo dos vivos que existe sem ela, então a filosofia parte da morte como vontade mortífera contra a realidade mundana dos vivos que existe sem ela porque ela quer existir na realidade mundana dos vivos e não quer mais o mundo dos mortos. O problema é que ela é do mundo da morte e quer entrar no mundo da vida de maneira mortífera, ou seja, trazendo o mundo da morte da teoria filosófica para o mundo da vida da prática mundana. Ainda que isso pareça assustador ou aterrorizante consiste em algo bastante prosaico porque o que Marx quer é sair com a filosofia do mundo da morte imortal e com ela entrar no mundo da vida mortal, logo, o que ele quer é o que já existe e é real; porém, o mais revelador é que ele quer converter a filosofia ou morte imortal em prática ou vida mortal, ou seja, o suicídio que ele quer é o da filosofia ou morte imortal que quer converter em prática ou vida mortal.
Mas, como ocorre essa conversão da morte imortal em vida mortal? O imortal não morre e o mortal morre, então a morte não morre e a vida morre, mas a morte vive? Tudo indica que não porque a vida morre e a morte não morre, então como converter a morte que não morre em vida que morre? Ele responde que é saindo como vontade do mundo da morte que não morre e se voltando contra o mundo da vida que morre. E o que quer e o que pode fazer a vontade da morte que não morre contra a vida que morre? Quer que a vida que morre morra por completo de modo que seja assimilada pela morte que não morre? Quer que a vida que morre não morra por completo porque a morte que não morre penetrou nela ou foi assimilada pela vida que morre? Se o que quer é exterminar de uma vez por todas a vida que morre de modo que só permaneça a morte que não morre, então não foi a filosofia que se converteu em prática e sim a prática que foi dissolvida e convertida em filosofia. Se o que quer é melhorar/aperfeiçoar a vida que morre de modo que viva mais e melhor porque a morte que não morre penetrou e fez moradia dentro dela, então foi a filosofia que se converteu em consciência prática e foi a consciência prática que concretizou e realizou a filosofia. A vida que morre acaba sempre na morte que não morre, então a morte que não morre pode ir contra a vida que morre acabando com ela, mas nisso não há nenhuma novidade porque esse ir contra também é o mesmo que ir a favor porque a vida que morre sempre acaba na morte que não morre. A morte que não morre pode ir contra acabar com a vida que morre ? Pode. Se a morte que não morre fizer moradia dentro da vida que morre como consciência, como espírito, como vontade ou prática que não morre porque retorna intacta tal qual a Comuna de Paris de 1871, os Sovietes de São Petersburgo de 1917 etc., ou seja, pode se se desenvolver como criação, como trabalho, quer dizer, como uso público e comum da razão ou morte que não morre.
Tudo indica que ela optou por agir racionalmente ou fazendo uso da morte que não morre de forma diferente da de Getúlio e da de Jango, tudo indica que não optou pelo suicídio real para sair da solidão política total nem optou pelo suicídio político para entrar na solidão social total, tudo indica que optou pelo suicídio como pela tragédia de uma farsa ou pela farsa de uma tragédia, ou seja, ela quer sair viva e vitoriosa da solidão política e social totais por meio de um suicídio do autoritarismo e do golpismo, quer dizer, por meio da saída da sociedade da menoridade política ou por meio da conquista da maioridade política da sociedade.
Mas, como ela fará isso? Como ela fará desse suicídio, imposto por uma solidão política total e por uma solidão social total, a vivência da tragédia duma farsa ou a vivência da farsa duma tragédia?
Parece que é fazendo uso público da razão. Mas, parece também que é mantendo a liberdade e não-interferência para que o próprio público faça uso público da razão. A morte que não morre, a razão, passando a ser usada pela maioria para alcançar a maioridade de converter a filosofia em prática. Não é mais uma entrada real na morte que não morre tal qual fez Getúlio. Também não é mais uma entrada racional na morte que não morre tal qual fez Jango com sua queda na solidão total. Mas, ao que parece, é a entrada racional na morte que não morre do próprio público, logo, é uma socialização da liberdade e da maioridade políticas, uma conquista da conversão da filosofia em prática e, o mais importante, uma dissolução da solidão total no uso da razão ou da morte que não morre, portanto, o mais importante é a transformação do uso inteiramente solitário da razão para o uso público e comum da razão, logo, o mais importante é a saída da razão do solitário mundo dos mortos da filosofia para o comunitário mundo dos vivos da prática.
PS.: Este texto continua e completa o anterior "Atualidade?!: História/Estória & Estória/História", cujo título mudou três vezes, antes foi "História/Estória & Estória/História" e também "História/Estória & Estória/História (texto incluindo o que faltava)".
PS1.: O título desse texto acaba de ser modificado depois do acréscimo do último parágrafo.
quinta-feira, 6 de agosto de 2015
Atualidade?!: História/Estória & Estória/História
Quando o lado do mundo predomina sobre o lado da filosofia, então, o homicida predomina sobre o suicida. E quando o lado da filosofia predomina sobre o lado do mundo, então, o criativo predomina sobre o fértil. Num caso, o lado mundano é homicida enquanto, no outro, o lado mundano é fértil. Os países com histórias mundanas autoritárias e homicidas & servis e suicidas podem ser bastante diferenciados uns dos outros (por exemplo: França, Alemanha, Rússia, Itália, Portugal, Espanha, Grécia, países latino-americanos etc.). Os países com histórias mundanas democráticas e férteis & livres e criativas também podem ser diferenciados (por exemplo: Suíça, Inglaterra, Estados Unidos, Canadá, Suécia, Bélgica, Holanda, países da comunidade britânica etc.). Claro que estes mesmos países também apresentam histórias mundanas contrárias de modo que a democracia e a fertilidade & a liberdade e a criatividade podem ocorrer e ocorrem, por exemplo, na França, na Alemanha, na Itália, em Portugal, na Espanha, na Grécia, países latino-americanos etc. bem como o autoritarismo e homicídio & a servidão e o suicídio podem ocorrer e ocorrem na Suíça, na Inglaterra, nos Estados Unidos, na Suécia, na Bélgica, na Holanda, nos países da comunidade britânica etc.
O problema pode ser posto, melhor, pode ser visto de outro ângulo, ou seja, vendo o predomínio do lado mundano como predomínio do Estado e o predomínio do lado filosófico como predomínio da Sociedade Civil ou pode ser ao contrário, quer dizer, o predomínio do lado mundano como predomínio da Sociedade Civil e o predomínio do lado filosófico como predomínio do Estado? Num caso, o Estado é homicida e a Sociedade Civil é criativa, já no outro é a Sociedade Civil a homicida e é o Estado o criativo. Um Estado homicida se completa com uma Sociedade Civil suicida e uma Sociedade Civil criativa se completa com um Estado fértil, já um Estado criativo se completa com uma Sociedade Civil fértil e uma Sociedade Civil homicida se completa com um Estado suicida.
Parece que nos tempos mais recentes ocorreu uma prevalência do Estado (mínimo) suicida e da Sociedade Civil (máxima) homicida. Esta dupla parece ter vindo para suprimir a dupla anterior onde prevalecia um Estado (máximo) criativo e uma Sociedade Civil (mínima) fértil, dupla esta que havia derrotado a dupla do Estado homicida e da Sociedade Civil suicida, a qual, por sua vez, tinha se desenvolvido para combater e impedir o desenvolvimento da dupla caracterizada pela Sociedade Civil criativa e pelo Estado fértil. E esta última, por sua vez, parece ter resultado do combate à antiga dupla do Estado (mínimo) suicida e da Sociedade Civil (máxima) homicida e pode ser que na atualidade ocorra o retorno dessa dupla que se constitui em Sociedade Civil criativa e em Estado fértil.
Liberalismo e neoliberalismo seriam caracterizados pela dupla Estado suicida e Sociedade Civil homicida e em luta com eles o movimento de emancipação dos trabalhadores da época do liberalismo e o movimento ...? da época do neoliberalismo seriam caracterizados pela dupla Sociedade Civil criativa e Estado fértil. Para enfrentar o desenvolvimento desta última dupla a sucessão da dupla liberal foi a dupla interventora do Estado criativo e da Sociedade Civil fértil, mas, a antiga dupla antecessora do liberalismo, herdeira do bonapartismo e habitual nas ditaduras viu aí sua oportunidade de reorganizar o Estado homicida e a Sociedade Civil suicida, o que resultou na Segunda Guerra Mundial. A Guerra Fria parece ter sido o desenvolvimento duma dissidência entre o Estado (máximo médio) criativo com Sociedade Civil (média) fértil e o Estado (máximo total) criativo e a Sociedade Civil (mínima) fértil.
Os movimentos de emancipação política e de emancipação social começam sendo movimentos civis como, por exemplo, o Esclarecimento, o Liberalismo, o Positivismo, o Socialismo, o Comunismo. É isso que conduz a que se considere como lugar-fonte da filosofia muito mais a Sociedade Civil do que o Estado, o qual, por sua vez, por isso mesmo, em geral, é considerado como lugar-fonte do mundo. Claro que este lugar-fonte do mundo, o Estado, é considerado como lugar-fonte do mundo do Poder ou do Poder do mundo. A Sociedade Civil é considerada como lugar-fonte da filosofia da Vontade ou da Vontade da filosofia. Partindo dessas considerações, o lado do mundo, o Estado, é o da Representação e o lado da filosofia, a Sociedade Civil, é o da Vontade. E aí, curiosamente, o lado do mundo, o da Representação do Estado, fica sendo o da superestrutura e o lado da filosofia, o da Vontade da Sociedade Civil, fica sendo o da infraestrutura. Ora, isso parece um absurdo, já que, em geral, o mundo é o suporte, logo, a infraestrutura de tudo, enquanto que, em geral, a filosofia é suportada, logo, é a superestrutura de algo, ou seja, em geral, o racional e não absurdo é que o mundo, o suporte, a infraestrutura seja o lugar-fonte da Vontade mundana e que a filosofia, o que é sustentado, a superestrutura seja o lugar-fonte da Representação filosófica. Ao que parece esse problema é solucionado pela repetição do lugar-fonte da Representação, a superestrutura mundana ou filosófica, e do lugar-fonte da Vontade, a infraestrutura filosófica ou mundana.
Mas existe mais coisas aí do que a gente imagina.
A primeira é que são os movimentos da Sociedade Civil que aparecem como fontes de novas maneiras de pensar e agir, quer dizer, são esses movimentos civis que parecem sustentar inovações filosóficas, mas, nesse caso, a atividade filosófica é uma atividade do mundo social civil, logo, é uma atividade igualmente mundana e de um lado do mundo que ainda não chegou ao outro lado mundo, àquele lado do mundo cuja atividade mundana é o exercício do poder político, é o Estado.
A segunda, talvez mais importante, é saber qual a finalidade do movimento civil de emancipação e/ou até onde pretende ir com sua emancipação, porque a Sociedade Civil do Antigo Regime era imediatamente política e os indivíduos só tinham vez dentro das corporações de ofício, territoriais, familiares, religiosas, enfim, eram servos dessas corporações, logo, a emancipação política separou não tão somente a Religião e o Estado mas muito mais porque separou a Sociedade Civil do Estado e, desse modo, reconheceu os direitos dos indivíduos independentemente das diferenças corporativas de religião, de riqueza, de pobreza, de classe, de raça/cor/etnia, sexo e, assim, os indivíduos podem ser individualmente diferentes mas são igualmente portadores de direitos individuais e o Estado interfere para garantir o respeito a tais direitos individuais quando eles não são respeitados pelas diferenças sociais de classe, de religião, de cor, de sexo. A emancipação social tem por finalidade a extinção das diferenças sociais, ou seja, ela quer que todos os direitos individuais sejam efetivamente respeitados porque basicamente não existem mais as diferenças sociais de classe entre os indivíduos e existem sim apenas as suas diferenças individuais, logo, ela quer não mais apenas a igualdade de direitos perante a lei ou a garantia do Estado e sim a igualdade de direitos perante a lei ou a garantia da Sociedade porque ela visa uma separação ainda maior entre a Sociedade e o Estado e que é uma separação através da qual o Estado é dissolvido e não existe mais e, assim, só se realiza e existe a Sociedade Igual para todos ou a Igualdade Social para todos das diferenças individuais.
