quarta-feira, 15 de julho de 2015
Contra-dicções/contra falas simples e falsas ou verdadeiras: eis a questão das contradições.
Difícil, mas muito difícil mesmo é contar a história real. Se os capitalistas são os responsáveis pelo desenvolvimento dos meios de produção e reduzem os trabalhadores a meros vendedores de suas próprias forças humanas de trabalho, então como os trabalhadores poderão apenas com o uso dos meios de produção por suas forças humanas de trabalho se tornar desenvolvedores de tecnologias ou dos meios de produção?! Por outro lado, se os capitalistas conseguem sim comprar as forças humanas de trabalho dos cientistas e as forças humanas de trabalho dos operários, então eles conseguem com o dinheiro ou capital, quer dizer, com algo material, usar o espírito humano dos cientistas e a materialidade humana dos operários para desenvolver os meios de produção e, desse modo, "Hegel e Marx" - segundo nosso último texto "Sabedoria ignorante e ignorância sábia: como vão vocês e para onde vocês vão?!" - são comprados e usados pelos capitalistas no desenvolvimento efetivamente real das tecnologias.
E os trabalhadores são capazes de fazer algo que supere os capitalistas? Como? Reduzindo a jornada de trabalho e obtendo tempo livre. Como assim? Reduzindo a jornada de trabalho eles conseguem tempo livre para conviver com os cientistas e aprender a ciência dos cientistas, ou seja, a conquista de tempo livre funciona para eles como a conquista de dinheiro funciona para o capitalista. Para este último o desenvolvimento da tecnologia é a maneira mais efetivamente real de obter mais dinheiro, já para o trabalhador operário conseguir mais tempo livre é a maneira mais efetivamente real para ele de desenvolver a tecnologia e obter mais tempo livre. Se a fórmula do capitalista deixou de ser M - D - M e se tornou D - M - D, então a fórmula que era T(empo de) T(rabalho - S(alário) - T(empo de) T(rabalho) se tornou T(empo livre) - V(alores de uso) - T(empo livre), ou seja, o trabalhador não tinha perspectiva de liberdade sob a primeira fórmula, a do tempo de trabalho que ganha dinheiro salarial para conseguir tempo de trabalho, mas passou a ter com a segunda fórmula na qual o tempo livre garante que ganhe valores de uso no tempo de trabalho para ter mais tempo livre.
Se para o capitalista o que importa é ter dinheiro para conseguir mais dinheiro, já para o operário o importante é ter tempo livre para conseguir mais tempo livre. Será que isso resolve as contradições reais que existem em cada uma dessas abordagens dos problemas?!
terça-feira, 14 de julho de 2015
Sabedoria ignorante e ignorância sábia: como vão vocês e para onde vão vocês?!
É tudo muitíssimo complicado. Tanto que o melhor é verificar a enormidade da ignorância de tudo. Aliás, talvez, ainda mais importante seja verificar a incapacidade quase absoluta de saber fazer alguma coisa que efetivamente mude a realidade para melhor porque a mudança para pior ocorre o tempo todo.
Ignorar quase que absolutamente tudo é um modo de vida bastante comum, ainda que o ignorante esteja conectado a esse modo de vida bastante comum através dos mais diversos saberes tecnológicos, a começar pela escrita, mas passando pela energia elétrica, pela energia fóssil, pela tv, pelos computadores etc. Todas essas conexões se encontram aí no mundo prontas para serem usadas pela ignorância letrada que pode até imaginar que sabe alguma coisa a respeito dessas tecnologias mas na prática nada sabe mesmo além de meramente usar essas tecnologias.
Os sábios, aqueles que efetivamente sabem algo a respeito dessas tecnologias, que sabem como criá-las e como desenvolvê-las se encontram onde e quem são? Qual o modo de vida deles? Tende-se a pensar que eles são os cientistas e que vivem nos laboratórios e em modos de vida extremamente abstratos que são os daqueles que possuem efetivamente o conhecimento dos princípios das tecnologias. Tende-se também a considerar que aqueles que fazem tais tecnologias efetivamente reais, que as fabricam não são os cientistas e sim os operários dos laboratórios e das indústrias, os quais, por sua vez, apenas sabem usar os meios de fabricação de tais tecnologias e não efetivamente construí-las porque conhecem seus princípios constituintes e sabem combiná-los de forma que resultam em tecnologias.
A divisão que se atribui à tecnologia do computador, segundo a qual existe um hardware e um software é a mesma divisão que aparece entre os operários e os cientistas, respectivamente. E é também a diferença e divisão entre atividade material e atividade espiritual, entre matéria corporal e espírito mental. Mas ambos são os que criam e fabricam tais tecnologias. Até Hegel eram os cientistas os verdadeiros e exclusivos sábios criadores das tecnologias. A partir de Marx seriam os operários os verdadeiros, ainda que não exclusivos, sábios criadores das tecnologias. Noutras palavras, Hegel considerava que era o desenvolvimento do espírito o responsável pelo desenvolvimento das tecnologias, já Marx considerava que era o desenvolvimento da matéria o responsável pelo desenvolvimento das tecnologias. Mais especificamente, para Hegel a tecnologia era o desenvolvimento do trabalho mental do espírito humano, enquanto para Marx a tecnologia era o desenvolvimento do trabalho corporal da materialidade humana.
Supostamente, um ficava pensando e, desse modo, desenvolvia a tecnologia, enquanto o outro ficava fazendo e, desse modo, desenvolvia a tecnologia.
Ao que parece cada um ignorava o outro. De todo modo, a tecnologia é um fazer pensante e é um pensar fazedor. Desenvolver o espírito ou a matéria humana?! Quem é mais sábio e quem é mais ignorante?!
Qual o significado dos emagrecimentos?!
A Dilma emagrece e com isso melhora a saúde? Em princípio tudo indica que sim. Enquanto é atacada por todo lado (oposições, aliados e partido) ela, quase sempre calada, está emagrecendo e sendo observada e comentada.
É isso o exemplo de cima do ajuste fiscal de quem corta na própria carne apertando o cinto?! É essa uma das significações possíveis da mensagem que ela passa com seu emagrecimento?!
