domingo, 21 de fevereiro de 2016

Fuga da vida e busca da vida / Diálogos...?!

                                                                                                                                                  20/03/2016 


É muito curioso que isso exista, mas, infelizmente, sob certo ponto de vista, e felizmente, de outra perspectiva, acontece mesmo que o indivíduo em lugar de viver a vida, viva escrevendo, substitua o viver pelo ato de escrever, mas não porque seja lido por muita gente e sim por ter optado por estudar em lugar de viver. E o estudar de quem, antes de viver, precisa estudar para poder vir a viver não é algo interessante por maior que seja o interesse de quem fica estudando em lugar de viver. Até porque a pessoa não consegue estudar de uma maneira geral e isso acontece precisamente porque ela não está efetivamente estudando e sim substituindo o viver a vida pelo estudar antes de viver.


Eu sou este indivíduo/esta pessoa que escreve ao invés de viver, que pretende estudar “a vida” antes de viver, mas que, na verdade, por estar fugindo do viver e mesmo do viver daqueles que escrevem e que estudam eu acabo por não ter vida nem tenho como dar vida naquilo que escrevo e que estudo precisamente porque o que escrevo e o que estudo são formas de fugir da vida, logo, por isso mesmo, são formas sem vida, já que o conteúdo vital não existe porque a forma escrita é a fuga da vida. Porém, por isso mesmo, a escrita e o estudo que fogem da vida são formas de minha preparação para a morte. E, nesse sentido, tanto o que escrevo quanto o que estudo são formas de vivenciar uma dramaturgia determinista, formas de parar de resistir à atração da morte como destino inexorável, formas para me convencer que tudo está escrito e que não há o que viver e, portanto, só resta morrer.


Porém, quando escrevo, estudo e descubro isso de mim mesmo eu também descubro que a escrita, o estudo e a descoberta que preparam para a vida são aquelas que, supostamente, se entregam ao viver antes de escrever, de estudar e descobrir, ou seja, são aquelas cheias de vida, logo, são aquelas com formas escritas que preparam para enfrentar o viver a vida, para vivenciar uma dramaturgia livre e atraída de modo irresistível pela vida como livre criação, são formas que convencem que nada está escrito, que há muito o que viver e, por isso mesmo, só é preciso viver. Esta possibilidade aparece no que escrevo como imaginária precisamente porque se existisse a minha forma escrita cheia de vida seria justamente uma escrita cheia de imaginação, o estudo seria cheio de criatividade e minhas descobertas seriam invenções, enfim, meus textos seriam lidos com gosto porque com sua imaginação, criatividade e inventividade atrairiam todos para o viver a vida.


Descobri que estas duas figuras, a que foge da vida e se prepara para a morte e a que se entrega à vida e é preparada pela vida, aparecem sempre na atividade de escrever e de forma conflitiva porque a primeira sem atrativos vitais pretende dar um retrato real e documental da vida e a segunda cheia de atrativos vitais pretende dar uma descrição imaginária e ficcional da vida. Uma pretende denotar a vida e a outra pretende conotar a vida. Eu escrevo constantemente sobre elas, mas sempre me sentindo menor e incapaz de conotar a vida, sempre me vendo a caminho dum poço sem fundo, do buraco negro da morte.


Escrevi aqui sobre isso do jeito que venho fazendo faz anos. Mas, quero deixar claro para o leitor – que aqui tem sido básica e essencialmente eu mesmo – aquilo que meu escrever tem sido até para que eu mesmo venha a saber o que fazer para sair dessa duma vez ou permanecer nessa até o fim. Bom, vou mostrar abaixo o que escrevi do jeito que escrevo faz anos e também como, de repente, deixei que viesse à tona algo e, posteriormente, supondo que isso pudesse perturbar o leitor, vim a reescrever uma parte.


Aí vai:


Na sua tese de doutorado, sobre a “Diferença entre as filosofias da Natureza em Demócrito e Epicuro”, Marx, ao discorrer sobre as “dificuldades relativas à identificação entre a filosofia da Natureza de Demócrito com a de Epicuro”, apresenta três pontos nos quais aparecem estas dificuldades gerais de identificação entre as filosofias de Demócrito e de Epicuro. No primeiro ponto, ele considera que se torna possível examinar a diferença dos juízos teóricos dos dois filósofos, quer dizer, o ponto de vista de cada um deles sobre a verdade e a certeza do saber; no segundo ponto, já é a a perspectiva de cada um deles a respeito da diferença da energia e da diferença da prática científica que desenvolvem, quer dizer, aparece a diferença dos juízos práticos das filosofias de cada um; e, finalmente, no terceiro ponto, Marx procura trazer à tona a diferença estabelecida por cada um entre o pensamento e o ser, melhor, como cada um deles estabelece/equaciona a relação entre o pensamento e o ser, quer dizer, como cada um deles diferencia a relação da consciência particular de cada um deles com o mundo ou desenvolve aquilo que ele, Marx, chamou de “forma de reflexão” e que nós, graças à luz do dramaturgo Carlos Henrique de Escobar, ousaremos chamar de diferença de “dramaturgia”.