Antes a Sociedade era imediatamente conectada ao Estado que só reconhecia direitos políticos para as sociedades ou corporações; depois, a Sociedade se separou do Estado que reconhecia os direitos políticos aos cidadãos ou indivíduos componentes da Sociedade; finalmente, a Sociedade suprimiu e dissolveu o Estado e, assim, passou ela própria a reconhecer a cidadania social e/ou os direitos sociais civis dos indivíduos.
A história, no entanto, até agora, fez dessa emancipação social uma estória e marcou a história com uma outra relação entre Sociedade e Estado, uma relação que remete para a união entre Estado e Sociedade do Antigo Regime, uma relação na qual só existe reconhecimento de direitos ou direitos reconhecidos para as corporações ou sociedades de ofício, quer dizer, só os conselhos, os sindicatos reconhecem entre seus membros aqueles com direitos e, mais importante ainda, só partido no poder político torna efetivos os direitos de seus membros bem como retira os direitos de seus membros a qualquer momento. Uma relação na qual a Sociedade é imediatamente política, imediatamente Estado, mais ainda, na qual a Sociedade é tão submissa ou servil ao Estado que quase parece que só existe o Estado por toda parte de modo que aquilo que existe é sempre a realidade de um Estado comunista e nunca a realidade duma Sociedade comunista, ainda que exista sempre a utopia duma Sociedade comunista. História e estória.
Marx percebeu bem na revolução francesa o uso do antigo regime e da abolição da propriedade privada, da religião etc. como forma de desenvolver a sociedade civil burguesa retornando com a liberdade de propriedade, a liberdade religiosa etc. Mais ainda ele percebeu que o próprio comunismo tendia a fazer esse uso do antigo regime para decretar a abolição da propriedade privada, da religião etc. nas sociedades pouco desenvolvidas e ressaltou que o resultado seria o mesmo da revolução francesa: o retorno da liberdade de propriedade, da liberdade religiosa etc. numa sociedade civil burguesa mais desenvolvida, logo, numa sociedade civil emancipada politicamente ou da qual o Estado está separado e na qual ele só faz intervenção para garantir os direitos da própria sociedade civil burguesa. Então, Marx percebeu com perfeição a história tal como se deu até agora, ainda que ele tenha lutado por tudo aquilo que não se deu até agora e que, até agora, está reduzido à condição de estória.
No entanto, existe algo ainda mais enigmático em Marx. Ele acusava os movimentos dos reformadores sociais, os movimentos baseados em princípios e doutrinas sociais de movimentos crítico-utópicos. E esses movimentos crítico-utópicos recorrem precisamente àquilo que recorreram a revolução francesa e a revolução comunista real (por ele prevista) o uso do antigo regime para estabelecer por decreto seus princípios e doutrinas sociais. E ele defendia os movimentos dos trabalhadores que considerava movimentos crítico-práticos porque eles se baseavam exclusivamente nas lutas que desenvolviam por sua própria emancipação, ou seja, segundo ele, porque em lugar de decretar eles desenvolviam e criavam sua obra de auto emancipação, quer dizer, sua sociedade, sua associação.
Então, na visão de Marx a história que existe até agora é a dos críticos-utópicos, logo, a história vitoriosa até agora é aquela que ele chama de estória, de utopia. E, por outro lado, a estória que existe até agora é a dos críticos-práticos, logo, a estória perdedora até agora é aquela que ele chama de história, de prática.