Mas, qual o significado do emagrecimento do ex-ministro José Dirceu?! Está cuidando da sua saúde?! Ou está transmitindo que está se acabando, perdendo peso e saúde, sofrendo de estresse em alto grau?! Ou transmitindo que está sendo vítima duma enorme injustiça?! Ou, para se sentir melhor, resolveu manifestar sua identificação com seu algoz, o Roberto Jefferson, e emagreceu?!
O grande consenso da medicina atual é que a saúde e a longevidade são preservadas e promovidas com corpos magros, sem excessos de gorduras, o que implica uma condenação da figura padrão do burguês que é a do gordinho. O consenso médico da saúde é contra o consumismo e o modo de vida sedentário facilitado e promovido pelo capitalismo. De modo que só há cura para a crise de superprodução com o emagrecimento ou destruição do excesso de produção ou então, o que, aparentemente, dá no mesmo, com a socialização da produção que permite o consumo da produção por todos e, assim, elimina o consumismo e sedentarismo concentrado em obesos mórbidos e também a inanição dos corpos magros na miséria morrendo em grande quantidade.
E o emagrecimento dos gregos promovido pela política de austeridade dos credores da zona do euro favorece a saúde dos gregos eliminando a obesidade mórbida deles ou favorece a miséria dos gregos e a obesidade dos credores?!
"Em terra de cego, quem tem um olho é... cético?!?!"
A história real é muito mais difícil de ser contada do que a história especulativa. Os senhores feudais viviam nos castelos, então quem construía os castelos? Quem cozinhava e servia os alimentos e limpava e arrumava os castelos, produzia os móveis, as roupas, os talheres, as armas, os escudos etc dos senhores feudais e de suas tropas? Os servos, em geral, viviam nos arredores dos castelos, em casas isoladas ou em aldeias e vilas para cuidar da produção de alimentos dos senhores feudais, suas tropas, seus servos e trabalhadores domésticos e de seus animais? É preciso supor que as atividades de construção de castelos e igrejas eram inteiramente separadas das atividades nos campo dos servos e o mesmo se pode supor para as atividades de construção de móveis de madeira e de metal bem como de produção de armas, utensílios, instrumentos, carroças, arreios, sapatos, roupas etc, e ainda as atividades guerreiras dos senhores e suas tropas, incluindo aí o cuidado de manutenção e treino dos animais, mesmo assim, ainda é preciso cuidar da manutenção das armas etc., cozinhar e servir a comida, limpar e arrumar etc. É preciso supor que o construtor de castelos e igrejas também é construtor de casas e cidades e que o construtor de móveis, armas, instrumentos etc. também é construtor de meios de produção que requerem muitos trabalhadores na sua operação. É preciso supor muita coisa como, por exemplo, o conhecimento dos mosteiros e a troca e aperfeiçoamentos do mesmo entre mosteiros diferentes e mesmo entre países diferentes.
É muito difícil contar a história real da separação dos artesãos, dos pedreiros, dos carpinteiros, marceneiros, ferreiros etc. de suas artes de trabalho e mostrar a história real da passagem dessas artes de trabalho para os meios de produção de um modo que reduz todos estes trabalhadores a meras e simples forças humanas de trabalho desprovidas de quaisquer artes produtivas.
É ainda mais difícil contar a história real da separação entre trabalhador assalariado e capitalista pagador de salários, entre tempo de trabalho sem limite de jornada e tempo de trabalho limitado pela jornada. E é muito mais difícil contar a história real da passagem da produção capitalista de acordo com a fórmula M(ercadorias) - D(inheiro) - M(ercadorias) para a produção capitalista segundo a fórmula D(inheiro) - M(ercadorias) - D(inheiro).
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Por tudo isso que é muito mais difícil compreender a história real do mundo atual, compreender a história real desses acontecimentos todos, seja no Brasil ou no mundo. Impeachement da Dilma?! Ganhar o referendo com o não contra as medidas de austeridade impostas pelos credores à Grécia para, em seguida, se humilhar dizendo sim às medidas de austeridades dos credores e assumindo o papel de mensageiro dessas medidas dos credores para toda a Grécia?!
No MSN Notícias, tendo por fonte RFI, consta o seguinte:
Com a fisionomia cansada pela maratona de negociações, o premiê grego, Alexis Tsipras, disse que a Grécia reconquistou sua soberania com esse acordo. "O compromisso permite à Grécia captar novos investimentos para sair da recessão e evitar a falência do sistema bancário grego", afirmou. "Foi difícil obter o acordo, mas nós conseguimos estancar a transferência de recursos públicos para o exterior e obter uma reestruturação da dívida grega", acrescentou Tsipras. O premiê disse que o combate foi duro até o fim, mas o compromisso encontrado garante a estabilidade financeira e a retomada do crescimento na Grécia.
Até quarta-feira, o Parlamento grego deverá votar o novo programa de austeridade. Os bancos do país continuarão fechados por vários dias. Nas redes sociais, gregos insatisfeitos com o resultado das negociações falam em "golpe de Estado", estimando que o governo grego fez concessões demais aos europeus.
Então, do ponto de vista do cansado premiê grego, Alexis Tsipras, foi alcançada a reconquista da soberania grega porque o governo grego conseguiu "estancar a transferência de recursos públicos para o exterior". Ele se refere a esta outra parte da informação RFI no MSN:
Um fundo de ativos gregos de 50 bilhões de euros, que vai ser a garantia do novo empréstimo, será baseado em Atenas. Os bancos gregos, capitalizados pela União Europeia, irão financiar a metade dos recursos desse fundo; a outra metade virá dos recursos arrecadados com as privatizações e investimentos privados.
