sábado, 20 de fevereiro de 2016

Mercantilismo-conquista-método na economia-Édipo versus capitalismo-colônia-método na economia-Prometeu




O mercantilismo se diferencia do capitalismo propriamente dito por se ater ao consumo de mercadorias ou ao acúmulo de meios de consumo para a compra e venda de mercadorias, quer dizer, ao acúmulo de meios para o aumento do consumo de mercadorias via compra e venda de mercadorias. Já o capitalismo propriamente dito está focado na produção de mercadorias ou no acúmulo de meios de produção para a compra e venda de mercadorias, logo, por se ater ao aumento da produção de mercadorias para a compra e venda.


Os mercantilistas como “os economistas do século XVII, por exemplo, partem sempre do todo vivo: a população, a nação, o Estado, vários Estados, etc.; no entanto, acabam sempre por descobrir, mediante a análise, um certo número de relações gerais abstratas determinantes, tais como a divisão do trabalho, o dinheiro, o valor, etc.”

[ver https://www.marxists.org/portugues/marx/1859/contcriteconpoli/introducao.htm, http://www.ebah.com.br/content/ABAAAAnW8AD/metodo-economia-politica]

Para eles, a população, a nação e o Estado constituem as bases para suas conquistas de várias populações, nações e Estados, mas, no processo de conquista eles percebem que uma divisão do trabalho entre conquistados e conquistadores permite que estes últimos acumulem dinheiro, valor, quer dizer, ouro e prata que permite um maior poder mercantil na compra e na venda de mercadorias.


Os capitalistas propriamente ditos são como os economistas do século XVIII em diante “que, partindo de noções simples – trabalho, divisão do trabalho, necessidade, valor de troca – se elevam até o Estado, à troca entre nações, ao mercado universal.” Para eles, as “noções simples – trabalho, divisão do trabalho, necessidade, valor de troca –” são as bases das suas “colônias/indústrias” que os “elevam até o Estado, à troca entre nações, ao mercado universal”, porque eles percebem que no processo de produção (indústria/colônia) de mercadorias existe um domínio/um poder que subjuga e transfere ouro e prata, dinheiro e valor das mãos dos mercantilistas para as suas mãos capitalistas.


Podemos ver algo semelhante na atividade de Édipo. Ele ouviu numa festa um conviva dizer que era bastardo e consultou o oráculo que disse que estava destinado a matar o pai, casar com a mãe e originar uma prole abominável. Fugindo desta predição saiu de Corinto para fazer seu destino. Na conquista do seu destino ele mata um velho arrogante que encontra no caminho (que depois vem a saber que é seu pai), decifra o enigma da Esfinge e, com isso, ganha o trono e casa com a rainha de Tebas, que estava viúva (depois vem a saber que é sua mãe), tendo filhos com ela e, finalmente, ouvindo do oráculo que o problema, da Peste de Tebas, era a impunidade do assassino do antigo rei, depois de condenar o culpado ao exílio, parte para a investigação até descobrir que o culpado era ele próprio e que, além de assassino, também era culpado de incesto com sua mãe. Sai em exílio até encontrar seu túmulo em lugar sagrado e secreto em Colona, nos arredores de Atenas.


O que há nisso de semelhante com o mercantilismo?!



O que parece semelhante é o começar por um todo vivo. É o começar indagando sobre a população, a nação, o Estado, vários Estados, quer dizer, é Édipo começar consultando o oráculo sobre a acusação de ser bastardo, quer dizer, começar indagando sobre si mesmo como população ou nascido, nação ou a mãe do nascido, Estado ou o pai do nascido, vários Estados ou várias possibilidades de fuga para fazer seu próprio destino. E o que também parece semelhante é o terminar com “um certo número de relações gerais abstratas determinantes”, quer dizer, com um túmulo secreto e sagrado tal qual um tesouro no qual se guarda dinheiro e valor ou ouro e prata, melhor, no qual se guarda Édipo morto, o mercantilista morto, o economista morto.