“Ora, Demócrito emprega como forma de reflexão da realidade efetiva a necessidade, Aristóteles diz dele que ele enraíza tudo na necessidade. Diógenes Laércio informa que o turbilhão dos átomos, de onde tudo nasce, é a necessidade de Demócrito. Explicações mais satisfatórias são fornecidas a este respeito pelo autor do “De placitis philosophorum”: a necessidade seria para Demócrito o destino e o direito, a providência e a criadora do mundo. Mas a substância desta necessidade seria a antipatia, o movimento, a impulsão da matéria. Uma passagem semelhante se encontra nas “éclogues physiques de Stobée” e no livro VI da “Praeparation evngelica d’Eusèbe”. Nas “éclogues éthiques” de Stobée se encontra conservada a seguinte sentença de Demócrito, que é quase que integralmente reproduzida no livro XIV d’Eusébe : os homens imaginaram o fantasma do acaso – uma manifestação do seu próprio embaraço; porque um pensamento forte deve ser inimigo do acaso. De igual modo, Simplicius atribui a Demócrito uma passagem na qual Aristóteles fala da velha doutrina que suprime o acaso.”


Imediatamente e em oposição a Demócrito Marx apresenta a “forma de reflexão” de Epicuro assim:


“Epicuro ao contrário escreve: ‘A necessidade, que é mencionada por alguns como mestra absoluta, não é; bem ao contrário, algumas coisas são fortuitas, outras dependem do nosso arbítrio. A necessidade é impossível de convencer, o acaso ao contrário é instável. Seria melhor seguir o mito dos deuses do que ser o criado/a criatura do destino dos físicos. Porque o primeiro nos deixa a esperança da misericórdia se nós honrarmos os deuses, enquanto que o segundo só nos deixa a inflexível necessidade. Mas é o acaso que é preciso admitir, e não Deus, como a multidão acredita. É uma infelicidade viver na necessidade, mas viver na necessidade não é uma necessidade. Abertas estão por toda parte as vias que levam para a liberdade, numerosas curtas, fáceis. Agradeçamos, pois, à divindade que ninguém possa ser detido em vida. Domar a necessidade ela mesma é coisa permitida.


“O epicurista Velleius diz a mesma coisa em Cícero a propósito da filosofia estoica: ‘Que se deve pensar duma filosofia, para a qual, como para as comadres ignorantes, tudo parece se produzir pelo fatum?... Epicuro nos livrou disso e nos instalou na liberdade.’”


Aquilo que precisamos tornar cada vez mais claro é que a terceira diferença característica geral entre as filosofias de Demócrito e de Epicuro, que é chamada por Marx de “forma de reflexão” e que, graças ao dramaturgo Escobar, chamamos de “dramaturgia”, ocorre na relação da consciência particular do filósofo com o mundo, ou seja, ocorre quando o filósofo se encontra no movimento de repulsão e de atração, de choque e encontro com o mundo, quer dizer, ocorre durante o movimento de estabelecimento de relações da consciência particular do eu filosófico com os demais seres do mundo e, igualmente, com as demais consciências particulares dos eus do mundo.


Para um filósofo que só admite os movimentos de queda e de repulsão em linha reta as suas relações com o mundo e com os demais indivíduos do mundo são determinadas pela linha reta, fatal, imperativa, determinista, autoritária, quer dizer, a necessidade é a “forma de reflexão”, melhor, é a “dramaturgia” desse filósofo.


Já o filósofo que admite, entre os movimentos de queda e de repulsão em linha reta, um movimento próprio e com o qual se torna possível a passagem duma linha reta para a outra linha reta, quer dizer, a passagem da queda para a repulsão, só consegue estabelecer suas relações com o mundo e com os demais indivíduos do mundo a partir do seu próprio movimento de estabelecimento do seu próprio ser e de sua própria consciência particular no mundo. Noutras palavras, as suas relações com o mundo e com os demais indivíduos só são possíveis porque são determinadas pela linha curva, que escapa, desvia/declina, cria, convive, ou seja, para este filósofo o acaso é a “forma de reflexão”, melhor, é a “dramaturgia” do seu filosofar, da sua filosofia. E este momento da dramaturgia é o momento das relações do filósofo com o mundo e com os demais indivíduos, ou seja, é o momento propriamente dito das ações dos atores presentes no campo do drama, da dramaturgia.



Ora, como ele se coloca para Demócrito? Vimos que, para ele, “o destino e o direito, a providência e a criação do mundo” são determinadas pela necessidade, ou seja, tudo é pré-determinado e nada acontece por acaso, logo, é o mecanicismo que aparece na dramaturgia de Demócrito.


“A necessidade aparece, com efeito, na natureza finita como necessidade relativa, como determinismo.  A necessidade só pode ser deduzida da possibilidade real, o que quer dizer que é um encadeamento de condições, de causas, de razões etc. que mediatiza esta necessidade. A possibilidade real é a explicação da necessidade relativa. E nós a encontramos empregada por Demócrito. Nós citamos em apoio algumas passagens tomadas de Simplicius.


“Que um homem esteja sedento, que ele beba e recupere a saúde de seu corpo, não é o acaso que Demócrito dará como causa, mas a sede. Mesmo se, com efeito, ele parece, a propósito da criação do mundo, fazer intervir o acaso, ele afirma, entretanto, que, nos casos particulares, aquele não é causa de nada, mas, ao contrário, reenvia para outras causas. Assim, por exemplo, cavar a terra seria a origem da descoberta de um tesouro ou a vegetação seria a causa da oliveira.


“O entusiasmo e a seriedade com a qual Demócrito introduz na consideração da natureza esse modo de explicação, a importância que ele atribui para a tendência em estabelecer razões se exprimem ingenuamente nesta profissão de fé: ‘Eu prefiro descobrir uma nova etiologia do que obter a coroa do rei da Pérsia’.”


[Aqui é o ponto que, depois, mais abaixo, tem início uma forma alternativa à angústia que veio à tona, ainda que seja igualmente angústia vinda à tona.]


Como se coloca o momento da dramaturgia para Epicuro? Como Epicuro considera que, por um lado, existem umas coisas que são casuais e, por outro lado, outras que dependem da nossa vontade, ele faz com que a relação entre o mundo e o eu seja instável e sujeita à mudança do espaço-tempo, bem como contrária e oposta a uma relação inflexível e sujeita à imutabilidade do espaço-tempo. Não há nada pré-estabelecido, nem destino, nem direito, nem providência nem mesmo a criação do mundo. Se uma relação necessária, estável e inflexível se estabelece entre o homem sedento e a água que bebe e tira a sede, então ele busca domar essa necessidade de modo a suportá-la: seja pela casualidade de não haver água e, havendo, por esquecer de beber água; seja pelo controle da vontade por não haver água e, havendo, por lembrar do controle da vontade de beber água. O mesmo para a necessidade de tesouro e de oliveira. Ou seja, com sua vontade ele procura verificar se é possível viver sem água, sem tesouro e sem oliveira. E se verifica que não é possível viver sem água, ainda que seja possível viver sem tesouro e sem oliveira, então ele trata de controlar a necessidade de água de modo a não viver na necessidade e pode tratar de esquecer de viver com tesouro e com oliveira por não ter necessidade disso, mas também pode cuidar para viver com tamanha quantidade de água como se não sentisse a sua necessidade dela, bem como com tamanho tesouro e tanta oliveira que sem eles não pudesse viver, ainda que deles não tivesse necessidade. A relação de causa e efeito entre o homem sedento e a água que bebe que tem por efeito acabar com a sede, quer dizer, com a necessidade de água do homem sedento é consequência da junção da sede de água com a vontade de beber ("junção da fome com a vontade de comer" - dito popular). Isso serve para lutar e resistir a homens que se apoderam das fontes da vida, como a água, para obrigar os demais a servi-los, de modo que eles se dobrem à vontade dos lutadores e resistentes que não temem morrer precisamente porque eles, poderosos donos das fontes da vida, temem que não existam mais homens que possam convencer a servi-los em troca do fornecimento dos materiais das fontes da vida. Parece que aqui existe algo mais profundo. Vamos tentar ver.


Se bebo água, como melancia, melão, laranja, bebo água de coco etc., se beijo a boca amada, se durmo, se fico à sombra e no frescor do sereno, se tomo um banho, se me esqueço de sentir sede, enfim, se, em todos esses casos, eu considero que a sede é um imprevisto e que existem outros imprevistos como, por exemplo, a morte, então, por outro lado, também posso considerar que a sede e a morte dependem da vontade. Desse modo, considero que, estabelecendo uma necessidade relativa entre sede e satisfação da sede, eu desenvolvo um determinismo, quer dizer, um comportamento necessário, disciplinado, temente à morte, portanto, sob tudo isso, quer dizer, sob essa dramaturgia do determinismo se encontra o problema do não temer ou do temer a morte presente na dialética do senhor e do escravo. Por outro lado, considero que estabelecendo uma casualidade completa entre sede e satisfação da sede, eu desenvolvo um acaso, um comportamento voluntarioso, livre, sem medo da morte, logo, à tona de tudo isso, quer dizer, à tona dessa dramaturgia do acaso se encontra o problema do não temer ou do temer a morte presente na dialética do senhor e do escravo.


Na dialética do senhor e do escravo, este último se torna escravo e/ou submisso à determinação da necessidade por temer a morte, enquanto que o primeiro se torna senhor e/ou livre pela determinação do acaso por não temer a morte, ou, pelo menos, esta é a argumentação usada para a compreensão da dialética estabelecida entre o senhor/mestre/patrão e o escravo/servo/discípulo/empregado. Então, nessas dramaturgias do determinismo versus o acaso dos dois filósofos atomistas gregos encontramos a problemática do temor e do destemor à morte atribuída à dialética do senhor e do escravo.


No entanto, esta dialética do senhor e do escravo só se torna completa quando ocorre a libertação do escravo do senhor, quer dizer, depois que o escravo vem a obter o domínio da necessidade e/ou da dramaturgia da necessidade, quer dizer, depois que ele se torna senhor do trabalho e dos meios de produção, mestre de todas artes e ofícios, sábio erudito. Ora, esta é a descrição que Marx faz de Demócrito na sua tese. Mais ainda, em várias passagens ele deixa claro que Demócrito é como Édipo uma criatura ou um criado da dramaturgia do destino/determinismo, ou seja, o ponto culminante de sua trajetória é a entrega à morte, supostamente sem mais nenhum medo, sem mais nenhuma ilusão relativa à vida ou com total ceticismo em relação à vida e com a crença de ter cumprido seu dever e de vir a satisfazer uma enorme curiosidade com a entrega à morte imortal, com a entrega à imortalidade da morte, quer dizer, com a realização da suposta superação da condição inicial que o fez escravo, o medo da morte, portanto, o vir a ser senhor é realizado efetivamente como entrega à morte.


Por outro lado, a libertação do escravo do senhor se faz por meio da escravização do senhor ao determinismo da necessidade, quer dizer, depois que o escravo, dominando o trabalho e os meios de produção, impõe ao senhor o imperativo da submissão de sua força humana à necessidade de trabalhar, ou seja, reduz o senhor a simples força humana de trabalho. Aquele senhor que por não temer a morte fez de quem a teme escravo e que, precisamente, por não temer a morte se lançou na luta e/ou no drama com a dramaturgia do acaso permanece contando apenas com sua simples força humana natural, mas, agora, em lugar de lutar com outras forças humanas naturais, ele se encontra em luta com a necessidade de trabalhar que é imposta a ele por um maquinismo mecânico, por um mecanicismo maquinal que, cada vez mais, o reduz à irrelevância. Porém, ele permanece uma força humana natural que luta sem temer a morte, mas que, agora, sente e vivencia algo que se acrescentou à sua força humana natural que é o trabalho, portanto, passou a se perceber naturalmente como algo social que foi o se perceber como força humana de trabalho. Ele se encontra ainda na dramaturgia do acaso de modo que pode encontrar nessa nova configuração, que acrescentou socialmente o trabalho à sua natureza, ora a casualidade da oferta de trabalho, ora a vontade da procura de trabalho. E esta nova configuração da dramaturgia do acaso vivida pelo senhor, que se tornou escravo, que luta destemidamente como força humana natural de trabalho, é uma dramaturgia do acaso dominada pela dramaturgia do determinismo, ou seja, o mercado, que, supostamente, criou o acaso da oferta e da procura de trabalho, na verdade, é regido pelo determinismo do mecanicismo da ação e reação de força igual e contrária, ou seja, supostamente, a troca de mercadorias é uma troca igual duma ação/atividade de força de trabalho por outra ação/atividade de força de trabalho igual e contrária, porém, ainda que seja efetivamente uma troca igual de forças iguais e contrárias, na realidade, ocorre uma desigualdade nas trocas das mercadorias porque uma parte considerável das forças iguais e contrárias se acumula nas mãos dos que se assenhorearam das fontes da vida por meio do senhorio do trabalho e dos meios de produção, ou seja, porque uma parte considerável e significativa das forças humanas naturais de trabalho dos senhores escravizados são extraídas de forma excessiva e jamais são devolvidas a eles. Desse modo, os destemidos senhores - que se entregam aos usos dos seus excessos de forças naturais humanas e, por isso mesmo, por seus excessos de energia, se tornam senhores -, agora, ao se entregarem aos usos dos seus excessos de forças naturais humanas de trabalho se tornam escravos.