Bom, um amigo, que mora na França, me informa que os bancos gregos possuem participações em bancos de diversos países fora do euro mas importantes do ponto de vista geopolítico e que a Grécia entrou para o euro de forma maquiada pelos gregos e por parte das autoridades do euro interessadas nas dracmas acumuladas nos bancos gregos que funcionavam como paraísos fiscais para os europeus, ou seja, o interesse era a "repatriação" via transformação das dracmas acumuladas em euros. Me disse que a extrema-direita está falando que hoje o que se viu foi um cerimonial de sacrifício da soberania grega. Perguntei o que ele achava do seguinte: Estão empurrando a Grécia para uma condição de ressentimento similar à da Alemanha hitlerista? Ele concordou. Então, sugeri que a União Européia é quem mais perde com esta situação e que a extrema-direita irá crescer e com isso Putin se fortalecerá e a questão da Ucrânia poderá favorecer a Rússia, a qual, por sua vez, se livraria do boicote econômico que vem sofrendo dos EUA e da União Européia. Mas, o que é uma União Européia de extrema-direita?! Para escapar dessa situação, perguntei se ainda seria possível para o premiê grego romper por completo com a política de austeridade dos credores? Não ficou clara a opinião dele (PS: Lembrei: disse a ele que "a história só se repete como farsa", ou seja, é muito provável que essas comparações com os temores do passado sejam pura ilusão, farsa"), mas lendo novamente o MSN encontrei esta passagem na informação RFI:
O acordo pode ser considerado uma vitória política do presidente francês François Hollande, que atuou como mediador entre o governo grego e a Alemanha. A chanceler Angela Merkel liderou um grupo de dez países que durante todo o final de semana fez pressão sobre a Grécia. O governo alemão chegou a propor uma saída temporária de Atenas da zona do euro.
Quem quer a saída da Grécia da zona do euro é a Alemanha, então a ruptura do premiê grego seria precisamente o que quer a Alemanha. Fora da zona do euro a Grécia teria sua soberania com dracma e calaria a extrema-direita ou faria a extrema-direita querer favorecer a saída da zona do euro!? Mas, fora da zona do euro a Grécia ainda interessaria os europeus como paraíso fiscal? Sem euros e tendo de recuperar o valor (dos ou das?) dracmas a Grécia padeceria menos ou padeceria mais? Ao que tudo indica o premiê grego considera que padeceria mais e, por isso, faz de tudo para permanecer na zona do euro.
É muito difícil compreender, avaliar e contar a história real.
Abaixo o texto completo do MSN Notícias, fonte RFI:
RFI - segunda-feira, 13 de julho de 2015
Grécia fecha acordo para se manter no bloco europeu após 17 horas de negociações
Após uma maratona de mais de 17 horas de negociação, que atravessou a madrugada, os líderes da zona do euro chegaram a um acordo sobre a Grécia. Segundo o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, o acordo foi fechado por unanimidade pelos 19 países que compõem o bloco monetário.
O compromisso abre caminho para a negociação de um terceiro plano de resgate à Grécia de cerca de 80 bilhões de euros nos próximos três anos e mantém o país na zona do euro. O novo empréstimo será constituído de fundos do Mecanismo Europeu de Estabilidade financeira e do Fundo Monetário Internacional (FMI). O acordo inclui um projeto de investimentos de 35 bilhões de euros e vai permitir a reestruturação da dívida grega a médio prazo.
O acordo pode ser considerado uma vitória política do presidente francês François Hollande, que atuou como mediador entre o governo grego e a Alemanha. A chanceler Angela Merkel liderou um grupo de dez países que durante todo o final de semana fez pressão sobre a Grécia. O governo alemão chegou a propor uma saída temporária de Atenas da zona do euro.
Medidas draconianas
Segundo Hollande, a Alemanha e outros países queriam garantias de que o governo grego vá cumprir suas promessas. Ficou acertado que o Parlamento grego deve se reunir nas próximas horas para adotar um novo programa draconiano de reformas, que inclui aumento de impostos, cortes e mudanças no sistema de pensões, além de privatizações. Um fundo de ativos gregos de 50 bilhões de euros, que vai ser a garantia do novo empréstimo, será baseado em Atenas. Os bancos gregos, capitalizados pela União Europeia, irão financiar a metade dos recursos desse fundo; a outra metade virá dos recursos arrecadados com as privatizações e investimentos privados.
Hollande explicou que o objetivo do acordo é permitir à Grécia fazer reformas, ganhar em competitividade e ter crescimento no futuro. Hollande disse que acordo foi um teste para a solidez das relações entre França e Alemanha. Segundo ele, "não foi fácil para o premiê grego Alexis Tsipras. "Ele aceitou porque precisa do dinheiro", afirmou Hollande. Para o chefe de Estado francês, o acordo foi uma demonstração de solidariedade entre os europeus.
Maratona de negociações
Com a fisionomia cansada pela maratona de negociações, o premiê grego, Alexis Tsipras, disse que a Grécia reconquistou sua soberania com esse acordo. "O compromisso permite à Grécia captar novos investimentos para sair da recessão e evitar a falência do sistema bancário grego", afirmou. "Foi difícil obter o acordo, mas nós conseguimos estancar a transferência de recursos públicos para o exterior e obter uma reestruturação da dívida grega", acrescentou Tsipras. O premiê disse que o combate foi duro até o fim, mas o compromisso encontrado garante a estabilidade financeira e a retomada do crescimento na Grécia.
Até quarta-feira, o Parlamento grego deverá votar o novo programa de austeridade. Os bancos do país continuarão fechados por vários dias. Nas redes sociais, gregos insatisfeitos com o resultado das negociações falam em "golpe de Estado", estimando que o governo grego fez concessões demais aos europeus.
sábado, 11 de julho de 2015
Marx ou a fonte da saudade da presença do futuro
O tempo livre do camponês permitiu a ele desenvolver o tempo
de trabalho livre, ou seja, tudo que o camponês desenvolveu foi transformando e
aproveitando o seu tempo livre do trabalho servil em tempo de trabalho livre,
mas o trabalhador livre quer obter o seu tempo livre do tempo de trabalho
capitalista para aproveitá-lo transformando-o em tempo de trabalho? Quer
retornar ao tempo livre do camponês e girar a roda para trás transformando o
tempo livre que obteve novamente em tempo de trabalho?! Não é o que parece. O
que parece ser um desenvolvimento do camponês para adiante ou girando a roda
para frente é a atitude do capitalista de aproveitar toda e qualquer
oportunidade para transformar o tempo livre em tempo de trabalho, daí que
promova o trabalho informal, o empreendedorismo, o micro empreendedorismo etc.
Mas e o que quer o trabalhador com seu tempo livre? Fazer política, estudar,
praticar esportes, participar da educação dos filhos e da vida comunitária,
fazer música e artes, enfim, filosofar. A emancipação dos trabalhadores é obra
dos trabalhadores de se libertar do trabalho ou do tempo de trabalho e de
conquistar a liberdade ou o tempo livre para se autodesenvolver e/ou se
autorealizar humana e socialmente.
As lutas entre o capital e o trabalho, entre as classes
capitalistas e as classes trabalhadoras em torno do tempo de trabalho e do
tempo livre só adquirem sentido quando se antagonizam com um lado querendo
dominar impondo por toda parte a necessidade do tempo de trabalho para
sobreviver, enquanto o outro lado quer fruir por toda parte a liberdade/a
satisfação/a realização do tempo livre para viver. A obra dos trabalhadores é
fazer a sociedade dos trabalhadores, quer dizer, a sociedade liberta do tempo
de trabalho e que vive na liberdade de fruir da liberdade e/ou do tempo livre.
Menor tempo de trabalho para produzir um produto permite
produzir muito mais produtos num mesmo tempo de jornada de trabalho. Por outro
lado, também permite empregar muito mais trabalhadores num menor tempo de
jornada de trabalho. O capitalista com o menor tempo de trabalho produtivo quer
mais produtos e menos trabalhadores numa mesma jornada de trabalho. O
trabalhador com o menor tempo de trabalho produtivo quer mais tempo livre e
mais trabalhadores num menor tempo de jornada de trabalho. Um vive de explorar
o menor tempo de trabalho dentro da jornada de trabalho, o outro vive de
usufruir o maior tempo livre fora da jornada de trabalho. Um vive de explorar a
manutenção da jornada de trabalho, o outro vive da possibilidade de se libertar
da jornada de trabalho. Um quer perpetuar o tempo de trabalho por menor que ele
seja, o outro quer suprimir o tempo de trabalho por menor que ele seja.
Sem dar tais sentidos de classe às lutas de classes entre
capitalistas e trabalhadores tais lutas são inteiramente sem sentido, melhor,
tais lutas são apenas arrumações do sistema de trabalho assalariado, arrumações
do capitalismo. As lutas de classes em si e por si mesmas são apenas arranjos
do sistema capitalista, mas quando são assumidas pelos trabalhadores para dar
sentido de classe trabalhadora a estas lutas elas passam a ser dirigidas como
obra que conduz à sociedade dos trabalhadores, ou seja, à sociedade emancipada
do tempo de trabalho, à sociedade do tempo livre, quer dizer, àquela sociedade
que aproveita todo o tempo livre para desenvolver a pessoa humana, a
personalidade do indivíduo ou a individualidade humana/social. Só quando a
classe trabalhadora dá um sentido de classe trabalhadora à sua luta de classe e
quer a emancipação do trabalho, a emancipação social, a emancipação humana é
que a luta de classes deixa de ser um mero arranjo do capitalismo e se torna
meio da libertação humana e social da exploração do trabalho humano e social e
pode vir a ter início a liberdade humana e social do autodesenvolvimento da criatividade
humana e social.
Não há como negar que este sentido de classe da luta da
classe trabalhadora se torna manifesto na figura do filósofo mas não do
filósofo teórico que faz a materialização do pensamento numa obra filosófica
e/ou numa escola filosófica de pensamento e sim do filósofo prático que faz a
materialização do pensamento numa obra prática e/ou numa prática comum do
pensar. Ou seja, não se trata mais da figura do filósofo que é fantástico e teoricamente
genial por melhor interpretar e compreender o mundo e sim da figura do filósofo
que é livre e praticamente comum por se ater a mudar o mundo.
Será por aí que encontro o fio-condutor, hein Ariadne?!
Atualmente as crises são ditas crises financeiras. Nelas
ocorrem aquilo que é chamado de bolha financeira e que dizem ser uma superprodução
de moeda e/ou papel-moeda sem correspondência com a produção real de
mercadorias, quer dizer, sem correspondência com os produtos existentes, então,
este excesso de dinheiro corresponde a uma situação real na qual os produtos ou
mercadorias existentes em quantidade limitada pertencem supostamente aos
diversos proprietários dos títulos ou papéis-moeda da bolha financeira, de modo
que uma mesma mercadoria real ou produto
real foi socializada na sua propriedade por diferentes titulares. E,
desse modo, a crise é a perda da propriedade pelos diferentes titulares, quer
dizer, é a expropriação dos diferentes titulares e a redução de seus
títulos à supressão ou extinção da propriedade ou do valor real correspondente
à propriedade. Para evitar que o papel-moeda fictício, melhor, que o
papel-moeda que não possui a propriedade real representada no seu título, venha
a adquirir com seus títulos fictícios propriedades reais de outros setores da
economia, estes outros setores passam a reduzir sua produção supondo que, até
antes do estouro da bolha financeira, este dinheiro fictício estava circulando
por toda a economia e fazendo com que os valores relativos da totalidade das
mercadorias estivessem compostos pela presença destes valores fictícios, logo,
supondo estar contaminados por uma superprodução fictícia e, assim, supondo que
esteja ocorrendo o logro ou a expropriação de parte de suas
titularidades de suas mercadorias ou produtos, então, estes setores, para
garantir que não irão perder titularidade e manter a propriedade nas mãos dos
poucos que realmente são possuidores de propriedade real, reduzem a produção
visando absorver e suprimir a propriedade fictícia bem como separar com clareza
os proprietários reais dos realmente sem propriedade.
As crises de superprodução
se tornaram claramente crises de superprodução
do valor e mais obscuramente
crises de superprodução de mercadorias, ainda que, em
decorrência da crise de superprodução
do valor e das consequentes destruições da produção do valor, se tenha crise de superprodução de mercadorias e se faça destruição,
retração ou redução da produção
de mercadorias.