A utopia, então, é esta coisa pragmática que as militâncias marxistas, melhor, que as militâncias baseadas no princípio e na doutrina de Marx vem transformando em história do socialismo realmente existente. A prática, por sua vez, é esta coisa rara que as lutas dos trabalhadores, melhor, que as lutas dos trabalhadores baseadas na criação da sua própria emancipação vem transformando em estória presente do socialismo realmente essencial.
A utopia dos pragmáticos críticos-utópicos ou dos militantes marxistas é esta história mundana dos socialismos realmente existentes, da Guerra Fria, do desmoronamento da URSS, da ascensão da China com seu socialismo de mercado etc. A prática das lutas dos trabalhadores críticos-práticos ou dos trabalhadores que lutam criando a saída/a emancipação de sua própria menoridade é esta estória filosófica dos trabalhadores que aparece como redução da jornada de trabalho, criação dos sindicatos, da associação internacional dos trabalhadores, dos partidos dos trabalhadores (e aí começa a hegemonia da utopia dos pragmáticos críticos-utópicos ou marxistas) e é principalmente esta criação institucional da efêmera maioridade das comunas, dos sovietes ou dos conselhos dos trabalhadores. Para os pragmáticos críticos-utópicos marxistas esta criação institucional é o objetivo estratégico que precisa ser garantido de modo que não seja mais efêmero por meio do desenvolvimento de uma máquina do Estado dos trabalhadores. Para as lutas dos trabalhadores práticos-críticos da libertação esta criação institucional é o objetivo tático que só pode ser garantido e deixar de ser efêmero por meio do seu autodesenvolvimento numa Sociedade dos trabalhadores, melhor, numa Sociedade da Maioridade Humana ou numa Maioridade Social da Humanidade ou numa Maioridade da Humanidade Social.
Olhemos para a atualidade. Ela é historicamente estória ou ela é estoricamente história? Olhemos para as imagens mais recentes da crise no Brasil e nossos olhos tendem a se fixar nas imagens da crise política. O que é que nossos olhos buscam na política? A liberdade ou a emancipação da menoridade política, ou seja, o mais amplo e criativo exercício dos direitos políticos da cidadania e dos direitos sociais da civilidade, quer dizer, dos direitos civis da sociedade. Aqueles que favorecem este nosso foco no uso da liberdade ou emancipação da menoridade política merecem nosso reconhecimento e aqueles que contrariam nosso uso da liberdade ou emancipação política merecem nossa rejeição.
Tem gente sendo presa e perdendo a liberdade? Tem. E são acusados de usar a política para praticar a corrupção, manter a maioria na menoridade política e sem o livre exercício dos seus direitos políticos e civis. Como são inimigos, da conquista da maioridade política para todos, eles são presos e perdem os direitos políticos e direitos civis.
Tem gente favorecendo a luta contra esses inimigos da conquista da maioridade política? Tem gente desfavorecendo a luta contra esses inimigos da conquista da maioridade política? Em geral, tem gente de todo tipo, pra todo gosto e pra todo lado, logo, existe resposta positiva para as duas perguntas. O problema é discernir quem é quem, quer dizer, quem efetivamente favorece a conquista da maioridade política e quem efetivamente quer manter a maioria na menoridade política.
Ora, quem faz a política do "quanto pior, melhor" ou "quanto menor a liberdade, melhor" está certamente favorecendo a manutenção da maioria na menoridade política. E quem se esforça por fazer a política do "quanto melhor, melhor" ou "quanto maior a liberdade, melhor" está certamente favorecendo o desenvolvimento da maioridade política.
