domingo, 7 de fevereiro de 2016

A relação com a sensibilidade e com a insensibilidade

A relação com a sensibilidade e com a insensibilidade.


A princípio o ser é sensível e o não ser é insensível. No entanto, é possível duvidar que o insensível seja não ser argumentando que o sensível só conhece o ser sensível e quanto ao insensível ele não pode afirmar que é ser insensível ou não ser insensível porque só tem certeza de ser sensível.


Olhando para a própria história do vir à luz sensível ou do nascer é possível adquirir consciência que o próprio ser sensível saiu duma mãe e, antes, foi gerado pela relação sexual dessa mãe com o pai. É possível perceber ainda que a consciência não participa da geração, da gestação, do nascimento e dos primeiros anos de vida. Mais ainda, é possível perceber que, quando a consciência começa a participar e a estar presente com lembrança, essa lembrança é muito incerta, nebulosa, melhor, se confunde com fantasia, alucinação, sonho. E quando a lembrança é muito certa, clara e se mostra real, fato, vigília, então, também é possível perceber que aí a consciência que está presente e participa da lembrança é a mesma que nomeia a si mesma de eu.


Um período sem lembrança que é, então, totalmente inconsciente e outro período com lembrança incerta, nebulosa e que é considerado parcialmente inconsciente na forma de fantasia, alucinação, sonho. Este segundo período corresponde, melhor, equivale ao das cogitações da física quântica com seu princípio de incerteza ou indeterminação que afirma o predomínio da nuvem ou da nebulosa sobre o ponto claro e distinto. Já com o primeiro período surgem associações que tornam possível fazer equivalências entre os átomos e os espermatozoides e óvulos, bem como entre o encontro dos átomos no vazio originando a composição e o encontro do espermatozoide e do óvulo no útero originando o feto e, assim por diante, até o nascimento e primeiros anos de vida.


Essas comparações entre ser sensível inconsciente e atomismo até chegar ao ser sensível consciente e à saída do atomismo parecem reafirmar que só temos certeza do ser sensível. Do ser sensível inconsciente, em especial, os átomos e o vazio e os espermatozoides e os óvulos temos certeza da presença duma vontade ou desejo que os faz se encontrar e associar numa composição. Vontade ou desejo que pode ser determinada como encontro de dois átomos ou de espermatozoide e óvulo atraídos por uma queda em linha reta no vazio ou no útero, segundo o primeiro atomismo de Demócrito. Já o atomismo de Epicuro argumenta que a vontade ou desejo cuja determinação é a queda em linha reta no vazio faz os átomos permanecerem afastados uns dos outros em suas quedas em linha reta no vazio e o mesmo argumento é usado para o espermatozoide e o óvulo que caem em linha reta no útero, pois podem perfeitamente permanecer um ao lado do outro no útero quando a vontade ou o desejo que os determina for apenas o da queda em linha reta. Por isso, Epicuro ou Lucrécio, segundo os especialistas, seu discípulo romano, argumentou a favor de um movimento mínimo e próprio dos átomos e do espermatozoide e do óvulo de desvio da queda em linha reta no vazio, movimento este que tornaria possível aos átomos e ao espermatozoide e ao óvulo sair da posição paralela no vazio ou de lado a lado no útero e se encontrar, associar e combinar um com o outro no vazio e no útero. Quando, na física atual, a partir de Einstein, se diz que o espaço é curvo parece que é o mesmo pensamento, de uma vontade ou desejo que dobra o grave, que volta para tornar possível o encontro, associação e combinação do que é físico ou sensível.


A linha curva dos átomos e do espermatozoide e do óvulo durante sua queda em linha reta no vazio e no útero corresponde à afirmação da vontade ou desejo dos átomos e do espermatozoide e óvulo dentro da todo poderosa vontade e desejo da queda em linha no vazio e no útero. Essa pequena vontade ou pequeno desejo próprios do ser sensível é a vontade ou o desejo do vir a ser, enquanto que a grande vontade ou grande desejo exteriores do ser sensível é a vontade ou o desejo do não ser.


Com essa vontade ou desejo do vir a ser é possível vir à consciência da realidade em si, já apenas com a vontade ou desejo do não ser é possível permanecer inconsciente da realidade em si.


Resultado. Para a vontade ou o desejo do vir a ser a possibilidade de vir à consciência da realidade em si corresponde a afirmar o conhecimento ou a ciência da consciência de si, quer dizer, o autoconhecimento humano e não o da própria natureza em si, mas apenas porque esta natureza em si carece de consciência de si. Para a vontade ou o desejo do não ser a possibilidade de permanecer inconsciente da realidade em si corresponde a negar o conhecimento ou a ciência da coisa em si, quer dizer, o conhecimento da própria natureza em si porque ela permanece inconsciente de si.


Porém, este resultado não basta porque ambas posições afirmam ter consciência de si, consciência de ser sensível. Porém, a consciência de si de uma é resultante da própria vontade íntima que dobra si mesma para vir a si, enquanto que a consciência de si da outra é resultado da vontade externa que empurra e expulsa do inconsciente em si para a formação duma consciência para si. A primeira é uma consciência efetivamente de si no sentido de vir a ser consciência do próprio inconsciente ou autoconhecimento. A segunda é uma consciência efetivamente fora de si no sentido de não ser consciência da coisa em si ou auto-ignorância, quer dizer, no sentido de não ser consciência da coisa em si e sim consciência fora da coisa em si, melhor, consciência da coisa aparente ou consciência da consciência ignorante.


Prometeu pega o húmus da terra e dá forma, dá forma ao húmus ou dá forma humana. Porém, a criatura a que deu forma está sem autonomia, então ele rouba a centelha do céu e a dá para a forma humana. A fertilidade do húmus presente na forma humana faz germinar a criatividade que recebe da centelha e, desse modo, sua obra fica completa e a humanidade que formou se torna livre para agir a partir de si mesma. Isso que Prometeu faz como artista é o mesmo que o óvulo e o esperma fazem criando o feto humano. Tanto Prometeu quanto os princípios tratam de fazer a síntese que é a humanidade, o bebê humano.


Édipo mata o pai, casa com a mãe e dá origem a uma prole abominável. Édipo já foi sintetizado pelos princípios, mas ele quer fazer análise e, por isso, mata o pai para que o princípio espermático dele oriundo e que, no caso é o próprio Édipo, possa se associar com o princípio ovular, que no caso é a própria mãe, ou seja, é ele e não mais o pai quem tem relação sexual com a mãe, mas, assim, ele também expressa querer voltar para antes do seu nascimento, porém, isto não ocorre e da sua relação com a mãe nasce a tal prole abominável (monstruosa, vomitada, expulsa), quer dizer, não mais uma síntese propriamente dita e sim a busca de um encontro concreto dos princípios ou mais claramente a realização de uma análise propriamente dita dos princípios. Finalmente, auxiliado por um membro de sua prole abominável, sua filha Antígona, ele vai encontrar a recompensa que sempre buscou e que é o seu túmulo, junto ao túmulo de Teseu, num local secreto e sagrado em Colona, nos arredores de Atenas.


No “método da economia política” Marx diz que existem dois métodos aplicados na economia política. Diz que o primeiro é aquele que parte da representação ou do existente e por meio da análise chega a princípios gerais abstratos. E que o segundo é aquele que parte desses princípios gerais abstratos e vai se elevando até chegar à síntese da representação ou do existente, mas chegar a uma síntese pensada, uma síntese de pensamento. E conclui que este segundo método é método verdadeiramente científico.


Demócrito, que antecede historicamente Epicuro, usa o primeiro método no estudo do sistema do atomismo à maneira de Édipo. Já Epicuro usa o segundo método no estudo do atomismo à maneira de Prometeu. É isso que resulta da leitura da tese de doutorado de Marx sobre Demócrito e Epicuro.

















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