Este comportamento sistêmico nas crises financeiras indica
que não se trata apenas de um problema com o valor fictício ou com a produção
de papel-moeda sem correspondência com a propriedade real de mercadoria ou
produto, mas também duma produção excessiva de mercadorias ou de produtos pela
propriedade real da produção de mercadorias, ou seja, a crise de superprodução
não é apenas do valor ou da ficção mas também é do produto-mercadoria ou do
real. Na bolha a crise aparece como destruição da propriedade real, quando ela
estoura, e os diferentes expropriados se descobrem proprietários fictícios dos
seus títulos igualmente fictícios e sem valor real. Mas se na bolha é assim,
então onde não há bolha, quer dizer, propriedade fictícia, pode vir a ocorrer
uma socialização real da propriedade real, ou seja, pode vir a ocorrer uma
superprodução real dos produtos que esteja tendendo a baixar o valor dos
produtos abaixo do seu valor de mercadoria, quer dizer, abaixo de sua condição
de mercadoria, logo, pode vir a ocorrer uma socialização real dos produtos e
uma supressão do mercado. Então, sob a consciência duma crise de bolha
financeira ou monetária se esconde a consciência duma crise de superprodução
material ou objetiva. Desse modo também são os financistas os que são
responsabilizados por toda a crise que se espalha pela produção com as dificuldades
de emprego e de custo de vida. Se alguns espertalhões
transformaram mercadorias em dinheiro fictício, outros, supostamente bobões, produziram mercadorias em
excesso para obter o tal dinheiro fictício, ou seja, produziram mercadorias em
quantidade tal que ficaram abaixo do seu valor real. Ambos, no entanto, possuem
em comum o mesmo impulso que é o da ganância, da obtenção do lucro ou do fazer
com o dinheiro mercadorias para vendendo obter mais dinheiro.
Ceticismus: supressão e realização da investigação filosófica
“Sexto denomina então aqueles
filósofos que declaram ter obtido a verdade como
resultado de suas investigações
de “dogmáticos”; aqueles que afirmam ser a verdade
inapreensível de acadêmicos; e
aqueles que continuam a investigar de céticos. As filosofias se
dividem, portanto, em
dogmática, acadêmica e cética.” (“Ceticismo e dialética especulativa na
filosofia de Hegel”, de Luiz Fernando Barrére Martin, tese de doutorado,
Campinas, Dezembro de 2009, Universidade Estadual, p. 27)
O acadêmico Kant parou com as investigações da coisa em si,
o cético Hegel levou as investigações adiante até chegar à ideia absoluta como
cerne da coisa em si e com isso adotar uma posição dogmática idealista,
finalmente, Marx rejeitou o idealismo absoluto para continuar as investigações
da coisa em si como matéria e com isso adotar uma posição dogmática
materialista.
O dogmatismo do saber absoluto do idealismo absoluto traz de
volta a luta do ceticismo de continuar a investigar sem parar no idealismo,
mesmo ele sendo absoluto, daí que a continuidade da investigação sai do campo
ou terreno do idealismo absoluto e passa para o do materialismo, desse modo, o
materialismo da investigação cética que persiste investigando é um materialismo
acidental no sentido de um resultado ao qual chegou a investigação no contexto
do idealismo absoluto mas não é um materialismo absoluto no sentido duma queda
ou fixação no dogmatismo, ao contrário, os dogmatismos, seja o do idealismo
absoluto, seja o do materialismo acidental, são apenas momentos pelos quais a
investigação cética passa. Este resultado, no entanto, pode ser considerado
como a defesa duma posição acadêmica já que o ceticismo que quer continuar e
que não quer se fixar num dogmatismo qualquer, mesmo que o materialismo se
mostre um mero resultado acidental da investigação, parece também querer
defender a inapreensibilidade ou incognoscibilidade da coisa em si visto não
querer ser confundido com o materialismo acidental ao qual chegou ou ao qual
foi levado pela n
O materialismo ao qual chega a investigação cética que
persiste investigando é chamado de materialismo dialético porque com ele a
investigação prossegue, a história não acaba e é possível avançar a
investigação do beco sem saída que é o Estado para a possível saída sem beco
que é a Sociedade Civil, ou seja, avançar a investigação do beco sem saída da
emancipação política ou capitalista para a saída sem beco da emancipação social
ou trabalhadora. No entanto, existe muita coisa ainda entre o beco sem saída do
Estado e a Sociedade Civil porque o desenvolvimento da Sociedade Civil, ora
requer muita intervenção do Estado, especialmente quando a Sociedade Civil está
pouco desenvolvida, ora requer pouca intervenção do Estado, especialmente
quando a Sociedade Civil está muito desenvolvida. Fazer a emancipação social
duma Sociedade Civil pouco desenvolvida é não só recorrer ao Estado mas é
também recorrer a muita intervenção do Estado. Mas, e fazer a emancipação
social duma Sociedade Civil muito desenvolvida é o quê? É não recorrer ao
Estado e suprimir a pouca intervenção do Estado? É suprimir as diferenças
sociais e com elas o Estado, ou seja, é mudar a Sociedade Civil para uma
Sociedade Comum e sem Estado? Meros
sonhos que funcionam como o canto das sereias?!