De igual modo podemos ver algo semelhante na atividade de Prometeu. Ele quis criar um novo ser e se lançou na atividade de dar forma ao húmus da Terra, quer dizer, se lançou na atividade de dar forma à fertilidade (húmus) da Terra e, em seguida, extraiu uma centelha do Céu e a deu, como conteúdo, para a forma fértil ou humana da Terra e foi desse modo que completou sua obra criativa, porque a partir daí a sua criatura deixou de depender do seu criador e passou a criar a si mesma de forma livre e independente do criador. Mas, é por isso que, por ordem de Zeus, Prometeu é acorrentado a uma rocha, tem seu fígado devorado todos os dias por uma águia e é lançado de um abismo nas profundezas do inferno. Finalmente, graças a Herácles, filho de Zeus com uma humana, logo, com uma criação de Prometeu, consegue dobrar Zeus ao seu desejo de libertar Prometeu e Prometeu é liberto.


O que parece comum aos capitalistas, aos economistas do século XVIII em diante e a Prometeu é o começar por “noções simples – trabalho, divisão do trabalho, necessidade, troca -”, ou seja, eles começam elaborando a colônia, a indústria, o ser ou a produção que os elevará até “ao Estado, à troca entre nações, ao mercado universal”. Mas, para que isso se torne possível é preciso que a energia da força humana de trabalho (Prometeu) seja extraída diariamente por um meio de tempo de trabalho excedente (extensivo ou intensivo) que a aprisiona nas profundezas infernais (útero) da maquinaria industrial, da colônia, da produção ou do ser explorador. Graças à luta do proletariado (de Herácles, o herói do trabalho e filho de Zeus) o capital (Zeus) se submete ao processo de redução sistemática do tempo de trabalho de modo que vem a ser a energia da força humana liberta (Prometeu) que se renova e desenvolve diariamente por meio do tempo livre fora (do útero) da maquinaria automatizada, da colônia, da produção ou do ser explorador. O nascimento do capitalismo se faz com Prometeu Acorrentado e a energia da força humana de trabalho explorada pelo tempo de trabalho da produção dentro da maquinaria industrial, já o fim do capitalismo se faz com Prometeu Desacorrentado ou liberto e a energia da força humana liberta fruindo o tempo livre da produção fora da maquinaria automatizada, quer dizer, fruindo o tempo livre na comunidade livre.


Um método ou perspectiva começa e tem por ponto de partida o conhecimento do todo vivo concreto por meio da dúvida, da suspeita, da investigação, da especulação que, sistematizando a análise, dissolve tudo em suas partes componentes até chegar e se satisfazer com um certo número de relações gerais abstratas determinantes ou aos princípios para onde tudo volta e se prende.


Já o outro método ou perspectiva tem por ponto de partida o conhecimento dum certo número de relações gerais abstratas determinantes ou dos princípios abstratos da morte de tudo por meio da certeza, da confiança, do trabalho, da elaboração que, sistematizando a síntese, condensa as partes componentes num todo até chegar à constituição e à satisfação com um todo único de múltiplas determinações ou com princípios de onde tudo sai e se liberta.


E daí?! Para que serve isso?! Para saber que o processo de conhecimento que parte do todo vivo e chega aos princípios no não-ser é aquele que parte da ignorância e desconhecimento ou inconsciência de si mesmo. E que o processo de conhecimento que parte dos princípios no não-ser para o vir a ser do todo vivo é aquele que parte da sabedoria e conhecimento ou consciência de si mesmo. O primeiro busca a conquista do ser fora de si e o segundo busca a criação do ser dentro de si. A prática do primeiro é de consumo, análise e destruição do ser fora de si para encontrar o que habita dentro do ser em si e a prática do segundo é de produção, síntese e criação do ser dentro si para que venha a ser o habitat e o encontro do ser fora de si.


