Como a dramaturgia do senhor e do escravo é explicada por
Nietzsche?
O senhor é aquele com excesso de capacidade e o escravo é
aquele com carência de capacidade, ou seja, o senhor é aquele que se faz
suporte da liberdade e o escravo é aquele que se faz suporte da necessidade. É
uma dramaturgia entre a natureza aristocrática do senhor, do capacitado, do
livre e a natureza carente do escravo, do incapacitado, do necessitado. Quem
vai para o trono ou para o Estado? Naturalmente é o senhor, diz Nietzsche. E
quem vai ser súdito ou Sociedade Civil? Claro que ao lado do Rei e no Estado
ficam os aristocratas, ainda que os carentes possam servir como criados que
vestem, cozinham, servem ao Rei e ao Estado. Os súditos, claro, são todos
aqueles que não são o Rei, logo, os aristocratas são súditos, mas, ao mesmo
tempo, eles se encontram no mesmo campo do Rei, o Estado, e podem vir a ser
Rei. Já súditos e exclusivamente súditos são os carentes que constituem o campo
dos escravos, a Sociedade Civil, e que só poderão vir a ser Rei depois de uma
luta entre os súditos carentes e os aristocratas. Segundo Nietzsche, isso
ocorre quando no interior dos capacitados aristocratas, os guerreiros, surge um
que adoece e sentindo a carência da doença se afasta do convívio destes
guerreiros. Este que adoece, sente carência de saúde e se afasta dos saudáveis
guerreiros vem a constituir a figura do sacerdote. E dele podemos falar que é
uma declinação ou desvio da queda (vertical) em linha reta da saúde guerreira dos
capacitados aristocratas, logo, é a constituição numa linha curva da carência
de saúde guerreira ou do surgimento da capacitação da saúde sacerdotal. Noutras
palavras, a figura do sacerdote elaborada por Nietzsche exerce a mesma função
do clinâmen epicurista no interior da dramaturgia determinista por ser através
dela que se faz a introdução da dramaturgia propriamente dita do acaso. Também
podemos falar algo que é próprio do que dizem os especialistas na “Arte da Guerra”, como o chinês Sun Tzu, a respeito da figura decisiva do espião ou agente duplo,
o qual, em geral, é um aristocrata, que desempenha um papel importante ao lado
do poder aristocrático do Rei, mas que trai seu campo aristocrático, seu reino
e seu Rei promovendo a vitória do poder carente dos súditos, dos escravos e,
com isso, traz à tona a invenção dum novo campo de ação da linha reta que é o
da repulsão (horizontal), porque a sua novidade é a independência em relação à determinação
da queda (vertical) em linha reta, a qual destaca a capacidade versus a carência, porque a
determinação em linha reta da repulsão (horizontal) admite que todos possuem tanto
capacidade quanto carência, afinal, foi isto que o sacerdote aprendeu com sua
doença e sua declinação ou desvio, a saber, que ele não é apenas capacidade nem
saúde guerreira mas também é carência e saúde carente, ou seja, o sacerdote com
o desvio, a declinação ou o clinâmen, tal qual Arquimedes, inventa a alavanca
que move, muda e transforma o mundo, que, assim, sai da dramaturgia do
determinismo para a dramaturgia do acaso, quer dizer, daquela dramaturgia onde
a determinação preponderante é da natureza ou do ator da natureza ou da natureza
do ator e passa para a dramaturgia na qual a determinação preponderante é da
artificialidade/criatividade ou do ator da artificialidade/criatividade ou da
artificialidade/criatividade do ator. Portanto, se pode dizer que a invenção do
campo democrático ou da repulsão (horizontal) em linha reta que, aliás, também é a invenção
do mercado e dos valores relativos de todo e qualquer quantum presente aí na
repulsão (horizontal) em linha reta, ou seja, que ambos democracia e mercado são invenções
decorrentes do desvio, da declinação ou do clinâmen, e este pode ser concebido,
no final das contas, como presença da carência no interior do campo da
capacidade aristocrática. Finalmente, pode-se falar que a experiência pessoal
de Nietzsche, depois de se alistar como voluntário da Guerra Franco-Prussiana
de 1870, foi decisiva, não só para escrever sua obra de estreia estrondosa no
campo filosófico, “A Origem ou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música”,
mas também para constituir o próprio Nietzsche como filósofo, artífice, criador
e ela é inseparável das histórias e estórias a respeito da doença e do
adoecimento do próprio Nietzsche.
Nietzsche diz de sua obra que ela é guerra. E tem toda razão
porque ela é obra do desvio, do agente duplo, da alavanca, enfim, de quem se situa
na dobradiça de dois movimentos em linha reta, o de queda e o de repulsão, por
ser movimento em linha curva, que gira em torno de si, logo, revolucionário,
mas que se situa entre os dois movimentos em linha reta e de um modo que
participa como alavanca que move e muda um no outro.
- Tá bom. Esta é a explicação de Nietzsche para a dramaturgia
do senhor e do escravo, mas que importa isso, aqui e agora?!
Que importa?! Hobbes dizia que “o homem nasce mau e o Estado
o corrige”, com isso queria desenvolver um Estado que corrigisse a natureza
humana e Rousseau dizia que “o homem nasce bom e a sociedade o corrompe” e, com
isso, queria, ao contrário, desenvolver uma sociedade que afirmasse a natureza
humana. Hobbes era conservador e defendia o Estado anterior ao surgimento da superpopulosa
natureza humana má. Rousseau era progressista e defendia a Sociedade Civil
posterior ao surgimento da superpopulosa natureza humana boa. Ambos estavam
diante do fenômeno duma superpopulosa natureza humana. Para Hobbes esta
superpopulação era uma corrupção da sociedade existente e para Rousseau esta
superpopulação era corrompida pela sociedade existente.
Epicuro, o inventor da declinação da queda em linha reta,
dizia que as sociedades que não fizeram pactos e/ou contratos (constituições)
eram isentas de justiça e de injustiça, precisamente porque não criaram nenhuma
lei, logo, nelas vigorava apenas a determinação da Natureza, quer dizer, apenas
a dramaturgia do determinismo, posto que as forças dos atores eram pura e
simplesmente as forças naturais instintivas, eram apenas as forças determinantes
do instinto, portanto, nelas não havia a menor injustiça quando o mais forte com
sua força massacrava o mais fraco nem quando o mais fraco se juntava com outros
para com suas fraquezas associadas ter forças para massacrar o mais forte.
Nelas, em geral, vigorava a “lei” do mais forte, quer dizer, ele é quem dizia o
que era “bom” e de “valor” e também o que era “mau” e “sem valor”, como nos
ensina Nietzsche. Já Epicuro nos ensina que esses juízos e valores são próprios
das sociedades sem justiça nem injustiça por serem sem contratos sociais. As
sociedades que fazem contratos, pactos, constituições são aquelas que conhecem
a justiça e a injustiça. E tais sociedades são resultantes da declinação,
desvio ou clinâmen da determinação da Natureza ou do determinismo da queda em
linha reta, ou seja, são sociedades resultantes da artificialidade/criatividade
dos atores determinada ao acaso, quer dizer, por uma determinação resultante
das invenções dos próprios atores. Portanto, as sociedades que conhecem a
justiça e a injustiça, que fazem as leis etc. são sociedades determinadas pela
imaginação dos atores ou pelo acaso das ações em torno de si mesmos feitas
pelos atores.
As marcas que Nietzsche nos mostra da presença da lei do
instinto ou do mais forte, quer dizer, do aristocrata naquilo que conhecemos
como sendo o Estado, ele também mostra como sendo lei do instinto ou do mais
fraco, quer dizer, do escravo naquilo que conhecemos como Sociedade Civil. No
entanto, nos ensina Epicuro, que tais marcas pertencem à dramaturgia sem lei,
sem justiça nem injustiça, do determinismo da Natureza e/ou do instinto, mas
que aquilo que está presente sob o véu dessas marcas dessa dramaturgia
determinista do instinto é a dramaturgia com lei, com justiça e injustiça, da
determinação pelo acaso/imaginação e/ou pelo desejo dos atores presentes na
dramaturgia. Aquilo que Nietzsche compreende como sendo uma corrupção, um
adoecimento da saúde natural é compreendido por Epicuro
como sendo uma geração, uma criação da saúde humana.
A democracia, como vimos acima com Nietzsche, é resultante,
como vemos com Epicuro, da criatividade humana das sociedades humanas, quer
dizer, daquelas sociedades que, ao contrário das simplesmente naturais, criam
contratos, pactos, constituições, leis, justiça e injustiça.
Portanto, devemos desconfiar da leitura aristocrática que só
vê corrupção na democracia e no mercado, posto que ambos nascem
concomitantemente, e que defende como justo e incorruptível o Estado
Aristocrático e Natural dos poderosos, dominantes e bem-nascidos. Por outro
lado, também não podemos confiar na leitura servil que também só vê e só quer
se beneficiar da corrupção da democracia e do mercado, não só por considerar
que ambos nasceram concomitantemente, mas sim por considerar que é o interesse
e o pragmatismo da corrupção aí presentes que torna a Sociedade Democrática e
Própria dos fracos, dos dominados e malnascidos.
Noutras palavras, devemos desconfiar das leituras exteriores
à determinação dos próprios atores da sociedade. Porque a leitura interna e
própria dos atores da sociedade é aquela que supera e suprime estas marcas da
determinação externa ou do determinismo da Natureza e/ou do instinto por se
afirmar como determinação interna ou do determinismo do acaso/imaginação e/ou
do desejo, ou seja, por se colocar por inteiro no campo do determinismo da
sociedade que faz ela mesma a justiça e a injustiça, a lei, quer dizer, no
campo da sociedade que é ela mesma socialista ou humana e não de classe ou
natural.
Além disso, significa que temos de olhar para a crise atual e ver os aristocratas querendo dar golpe, os corruptos querendo que democracia e mercado sejam meramente corrupção e os socialistas querendo que a justiça e a injustiça bem como a democracia e a lei sejam resultantes da dramaturgia dos atores das sociedades que fazem contratos sociais, constituições, pactos e/ou criam a si mesmas ao acaso das ações mútuas de seus atores.
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10/02/2016
Alguém, não sei quem, leu esta semana o último texto que postei em 7 de fevereiro de 2016 e na mesma semana alguém, também não sei quem, leu um texto que publiquei em 7 de setembro de 2015. Reli o de setembro e de fevereiro e concluo que eu já sei diferenciar com relativo grau de detalhamento entre um método que começa pela representação concreta do concreto e dissolvendo a representação do concreto chega aos princípios gerais abstratos e um outro método que começa pelos dissolvidos princípios gerais abstratos da representação e condensando os dissolutos princípios abstratos gerais chega na reedificação abstrata da representação do concreto.
O primeiro método é aquele pelo qual se começa e, por isso, pode ser considerado como o método do ingênuo, do iniciante, do discípulo, do aprendiz. Já o segundo método é aquele pelo qual se finaliza e, por isso, pode ser considerado como o método do crítico, do perito, do mestre, do profissional. Por isso que Marx chama o segundo de o método científico.
No primeiro método não só interrogamos ou investigamos a representação do concreto mas também todos os mestres e, em especial, aquele que é considerado o oráculo pelo saber que possui e nosso trabalho visa decifrar o concreto, então, nossa atividade para chegar ao segredo escondido do concreto é uma atividade de dissolução do concreto. No segundo método estamos de posse do segredo escondido do concreto e a partir dele nos dedicamos à reconstrução abstrata do concreto e também à reconstrução concreta do concreto por meio do uso da abstração ou do segredo escondido do concreto.
Esta relação pela qual todos precisamos passar é também a da passagem do aprendizado do conhecimento para a prática da sabedoria, passagem da atividade de apreender, decifrar, consumir o concreto para a atividade de praticar o apreendido, o decifrado, o consumido do concreto como prática, trabalho, elaboração do abstraído num concreto pensado. Portanto, se trata da passagem do apreender, decifrar, consumir para o elaborar, criar, produzir. Permanecer na primeira atividade e com o primeiro método depois de obter o resultado dessa atividade e método é permanecer aprisionado nos dissolutos princípios gerais abstratos ou é permanecer num mundo abstrato insensível. Avançar para o desenvolvimento da segunda atividade e do segundo método é sair do aprisionamento nos dissolutos princípios gerais abstratos e adentrar na liberdade de criar um concreto pensado ou é adentrar na liberdade de mudar o concreto representado num concreto pensado.
Mas, sabemos que o primeiro método é também aquele presente na tragédia do mítico Édipo e que o segundo método é aquele presente na tragédia do mítico Prometeu e ainda que na tragédia de Édipo é o saber oracular que se encontra fora de Édipo, enquanto que na tragédia de Prometeu é o saber oracular que se encontra representado por Prometeu e que Prometeu diz ter auxiliado Zeus a destronar seu pai Cronos e que Prometeu ainda anuncia que Herácles irá libertar Prometeu pondo em xeque o poder de seu pai Zeus, ou seja, Prometeu conta a história como uma sucessão de situações edipianas e, ao mesmo tempo, mostra que este seu saber oracular do caráter edipiano da historicidade é devido à elaboração prometeica da historicidade edipiana. Noutras palavras, Prometeu tal qual Freud anuncia a universalidade do "Complexo de Édipo", mas pratica a elaboração da singularidade da "Cura Prometeica".
O psicanalisando vai ao encontro do psicanalista que o apresenta ao Complexo de Édipo e, a partir daí, inicia a terapia visando a prática da elaboração da singular ou individual "Cura Prometeica" do psicanalisando, a qual, por sua vez, corresponde à libertação do psicanalista do seu aprisionamento no sistema oracular para um mundo humano.
Finalmente, fica claro que o meu problema é permanecer repetindo a descoberta dos princípios gerais abstratos e não abandoná-los por não me sentir capaz de me lançar na prática de elaborar o concreto pensado, na prática de trabalhar a síntese dos princípios gerais abstratos num concreto pensado, na prática de elaborar ou trabalhar a síntese de múltiplas determinações na concretização do concreto. Por outro lado, fica claro que, graças a minha leitura, das leituras dos leitores anônimos do que escrevi, pude avançar aqui na prática da elaboração duma síntese do epicurismo de Marx e de Freud.
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