Para o investigador cético a investigação continua apesar
dos sonhos e do canto das sereias, logo, ele se aprofunda no conhecimento da
Sociedade Civil, quer dizer, adentra com os economistas na vida econômica e, em
especial, na vida produtiva. Assume com David Ricardo que a Sociedade Civil
capitalista está composta por três grandes classes, a dos proprietários
fundiários, a dos proprietários dos meios de produção e a dos proprietários das
próprias forças humanas de trabalho, ainda que, nesse último caso, a Sociedade
Civil capitalista, durante um certo período, tenha admitido também a dos
proprietários das forças humanas de trabalho alheias, quer dizer, os
escravocratas, os quais, de modo geral, eram também os proprietários
fundiários. As forças humanas de trabalho eram servis no período imediatamente
anterior ao capitalismo, quer dizer, nas condições anteriores e mais propícias
ao capitalismo, porque nelas as forças de trabalho servis eram escravas ou
obrigadas ao trabalho servil durante um certo tempo e para atender uma certa
produção requerida pelos proprietários fundiários, mas tinham o restante do
tempo para produzir para si mesmas e eram proprietárias do tempo restante e da
produção nesse tempo restante. Foram essas propriedades do tempo restante e da
sua produção que vieram a constituir um tempo de trabalho da força de trabalho
para desenvolver a propriedade da produção, quer dizer, a propriedade dos meios
de produção. E as chamadas corporações de ofício e as comunas ou burgos
desempenharam papel preponderante no processo de separação clara entre a
propriedade fundiária e a propriedade de meios de produção, entre o campo e a
cidade. Mas, uma nova divisão do processo de produção se formou entre os
proprietários dos meios de produção e os proprietários das próprias forças
humanas de trabalho; enquanto na propriedade fundiária ou no campo o trabalho
era feito pela força humana de trabalho servil, já na propriedade dos meios de
produção ou na cidade o trabalho era feito pelo força humana de trabalho livre;
enquanto no campo eram os chefes de famílias que comandavam o tempo de trabalho
restante para a produção própria, já nas cidades eram os mestres de ofícios que
comandavam o tempo de trabalho tanto para a produção própria quanto,
especialmente, para o desenvolvimento do trabalho livre; enquanto no campo eram
os filhos, os parentes e as aproximações entre famílias que constituíam o
cotidiano dos trabalhadores, já na cidade eram os aprendizes, os companheiros e
as proximidades entre ofícios que constituíam o cotidiano dos trabalhadores;
enquanto no campo a conquista ou o uso pleno da liberdade supunha a
constituição de família própria, já na cidade a conquista ou uso pleno da
liberdade supunha a qualificação, habilidade comprovada ou “maestria” num
ofício; no campo, a sexualidade estava voltada para a constituição da família,
e, na cidade, a sexualidade estava voltada para o exercício e satisfação
individual do trabalhador livre, desse modo, os que ficavam à margem da família
no campo vinham buscar a inclusão no trabalho livre na cidade. No entanto, a
nova divisão do processo de produção das cidades foi avançando para uma
situação que não permitia mais que o proprietário da força humana de trabalho
também fosse proprietário da sua produção, a qual, no caso, em lugar de ser
fundiária, era de meios de produção. Desse modo, ao contrário do antigo
trabalhador do campo que tinha um determinado tempo de trabalho servil e um
muito maior tempo restante para produzir para si mesmo, o novo trabalhador
urbano acabou restrito a um exclusivo tempo de trabalho livre e um bem diminuto
tempo restante para descansar e recuperar sua força humana de trabalho,
enquanto isso, por outro lado, o novo proprietário dos meios de produção aumentou
a tal ponto o tempo de trabalho da produção dos seus meios de produção que não
restava para os trabalhadores nenhum tempo restante para produzir para si
mesmos e isso os impediu de virem a concorrer com os novos proprietários dos
meios de produção tal qual ocorreu no início do surgimento das cidades e dos
proprietários dos meios de produção.
A exploração dos proprietários da força humana de trabalho
livre pelos proprietários dos meios de produção chegou a um grau tal que,
apesar do trabalho e o trabalhador serem “livres”, eles eram escravos do tempo
de trabalho imposto pelos proprietários dos meios de produção. Os proprietários
dos meios de produção organizaram os meios de produção como vampiros que
extraíam toda a energia das forças humanas de trabalho e essas forças humanas
de trabalho eram compostas por crianças, mulheres e homens, sendo que raramente
existiam idosos porque as forças humanas não resistiam ao grau de extração de
suas energias vitais e morriam cedo e em grande quantidade.
Os trabalhadores tentaram destruir esses meios de produção
que destruíam suas vidas, mas os meios de produção destruídos num lugar
apareciam em outro e se fossem destruídos nesse outro voltavam a aparecer no
primeiro lugar. Os proprietários dos meios de produção não queriam a destruição
dos seus meios de produção, mas tinham relativa facilidade para repor os meios
de produção porque dispunham duma exploração ou extração da energia das forças
de trabalho quase que sem quaisquer limites, porém, fizeram seus cálculos para
evitar as repetidas destruições dos seus meios de produção e passaram a
perseguir a produção de meios de produção que lhes permitissem reduzir a
jornada das forças humanas de trabalho visando a própria manutenção e
desenvolvimento da produção de meios de produção. Devem ter começado fazendo
acordos com outros proprietários de meios de produção para aliviarem a extensão
da jornada de trabalho e, ao mesmo tempo, devem ter começado a investir na
produção de meios de produção muito mais produtivos com os quais pudessem
explorar os trabalhadores em jornadas mais intensas e bem menos extensas, ainda
que, ao mesmo tempo, deixavam a cargo dos trabalhadores a iniciativa de lutar
pela redução da jornada de trabalho e pelo estabelecimento de uma lei geral
regulamentando a jornada de trabalho. Mas, essas inovações ocorreram, tanto nos
meios de produção, quanto nas jornadas de trabalho, quanto nas lutas dos
trabalhadores, quanto na legislação da jornada de trabalho e/ou trabalhista. E,
uma vez que se estabeleceram, também passaram a exigir novas condições para ser
proprietário dos meios de produção, já que não era mais possível acumular
capital extraindo sem limites as energias das forças humanas de trabalho. Como,
nas novas condições legais, obter o suficiente para adquirir os meios de
produção para poder ser um proprietário legalmente reconhecido e estabelecido?
Com o salário não é possível, mas, talvez, por meio de uma cooperativa de
produção na qual vários contribuam com algo dos seus salários se possa
vislumbrar uma oportunidade. Claro que uma cooperativa de produção feita
proprietários de meios de produção que se adaptam às novas condições é muito
mais viável e realista, ainda que mais realista ainda é o surgimento da
tendência ao monopolismo dos proprietários dos meios de produção. Em todo caso,
o Estado passa a fiscalizar o cumprimento da lei e, desse modo, a punir os
infratores e a ficar com a propriedade de seus meios de produção, podendo
leiloá-los ou fazê-los funcionar de acordo com a lei, logo, o Estado passa a
intervir indireta e diretamente na economia. Mas, aquele que empresta dinheiro
a juros também passa a se organizar e desenvolver mais, até porque ele precisa
ter um montante equivalente ao que é exigido pelos novos meios de produção, de
modo que o sistema bancário e financeiro se desenvolvem muito, nessas novas
condições dos meios de produção e das jornadas de trabalho intensos e não
extensos, fazendo os empréstimos para os novos proprietários dos meios de
produção, fazendo para estes os pagamentos dos salários dos seus trabalhadores,
enfim, se tornando dominantes nas novas condições, uma vez que é o quantum de
dinheiro que vai diferenciar o simples proprietário da força humana de trabalho
do simples proprietário de meios de produção.
