terça-feira, 23 de setembro de 2014

Max Stirner e Karl Marx, Dilma Roussef e Marina Silva {2}


A quem pertence a superioridade crítica: Max Stirner ou Karl Marx?



Acabei de ler “O Único e sua Propriedade”. A surpresa que tive foi recompensada, ainda que no caminho tenha lido “força de trabalho” e “mais-valia” e esses conceitos não podem ser de Max Stirner tampouco eram de Marx na época que o livro foi publicado, porque Marx só virá a utilizá-los posteriormente. Ou seja, me parece que há a contribuição de alguém mais, seja do editor, do tradutor ou seja lá de quem for. Na impossibilidade de ler o original resta a possibilidade de ler “A Ideologia Alemã”, onde grande parte é dedicada à crítica e, portanto, à leitura de “O Único e sua Propriedade”.


Qual foi a minha surpresa? Max Stirner tal qual Karl Marx também parte da singularidade. Marx se assume como partidário do conceito e, desse modo, a singularidade abstrata é a singularidade conceitual, quer dizer, abstrata. Stirner se assume como partidário do não-conceito e, desse modo, a singularidade do próprio é a singularidade positiva, quer dizer, concreta. Na verdade, é no limite ou torcendo (distorcendo) o sentido que se pode dizer que a singularidade do próprio é positiva, concreta, já que, lá pelas tantas, Stirner declara que parte do corpo e não do conceito (não existe, no caso, portanto, nem torção nem distorção).


A singularidade é antes de tudo diferente de tudo e igual apenas a si mesma. Na linguagem hegeliana, a linguagem conceitual, ela, a singularidade, é “antes de tudo diferente de tudo” porque ela se abstrai de tudo e, assim, difere de tudo, mas, desse modo, é “igual apenas a si mesma” porque é apenas abstrata. Mas, por outro lado, a abstração é aquilo que é igual, que é redutível a um mesmo, a um quantum. Logo, aquilo que é sem outra qualidade que não seja a mesmice e, nesse sentido, se mostra uma abstração ou perda da singularidade, melhor, da qualidade daquilo que difere de tudo, da qualidade que é exclusiva de si mesma, ou seja, da qualidade própria da singularidade. Aí estão presentes as duas acepções da singularidade, a abstrata e a própria. Marx, em “O Capital”, vai apresentar as duas acepções sob a forma de valor de troca (e valor) e de valor de uso. Stirner, em “O Único e sua Propriedade”, também vai apresentar as duas acepções, mas se Marx enfatiza a acepção abstrata presente no valor de troca que se revela exclusiva da quantidade e, por isso, do valor, já Stirner enfatiza a acepção própria presente no valor de uso que se revela exclusiva da qualidade e, por isso, do único, melhor, da sua propriedade.


Para Stirner só importa o indivíduo, o eu, mas exclusivamente na sua qualidade própria, ou seja, como único, logo, diferente de um outro eu por afirmar ou ser exclusivamente a singularidade do próprio ou do eu egoísta ou do único e sua propriedade. O indivíduo como outro eu, como eu altruísta, como abstração da singularidade, como humano ou espécie é visto novamente como abstração, quer dizer, conformação duma igualdade, duma não-unicidade, duma abstração. Stirner faz um corte (epistemológico?! Prático?!) com a abstração e se atém exclusivamente à qualidade, quer dizer, ao uso, ao valor de uso, por isso, apenas à apropriação da qualidade, ao egoísmo da propriedade. A relação com as abstrações, como, por exemplo, com a religião, com Deus ou com a moral, com o homem, quer dizer, com o humano ou com a humanidade é uma relação de uso, uma relação egoísta, quer dizer, sem nenhuma religiosidade, divindade, moralidade ou humanidade. Stirner defende o egoísta, o único e sua propriedade, quer dizer, a exclusividade do valor de uso na sua integralidade, inteireza, ou seja, parte da singularidade do próprio e chega à sua unicidade concluindo que a afirmação do único é o seu uso, que a afirmação da vida é o seu consumo, que a sua causa (a causa do único, da singularidade, da qualidade, da propriedade) é a causa de nada por se ater ao uso de si próprio, ao consumo de si próprio.


Os egoístas se limitam a usar as abstrações, sejam elas quais forem. Nesse sentido, os cínicos, os pragmáticos, os espiões, os farsantes, os corruptos, enfim, o eterno retorno do que não muda no mundo seria eterno retorno da interpretação egoísta do mundo, pelo menos, para as interpretações religiosas, divinas, morais, humanas que são abstratas, altruístas e limitadoras da singularidade própria, da individualidade e precisamente por fazerem delas (da singularidade, da individualidade) abstrações, as quais, por sua vez, visam o eterno retorno dum mundo mudado, não egoísta, igualizado, equivalente tal qual a mercadoria.


Os egoístas são os materialistas e os altruístas são os metafísicos. Porém, Stirner, o egoísta, o que se limita a usar as abstrações, não considera a associação do egoísta como uso de abstração e sim como uso ou consumo de sua qualidade, até porque a associação é algo mutável tal qual o egoísmo que muda de uso/consumo, quer dizer, de associação. Marx é defensor da emancipação humana, da emancipação dos trabalhadores, quer dizer, da abstração humana, da abstração trabalhador. Aliás, ele mesmo, na “Crítica do Programa de Gotha”, assume que para afirmar a individualidade, a diferença individual, melhor, o próprio indivíduo, o direito teria de deixar de ser igual, de ser uma redução a apenas um aspecto, o de trabalhador, quer dizer, teria de deixar de ser uma abstração para que as diferenças naturais dos indivíduos pudessem ter vez. Também é aí que ele assume que a força humana de trabalho é uma simples força natural, ou seja, não é um poder sobrenatural, um poder do trabalho humano abstrato, um poder do capital. Mais: que é ao capital que interessa a concepção do trabalho como um poder sobrenatural, um poder sobre a natureza duma contínua luta contra a natureza, afinal, é desse modo que o capital justifica que o acesso das forças humanas de trabalho – quer dizer, das simples forças humanas naturais – à natureza e às suas forças naturais tenha que ser necessariamente feito por meio da venda ou troca das forças de trabalho com o capital que monopoliza as fontes naturais.