Nesse sentido, aparentemente, não parece haver a menor dúvida que Eduardo Cunha, Aécio Neves, Ronaldo Caiado e outros fizeram a opção por piorar as condições econômicas, sociais e políticas visando prejudicar a presidente da república para conquistarem o poder político do Estado para eles. Aparentemente também não parece haver dúvida que a presidente optou por melhorar as condições econômicas, sociais e políticas visando beneficiar o maior uso da liberdade e isso mesmo sendo ela o alvo desse maior uso da liberdade política. Aparentemente, - como é preciso recorrer à aparência quando se trata de política; é que ela tem muito de teatral, logo de tragédia e de farsa ou comédia -, os manifestantes que querem o golpe militar e a volta da ditadura são muito bem aceitos pelos políticos que fizeram essa opção por "quanto menor liberdade, melhor" e também aceitam muito bem essa opção.
É muito sintomático que quem opta por "quanto menor liberdade, melhor" tenha conseguido aprovar a maioridade penal e de uma forma que corrompe os procedimentos éticos-políticos, ou seja, de uma forma que demonstra clara e inequivocamente querer manter a maioria na menoridade política para que possa continuar usando e abusando da manipulação.
Nosso foco é usar nossos direitos políticos e civis para desenvolver a nossa maioridade política, logo, se a presidente nos deixa livres para que façamos nosso uso público racional de nossos direitos, então, nos parece melhor que ela continue presidindo a república e se Cunha, Aécio, Caiado & Cia querem nos deixar ressentidos para que eles consigam que façamos nosso uso público irracional e tutelado de nossos direitos, então nos parece melhor que Cunha deixe de presidir a câmara dos deputados federais e que Aécio, Caiado & Cia sejam derrotados por conseguirmos fazer uso público de nossa razão e não da nossa irracionalidade, por conseguirmos conquistar a maioridade política e não por sermos mantidos na menoridade política.
Aqui só é possível esse puro e simples uso público da razão, pelo menos, do que, a meu ver, parece ser uso público da razão. E que pode perfeitamente mudar se alguém fizer um uso público da razão demonstrando que meu uso público da razão está falho e não é racional. E considero isso com chances verdadeiras de se viabilizar porque desconfio muito a respeito do uso que faço da razão e sempre fico duvidando se estou efetivamente fazendo uso da razão ou se é da paixão?!
Quem é quem?
A travessia da filosofia para o mundo constitui o processo de passagem da teoria para a prática. A vontade sai do lado do mundo chamado filosofia e vai para o lado do mundo chamado mundo. Este último lado do mundo é o mais poderoso e visado porque já se chama mundo, quer dizer, é um lado que é conhecido com o nome do todo, logo, que se confunde com o todo. Mas, a vontade que sai do lado filosófico para ir para o lado mundano é uma vontade da filosofia que quer ser uma vontade do mundo e aí resta saber como ela realiza o seu querer: ela abandona o lado da filosofia para ser vontade do lado do mundo ou ela permanece vontade do lado da filosofia que faz o mundo abandonar seu lado mundano, ou seja, ela suprime o lado da filosofia para a afirmação do lado do mundo ou ela afirma o lado da filosofia suprimindo o lado mundano? Porém, antes de tudo, ela faz isso atravessando do lado da filosofia para o lado do mundo, ou seja, ela suprime a filosofia e afirma o lado do mundo no lado do mundo ou ela afirma a filosofia e suprime o lado do mundo no lado do mundo.
Então, a pergunta é quem chega no lado do mundo ao fazer a travessia do lado da filosofia para o lado do mundo?
Ao suprimir o lado da filosofia e afirmar o lado do mundo quem chega do lado do mundo? Se o lado da filosofia é suprimido pela afirmação do lado mundano do mundo, então, a travessia, nesse caso, não é a entrada do lado da filosofia no lado do mundo, mas é, antes, a entrada do lado do mundo no lado da filosofia, logo, é o lado mundano que passa a ocupar o lado suprimido da filosofia, ou seja, do ponto de vista do lado filosófico a travessia é uma espécie de suicídio, niilismo e/ou auto-sacrifício que se deixa ocupar pelo lado mundano e, desse modo, é o lado mundano quem faz a travessia e efetivamente ocupa o lado da filosofia.