O proprietário fundiário explora a força humana de trabalho
servil e deixa o tempo restante para que esta se constitua em força humana de
trabalho livre com produção fundiária e em proprietário de meios de produção.
Assim como exige do servo um quantum determinado também exige dos burgos ou
comunas e dos proprietários de meios de produção e dos proprietários de forças
humanas de trabalho livres o pagamento de impostos e/ou tributos arrecadados
pelos nobres proprietários fundiários e distribuídos entre os senhores feudais
e o Rei, o qual, por sua vez, é considerado o proprietário fundiário da Nação e
do Estado, melhor, do Estado-Nação. O dinheiro e/ou a moeda, em geral, estão
nas mãos do Rei e dos nobres e/ou do Estado-Nação, ou seja, ele é renda
resultante do trabalho servil, dos impostos ou dos tributos, portanto, não é
ainda lucro. Aliás, no início do surgimento do proprietário de meios de
produção o processo começa com as mercadorias produzidas pelo camponês no seu
tempo restante livre, de modo que as comunas ou burgos se organizam junto com a
organização das corporações de ofícios, ou seja, se voltam para a produção e
consumo das mercadorias das corporações de ofícios, então, eles começam
produzindo mercadorias para obter dinheiro e produzir mais mercadorias. Com o
desenvolvimento do processo de produção de meios de produção é o dinheiro que
se torna um meio de produzir meios de produção de mercadorias que produzem mais
dinheiro. E, nesse momento, o dinheiro/moeda é o lucro resultante do tempo de
trabalho da força humana de trabalho livre usada nos meios de produção para a
produção de mercadorias que, vendidas, resultam em mais dinheiro. São dois
possuidores de dinheiro em grande quantidade que se aproximam, os que se
apropriam de dinheiro com a renda e os que se apropriam de dinheiro com o
lucro. É esse o momento que caracteriza a ascensão da burguesia e/ou do
proprietário dos meios de produção ao poder político do Estado. E o
endinheirado pelo lucro prefere que o Estado empreste dinheiro e/ou financie os
proprietários de meios de produção e não que entre diretamente na propriedade
e/ou produção de meios de produção, ainda que isso acabe acontecendo numa ou
noutra exceção e venha a se tornar quase que regra com o advento da jornada de
trabalho reduzida e limitada por lei e dos meios de produção que requisitam
menor tempo de jornada de trabalho, quer dizer, na época do dito capitalismo
monopolista de Estado.
Títulos de nobreza foram comprados pelos novos
endinheirados, os endinheirados pelo lucro, mas isso significa que os
endinheirados mais antigos, os endinheirados pela renda, também já praticavam a
compra de títulos de nobreza, de modo que a mudança, de um título para outro
hierarquicamente mais elevado, significava um aumento da renda do titular e do
Rei, já que o titular ao aumentar suas propriedades fundiárias aumentava suas
rendas e, com elas, a renda do Rei. O Rei tinha exata noção da renda de cada
título de nobreza e, por isso, sabia exatamente com quem estava falando, do seu
valor/da sua nobreza, melhor, do valor da sua nobreza, quando era anunciado com
seu devido título de nobreza. Certamente, haviam exceções, mas por isso mesmo,
por serem exceções, eram fáceis de reter na memória do Rei. Os títulos eram
como a hierarquia das cédulas de dinheiro, quem estava no topo tinha acesso a
todas as cédulas, mas a cada patamar da hierarquia corresponderia uma cédula em
particular, ainda que, para os súditos em geral ou os plebeus, corresponderiam
as cédulas mais baixas, de uso comum e sem nobreza hierárquica. Os
endinheirados pelo lucro conseguiriam ter acesso a todas as cédulas de
dinheiro, logo, igualmente a todos os títulos de nobreza. Eles começariam,
claro, tendo o acesso comum às cédulas plebeias que acumulariam em grande
quantidade e usariam para pagar a renda aos nobres e ao Rei, mas, em seguida,
começariam a obter as cédulas nobres com a venda de mercadorias para a nobreza
e para o Rei, a obtenção de dinheiro pelo lucro seria muito maior que a obtida
pela renda. Os novos endinheirados pelo lucro quebrariam a hierarquia do
endinheiramento pela renda e, por aí, transformariam as monarquias para
monarquias constitucionais com amplo espaço para o endinheiramento pelo lucro,
quer dizer, pela propriedade de meios de produção, a qual se baseia e necessita
do trabalho livre, ou seja, obtido no mercado de trabalho, via compra e venda
da força humana de trabalho livre, consequentemente, o endinheiramento pelo
lucro abriu amplo espaço para a participação ampla, geral e irrestrita dos
comuns, quer dizer, do dinheiro em geral e sem limitações hierárquicas.
O valor obtido pela renda da propriedade fundiária se
baseava na força natural da terra, na força pessoal do trabalho servil e na
força pessoal guerreira do senhor feudal. Era a partir da força guerreira
pessoal e natural que se constituía a hierarquia da nobreza que também era uma
hierarquia da nobreza do sangue, quer dizer, das famílias nobres e reais/da
realeza. Já o valor obtido pelo lucro da propriedade dos meios de produção se
baseava na força artificial do meio de produção, na força impessoal/mecânica do
trabalho livre e na força impessoal engenhosa do capitalista. É a partir da
força engenhosa impessoal e artificial que se constituem as frações da
burguesia que também são frações do montante de dinheiro, quer dizer,
quantidades de lucro obtidas por cada uma das frações.
A divisão de Nietzsche entre o guerreiro e o sacerdote é
muito sugestiva não só por ter sido desenvolvida por Weber na obra “O
protestantismo e o espírito do capitalismo”, mas porque os sinais do “espírito
do capitalismo” aparecem primeiro nos mosteiros, monastérios, enfim, em
instituições que se situam na origem de universidades, de corporações de
ofício, de hospitais, asilos, internatos e mesmo de manufaturas, de fábricas,
vilas, burgos, comunas, cidades. O sacerdote, descrito por Nietzsche, faz uso
da inteligência e do cálculo racional ou artifício em oposição ao guerreiro,
também por ele descrito, que faz uso da força e do instinto irracional ou
natureza. Porém, se o guerreiro é sucedido pelo sacerdote, então, o que importa
é saber a figura que sucede o sacerdote. Vimos que o sacerdote, o burguês ou o
capitalista inicialmente se encontra no mesmo ponto de partida que o
trabalhador livre, ou seja, é uma figura que se faz a partir do tempo restante
do camponês fora do trabalho servil, de modo que a mesma pessoa é trabalhador
livre e proprietário de meio de produção. A divisão se faz e se aprofunda desde
a corporação de ofício até chegar à grande indústria passando pela manufatura.
E é nesse caminhar também que o trabalho livre começa pela aquisição da
habilidade ou ofício chega à ausência de qualquer arte, habilidade ou ofício
passando por um tempo de trabalho ou jornada de trabalho livre escravizante,
quer dizer, inteiramente desregulamentada e sem qualquer limite legal, até
assumir a forma de jornada de trabalho livre normal, regulamentada e legal. A
jornada escravizante e sem limites separava claramente o trabalhador do
proprietário do meio de produção, o qual, por sua vez, se tornava proprietário
e desenvolvia seus meios de produção usando precisamente o poder de exploração
sem limites da jornada de trabalho do trabalhador livre, posto que usava essa
fonte de acumulação de tempo de trabalho para usar uma parte significativa na
produção de um meio de produção que produzisse em maior quantidade e em menor
tempo de trabalho. Os trabalhadores só começam a desenvolver a autonomia da sua
figura própria com a redução da jornada de trabalho que aproveitam para
conquistar com o desenvolvimento do meio de produção industrial, quer dizer, da
grande indústria. Só começam a ter tempo restante para eles mesmos quando
conquistam a redução da jornada de trabalho. Então, o que se depreende é que os
trabalhadores e os capitalistas estão acorrentados num mesmo processo de
desenvolvimento produtivo no qual o aperfeiçoamento dos meios de produção
aumenta o lucro do capitalista ao reduzir o tempo de trabalho necessário para
produzir a mercadoria, mas, ao mesmo tempo, tal aperfeiçoamento é uma
oportunidade para o trabalhador obter a redução da jornada de trabalho e
aumentar seu tempo restante para si mesmo ou seu tempo livre da produção.
O servo usava o seu tempo restante livre para desenvolver o
trabalho livre, quer dizer, para criar seu próprio tempo de trabalho; o
resultado foi a divisão entre trabalhador livre querendo redução do tempo de
trabalho da jornada de trabalho e capitalista querendo desvalorização da
jornada de trabalho pela redução do tempo necessário para a produção da
mercadoria, o capitalista quer aumentar a produção de mercadorias durante uma
mesma jornada de trabalho e o trabalhador quer aumentar a produção de tempo livre
da jornada de trabalho; um quer aumentar a produção de mercadorias e o outro
quer aumentar a produção de tempo livre; certamente que o aumento da produção
de mercadorias em menor tempo de trabalho não só desvaloriza a força de
trabalho como pode ocasionar desemprego da força de trabalho e algo similar se
pode dizer do aumento da produção de tempo livre com uma menor jornada de
trabalho como causadora de emprego da força de trabalho e de valorização da
força de trabalho; no entanto, se um aumento da produção de mercadorias em
menor tempo de trabalho desvalorizando a força de trabalho e ocasionando
desemprego não encontra nenhuma limitação vinda da luta dos trabalhadores por
aumento do emprego e do valor da força de trabalho via aumento do tempo livre
com a redução da jornada de trabalho, então toda uma reestruturação do consumo
das mercadorias se faz necessária porque é preciso que os desempregados tenham
dinheiro para consumir a produção aumentada de mercadorias, caso contrário, ela
arruinará o capitalista com sua superprodução. É aí que o dito setor de
serviços, quer dizer, novas formas de comerciar as mercadorias surgem como
empregos ou empreendimentos de novo tipo dentro do que é chamado de mercado
informal e que também é integrante do mercado da informação, posto que é esta
que se torna dominante na produção que reduz o tempo de trabalho necessário e,
assim, aumenta a produção de mercadorias em menor tempo de trabalho necessário.
Com a reestruturação configurada só poderá ocorrer uma retomada do processo de
produção de aumento do tempo livre se e quando os trabalhadores lutarem e
conquistarem uma redução substancial da jornada de trabalho, um aumento
substancial do emprego da força de trabalho e uma valorização substancial da
força de trabalho. Ocorre então uma formalização do mercado informal ou um
crescimento do mercado formal e uma formalização do mercado da informação ou um
crescimento do mercado formal da informação; noutras palavras, o informal é o
sem limites jurídicos e políticos, enquanto que o formal é o com limites
jurídicos e políticos; ou também: o informal é a sociedade civil sem cidadania,
melhor, é a sociedade civil burguesa com cidadania burguesa e sem cidadania
trabalhadora, e o formal é a sociedade civil com cidadania, melhor, é a
sociedade civil burguesa com cidadania burguesa e com cidadania trabalhadora.
No entanto, o advento da sociedade “civil” trabalhadora só poderá vir a ser com
a conquista definitiva do tempo livre da jornada de trabalho, ou seja, a nova
figura é a da força humana do tempo livre ou da emancipação humana completa do tempo
de trabalho, quer dizer que a nova figura é a da emancipação humana do trabalho
ou é a da emancipação do trabalho.
Mas esta não é precisamente a figura do filósofo
especulativo hegeliano ou do filósofo ocioso aristotélico?!
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