O Marx da “Crítica ao Programa de Gotha” é muito citado como fonte da diferenciação entre as duas fases da sociedade comunista, mas é aí também que aparece um grande quê stirneriano, melhor, destacador do valor de uso e, por aí, também duma visão naturalista, ou melhor, atualizando, ecológica.




Dilma Roussef e Marina Silva: quem é superior criticamente?




A turma da Guerra Fria, do socialismo realmente existente, da militância pragmática e da militância ideológica acaba assumindo o egoísmo manipulador, farsante e, até mesmo, corrupto. A turma da Paz, da religião, do “Outro Mundo é Possível”, da militância utópica e da militância ética acaba assumindo o altruísmo manipulado, trágico e, até mesmo, ingênuo. A primeira usa a segunda, que é usada pela segunda ou por qualquer outra, mas, o que é mais significativo: a segunda também é usada por ela mesma, por sua crença abstrata ou altruísta.


Eu, por enquanto, ainda que tenha percebido uma grande possibilidade de libertação em Stirner, permaneço me percebendo como crente na abstração, na singularidade abstrata e, por aí, um prisioneiro do altruísmo e da negação de si mesmo. É também por aí que compreendo porque opto por votar na Marina Silva e também porque permaneço com o Marx que Stirner critica de maneira que me deixa simplesmente desarmado por ter de admitir e concordar que ele está absolutamente certo, já que efetivamente Marx permanece sendo dos que lutam pela emancipação humana, dos trabalhadores, quer dizer, pela abstração, pelo altruísmo. É também por aí que compreendo porque vejo a opção por votar na Dilma como sendo a daqueles que são mais ousada, afoita e desenvoltamente críticos e mais bem armados com o egoísmo como o próprio Stirner e, por isso mesmo, capazes até de discordar de Stirner e de defender Marx de forma inteiramente egoísta, manipulada e sem qualquer respeito por supostas avaliações críticas, abstratas, altruístas porque, afinal, não existe nada de sagrado, já que não existe nenhuma verdade independente do egoísmo, logo, só o egoísmo e seu uso apropriado (sua propriedade) são verdadeiros.


Eu me sinto e me percebo atrasado e preso a Marx e mesmo quando este aproxima a força humana da natureza como uma simples força natural, mesmo aí, não sinto nem percebo o egoísmo propriamente dito e sim a religação da natureza e do humano, a religio ou a religião natural, quer dizer, ainda é o naturalismo humanista ou o humanismo naturalista de Marx que permaneço sentindo e percebendo. E é aí nesse atraso de Marx que sinto e percebo a atualidade de sua posição ecológica. E sinto e percebo que Marx está atrasado em relação ao que ele mesmo se propõe, ou seja, se propõe ir além da crítica moral, mas, a partir da crítica de Stirner fica claro que Marx ainda está preso à moralidade, logo, à religiosidade, à abstração.


Eu sinto e percebo que aqueles que se assumem como marxistas e optam por Dilma são os que vão além de Marx na senda aberta pelo egoísmo defendido por Stirner. Sinto e percebo que o meu marxismo está aquém de Stirner e do marxismo dos que vão além de Marx na senda do egoísmo aberto por Stirner. Sinto e percebo que permaneço preso à posição de Marx que não é suficientemente materialista como a de Stirner e que permanece sendo metafísica. Sinto e percebo que permaneço tal qual Marx preso ao altruísmo e à negação de si mesmo inerente à singularidade abstrata. Sinto e percebo que não tenho a capacidade libertária do egoísmo e da afirmação de si mesmo inerente à singularidade do próprio.


Eu fui “naturalmente” espirrado para fora do PT desde a substituição da militância altruísta e apaixonada pela militância egoísta e profissional que conseguiu eleger o “Lulinha paz e amor”. A minha identificação com a Marina é a identificação com aquelas “ilusões” abstratas do socialismo democrático que era defendido pelo PT até chegar a “Carta ao Povo Brasileiro”. Eu posso ser claramente acusado de ser reacionário, por querer “girar para trás a roda da história”.


O Marx que eu defendo está superado desde muito tempo pela crítica de Stirner, pela Dilma e os que votam nela, pelos dissidentes que não votam na Dilma mas que votam apenas no seu egoísmo, no seu umbigo, quer dizer, na sua posição crítica mais avançada que o altruísmo de Marx, que eu defendo, e do que o egoísmo pragmático dominante da Dilma e dos que votam nela.


Permaneço escravo, impotente, incapaz ou o próprio niilista, como diz Nietzsche. Mas, me recuso a votar no senhor, na potência, na capacidade ou no próprio criador super-humano, como defende Nietzsche. Mas aí, curiosa e estranhamente, sou eu quem opto por ser causa de nada, enquanto Nietzsche opta por ser causa super-humana.




Um comentário:

Marola disse...

Como é que fica essa vã filosofia após o apoio dado pela fadinha da floresta ao Aécio no 2° turno? Stirner e o jovem Marx devem estar se revirando nas respectivas tumbas, huh? ;-)