Ao afirmar o lado da filosofia e suprimir o lado do mundo quem chega no lado do mundo? Se o lado da filosofia se afirma suprimindo o lado mundano do lado do mundo, então, a travessia, nesse caso, é a entrada do lado da filosofia no lado do mundo porque é o lado filosófico que passa a ocupar o lado suprimido do mundo, ou seja, do ponto de vista do lado filosófico a travessia é uma espécie de auto-afirmação ou homicídio, auto-criação ou destruição do outro e/ou auto-satisfação ou sacrifício do outro por invadir e ocupar inteiramente o lado mundano de modo que é o lado filosófico quem de fato faz a travessia e ocupa realmente o lado mundano.
Como se desenvolve a atividade de suprimir a si mesmo e afirmar o mundo? Como uma passividade que se limita a interpretar o mundo de forma diferente. Esta atividade passiva de interpretação pode perfeitamente ser uma transvaloração de todos os valores mundanos, quer dizer, uma interpretação diferente dos valores mundanos.
Como se desenvolve a atividade de afirmar a si mesmo e suprimir o mundo? Como uma atividade que se limita a mudar o mundo em igual a si mesmo. Esta atividade ativa de mudar pode perfeitamente ser uma transformação da identidade do mundo, quer dizer, uma mudança de identidade do mundo.
Enquanto intérprete posso me limitar a ir trans-valorando de forma diferente todos os valores do mundo. E na qualidade de mudador posso me limitar a ir trans-formando o mundo numa nova identidade.
Posso caminhar na travessia que me proponho fazer da filosofia para o mundo através da atribuição de valores diferentes para os valores do mundo. E posso caminhar na travessia que me proponho fazer da filosofia para mundo através de formas diferentes que vou dando à forma do mundo. Quando transvaloro ou interpreto de forma diferente os valores do mundo eu caminho dando nova identidade aos valores do mundo, logo, trago para o mundo uma nova identidade que valora de outro modo os valores já identificados do mundo. Quando transformo ou mudo a forma do mundo, logo, trago para o mundo uma nova identidade que forma de outro modo a forma já identificada do mundo. No primeiro caso, a transvalorização ou a passagem através dos valores do mundo é um processo de diferenciação dos valores de quem faz a travessia e não dos valores do mundo. No segundo caso, a transformação ou a passagem através das formas do mundo é um processo de diferenciação das formas do mundo que é atravessado e não da forma de quem atravessa o mundo.
Um parece dizer "eu é um outro!". Já outro parece dizer "o outro sou eu!". Um erra pelo mundo através da sua valoração. Já outro conserta o mundo através da sua formação. E cada um deles é o contrário do outro do mesmo modo que a filosofia e o mundo são lados contrários do mundo (e da filosofia). Suprimir a si afirmando o outro e afirmar a si suprimindo o outro são movimentos contrários no âmbito da travessia da filosofia para o mundo e da travessia do mundo para a filosofia. Na travessia da filosofia para o mundo na qual a filosofia é suprimida e o mundo é afirmado quem se dissolve é a filosofia e quem se realiza é o mundo, logo, quem faz a travessia é o mundo que entra e ocupa o espaço da filosofia, quer dizer, quem se realiza é a tendência filosófica do positivismo. Já quando o mundo é suprimido e quando a filosofia é afirmada na travessia da filosofia para o mundo, então quem se dissolve é o mundo e quem se realiza é a filosofia porque é a filosofia que entra e ocupa o espaço do mundo, quer dizer, quem se realiza é a tendência filosófica conceitual.
O problema na sua totalidade é que "eu é um outro e o outro sou eu", é que "eu transvaloro/interpreto de forma diferente o mundo/os valores do mundo e eu transformo/mudo o mundo/os valores do mundo de forma igual". O problema implica a poesia, como atividade de um eu que é um outro e atividade que transvalora/interpreta o mundo de forma diferente, e a prosa, como atividade de um outro que sou eu e atividade que transforma/muda o mundo de forma.
Mas, a produção do valor não é atividade de transvalorar? E a supressão da produção do valor não é atividade de transformar? Mas, qual o resultado da luta entre ambas?
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