A teoria e prática do primeiro processo de conhecimento é destruidora e a teoria e prática do segundo processo de conhecimento é criadora, por isso que se diz que a primeira se situa na esfera do consumo e que a segunda se situa na esfera da produção. Pode-se dizer ainda que o lumpenproletariado é resultante do primeiro processo de conhecimento que, visando a conquista do ser fora de si, abandona o que sai de dentro de si. E que o proletariado é resultante do segundo processo de conhecimento que, visando a criação do ser dentro de si, cultiva o que sai de dentro de si. Um caminho parece levar do ser para o não-ser e o outro caminho parece vir do não-ser para o ser, logo, um parece ir ao não-ser e o outro parece vir a ser. A atividade de destruição parece ser a atividade de apenas interpretar o mundo de forma diferente e a atividade de criação parece ser a atividade de só mudar o mundo.

Assim podemos dizer que a atividade filosófica, edipiana, de conquista, mercantilista e dos primeiros economistas é a de apenas interpretar o mundo de forma diferente. E que a atividade prática, prometeica, de criação, capitalista e dos segundos economistas é a de apenas mudar o mundo. Sair da filosofia para a prática é sair da coleta para o trabalho, é sair do consumo para a produção.


Existe ainda algo que confirma a posição de Marx de escolher o método dos economistas do século XVII como os portadores do verdadeiro método científico E é isso que Marx descreve muito bem no "Prefácio à Uma Contribuição à Crítica da Economia Política" onde mostra que

[ver https://www.marxists.org/portugues/marx/1859/01/prefacio.htm]

"A minha investigação desembocou no resultado de que relações jurídicas, tal como formas de Estado, não podem ser compreendidas a partir de si mesmas nem a partir do chamado desenvolvimento geral do espírito humano, mas enraízam-se, isso sim, nas relações materiais da vida, cuja totalidade Hegel, na esteira dos ingleses e franceses do século XVIII, resume sob o nome de"sociedade civil", e de que a anatomia da sociedade civil se teria de procurar, porém, na economia política."


A "sociedade civil" é a tal da "colônia" para cuja formação e desenvolvimento partem aqueles que estão de posse de "um certo número de relações gerais abstratas determinantes", melhor, a "sociedade civil" é o organismo que formam e desenvolvem aqueles que partem das "noções simples - trabalho, divisão do trabalho, necessidade, valor de troca -" da economia política para chegar com seu organismo da "sociedade civil" a se elevar "até o Estado, à troca entre nações, ao mercado universal". Para os mercantilistas o Estado é organismo da conquista por meio do qual chegam até a conquista do entesouramento de "um certo número de relações gerais abstratas". Para os capitalistas a "sociedade civil" é o organismo fornecedor ou a "colônia" fornecedora das "noções simples - trabalho, divisão do trabalho, necessidade, valor de troca -" por meio das quais chegam a elevar a "colônia", a "sociedade civil" ou a "social civilização"/a "socialização civil" "até o Estado, à troca entre nações, ao mercado universal". O problema é que esta "sociedade civil' que se elevou "até o Estado, à troca entre nações, ao mercado universal" se recusa a completar o desenvolvimento do seu organismo de modo a sair da sua imperfeição que é a "socialização civil" em classes diferenciadas mantidas por um Estado civilizado perfeito para entrar na perfeição duma "socialização comum/comunitária" sem diferenças de classes e sem nenhum Estado civilizado ou comum perfeito e sim com uma sociedade comum ou uma comuna que se autoaperfeiçoa desenvolvendo a liberdade, a multiplicação da liberdade, a capacidade, o valor de uso que suprime o Estado, as nações, o mercado, de modo que seu feito ou aperfeiçoamento é a sociedade humana ou a comunidade humana. 



Isso serve para mudar, para vir a ser tempo de trabalho vivo e passar a ser tempo livre vivo.







Nenhum comentário: