A relação com a sensibilidade e com a insensibilidade.
A princípio o ser é sensível e o não ser é insensível. No
entanto, é possível duvidar que o insensível seja não ser argumentando que o
sensível só conhece o ser sensível e quanto ao insensível ele não pode afirmar
que é ser insensível ou não ser insensível porque só tem certeza de ser
sensível.
Olhando para a própria história do vir à luz sensível ou do
nascer é possível adquirir consciência que o próprio ser sensível saiu duma mãe
e, antes, foi gerado pela relação sexual dessa mãe com o pai. É possível
perceber ainda que a consciência não participa da geração, da gestação, do
nascimento e dos primeiros anos de vida. Mais ainda, é possível perceber que,
quando a consciência começa a participar e a estar presente com lembrança, essa
lembrança é muito incerta, nebulosa, melhor, se confunde com fantasia,
alucinação, sonho. E quando a lembrança é muito certa, clara e se mostra real,
fato, vigília, então, também é possível perceber que aí a consciência que está
presente e participa da lembrança é a mesma que nomeia a si mesma de eu.
Um período sem lembrança que é, então, totalmente
inconsciente e outro período com lembrança incerta, nebulosa e que é considerado
parcialmente inconsciente na forma de fantasia, alucinação, sonho. Este segundo
período corresponde, melhor, equivale ao das cogitações da física quântica com
seu princípio de incerteza ou indeterminação que afirma o predomínio da nuvem
ou da nebulosa sobre o ponto claro e distinto. Já com o primeiro período surgem
associações que tornam possível fazer equivalências entre os átomos e os espermatozoides
e óvulos, bem como entre o encontro dos átomos no vazio originando a composição
e o encontro do espermatozoide e do óvulo no útero originando o feto e, assim
por diante, até o nascimento e primeiros anos de vida.
Essas comparações entre ser sensível inconsciente e atomismo
até chegar ao ser sensível consciente e à saída do atomismo parecem reafirmar
que só temos certeza do ser sensível. Do ser sensível inconsciente, em
especial, os átomos e o vazio e os espermatozoides e os óvulos temos certeza da
presença duma vontade ou desejo que os faz se encontrar e associar numa
composição. Vontade ou desejo que pode ser determinada como encontro de dois
átomos ou de espermatozoide e óvulo atraídos por uma queda em linha reta no
vazio ou no útero, segundo o primeiro atomismo de Demócrito. Já o atomismo de
Epicuro argumenta que a vontade ou desejo cuja determinação é a queda em linha
reta no vazio faz os átomos permanecerem afastados uns dos outros em suas
quedas em linha reta no vazio e o mesmo argumento é usado para o espermatozoide
e o óvulo que caem em linha reta no útero, pois podem perfeitamente permanecer
um ao lado do outro no útero quando a vontade ou o desejo que os determina for
apenas o da queda em linha reta. Por isso, Epicuro ou Lucrécio, segundo os
especialistas, seu discípulo romano, argumentou a favor de um movimento mínimo
e próprio dos átomos e do espermatozoide e do óvulo de desvio da queda em linha
reta no vazio, movimento este que tornaria possível aos átomos e ao
espermatozoide e ao óvulo sair da posição paralela no vazio ou de lado a lado
no útero e se encontrar, associar e combinar um com o outro no vazio e no
útero. Quando, na física atual, a partir de Einstein, se diz que o espaço é
curvo parece que é o mesmo pensamento, de uma vontade ou desejo que dobra o
grave, que volta para tornar possível o encontro, associação e combinação do
que é físico ou sensível.
A linha curva dos átomos e do espermatozoide e do óvulo
durante sua queda em linha reta no vazio e no útero corresponde à afirmação da
vontade ou desejo dos átomos e do espermatozoide e óvulo dentro da todo
poderosa vontade e desejo da queda em linha no vazio e no útero. Essa pequena
vontade ou pequeno desejo próprios do ser sensível é a vontade ou o desejo do
vir a ser, enquanto que a grande vontade ou grande desejo exteriores do ser
sensível é a vontade ou o desejo do não ser.
Com essa vontade ou desejo do vir a ser é possível vir à
consciência da realidade em si, já apenas com a vontade ou desejo do não ser é
possível permanecer inconsciente da realidade em si.
Resultado. Para a vontade ou o desejo do vir a ser a
possibilidade de vir à consciência da realidade em si corresponde a afirmar o
conhecimento ou a ciência da consciência de si, quer dizer, o autoconhecimento
humano e não o da própria natureza em si, mas apenas porque esta natureza em si
carece de consciência de si. Para a vontade ou o desejo do não ser a
possibilidade de permanecer inconsciente da realidade em si corresponde a negar
o conhecimento ou a ciência da coisa em si, quer dizer, o conhecimento da
própria natureza em si porque ela permanece inconsciente de si.
Porém, este resultado não basta porque ambas posições
afirmam ter consciência de si, consciência de ser sensível. Porém, a
consciência de si de uma é resultante da própria vontade íntima que dobra si
mesma para vir a si, enquanto que a consciência de si da outra é resultado da
vontade externa que empurra e expulsa do inconsciente em si para a formação
duma consciência para si. A primeira é uma consciência efetivamente de si no
sentido de vir a ser consciência do próprio inconsciente ou autoconhecimento. A
segunda é uma consciência efetivamente fora de si no sentido de não ser
consciência da coisa em si ou auto-ignorância, quer dizer, no sentido de não
ser consciência da coisa em si e sim consciência fora da coisa em si, melhor,
consciência da coisa aparente ou consciência da consciência ignorante.
Prometeu pega o húmus da terra e dá forma, dá forma ao húmus
ou dá forma humana. Porém, a criatura a que deu forma está sem autonomia, então
ele rouba a centelha do céu e a dá para a forma humana. A fertilidade do húmus
presente na forma humana faz germinar a criatividade que recebe da centelha e,
desse modo, sua obra fica completa e a humanidade que formou se torna livre para
agir a partir de si mesma. Isso que Prometeu faz como artista é o mesmo que o
óvulo e o esperma fazem criando o feto humano. Tanto Prometeu quanto os
princípios tratam de fazer a síntese que é a humanidade, o bebê humano.
Édipo mata o pai, casa com a mãe e dá origem a uma prole
abominável. Édipo já foi sintetizado pelos princípios, mas ele quer fazer
análise e, por isso, mata o pai para que o princípio espermático dele oriundo e
que, no caso é o próprio Édipo, possa se associar com o princípio ovular, que
no caso é a própria mãe, ou seja, é ele e não mais o pai quem tem relação
sexual com a mãe, mas, assim, ele também expressa querer voltar para antes do
seu nascimento, porém, isto não ocorre e da sua relação com a mãe nasce a tal
prole abominável (monstruosa, vomitada, expulsa), quer dizer, não mais uma
síntese propriamente dita e sim a busca de um encontro concreto dos princípios
ou mais claramente a realização de uma análise propriamente dita dos princípios.
Finalmente, auxiliado por um membro de sua prole abominável, sua filha
Antígona, ele vai encontrar a recompensa que sempre buscou e que é o seu túmulo,
junto ao túmulo de Teseu, num local secreto e sagrado em Colona, nos arredores
de Atenas.
No “método da economia política” Marx diz que existem dois
métodos aplicados na economia política. Diz que o primeiro é aquele que parte
da representação ou do existente e por meio da análise chega a princípios
gerais abstratos. E que o segundo é aquele que parte desses princípios gerais
abstratos e vai se elevando até chegar à síntese da representação ou do existente,
mas chegar a uma síntese pensada, uma síntese de pensamento. E conclui que este
segundo método é método verdadeiramente científico.
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