Forma alternativa:


Demócrito para descobrir novas etiologias andou por todo o mundo de sua época e conheceu as mais diversas artes, ciências e ofícios porque aprendeu com os mestres mais diversos se tornando um homem culto, erudito, ou seja, Demócrito constituiu, com sua atividade como “necessidade relativa” de saber, “como determinismo, a necessidade relativa” do conhecimento que “só pode ser deduzida da possibilidade real” duma etiologia conhecida por mestres determinados, “o que quer dizer que é um encadeamento de condições, de causas, de razões etc.” [e também de viagens para aprender com os mestres] “que mediatiza esta necessidade. A possibilidade real” dum mecanicismo/maquinismo “é a explicação da necessidade relativa”. Demócrito é o homem culto e erudito que por meio do trabalho acumulou e trocou conhecimentos, experiências, observações e maneiras e meios de produzir, ou seja, ele desenvolveu um modo de ser senhor do trabalho e dos meios de produção que foi o mais genuíno produto do seu determinismo: o mecanicismo/o maquinismo. Na dialética do senhor e do escravo, o feito de Demócrito é atribuído àquele que se tornou escravo por medo da morte ou, na linguagem de Demócrito, por necessidade relativa de sobreviver e que, por meio do domínio do trabalho e dos meios de produção, se torna senhor que acaba por escravizar o senhor, já que este não tem mais como acessar as fontes naturais da vida a não ser por meio dos produtos que estão sob domínio do novo senhor do trabalho e dos meios de produção. Logo, o antigo senhor que, com seu excesso de força natural humana, não temia a morte e se lançava com coragem na luta com os demais e se tornava senhor, porque estes últimos com medo da morte desistiam da luta e se submetiam ao corajoso senhor sem medo da morte, vem a se tornar escravo do novo senhor do trabalho e dos meios de produção por querer acesso não só aos novos produtos mas, especialmente, às fontes da vida das quais o antigo escravo se assenhoreou por meio do trabalho e dos meios de produção.


Como se coloca o momento da dramaturgia para Epicuro? Como Epicuro considera que, por um lado, existem umas coisas que são casuais e, por outro lado, outras que dependem da nossa vontade, ele faz com que a relação entre o mundo e o eu seja instável e sujeita à mudança do espaço-tempo, bem como contrária e oposta a uma relação inflexível e sujeita à imutabilidade do espaço-tempo. Não há nada pré-estabelecido, nem destino, nem direito, nem providência nem mesmo a criação do mundo. Não havendo nada pré-determinado e tudo ocorrendo por acaso, então, é a liberdade que aparece na dramaturgia de Epicuro. E, significativamente, talvez, seja a mesma liberdade daquela força natural humana que não teme a morte e se lança com coragem no acaso da luta com as demais forças naturais humanas e, assim, vem a ser senhor dos demais por não se dobrar nem reconhecer o determinismo de nenhuma necessidade, nem mesmo a de viver, porque só conhece o acaso e a liberdade de viver.


“Uma vez mais Epicuro está em direta oposição a Demócrito. O acaso é uma realidade que só tem valor de possibilidade, mas a possibilidade abstrata é justamente o antípoda da possibilidade real. Esta última está encerrada dentro de limites rigorosos, como o entendimento; a primeira é ilimitada como a imaginação (Phantasie). A possibilidade real procura fundamentar a necessidade e a realidade efetiva de seu objeto (Objekt); a possibilidade abstrata não se ocupa do objeto que é explicado, mas do sujeito que explica. O objeto (Gegenstand) deve somente ser possível, pensável. O que é possível segundo a possibilidade abstrata, o que pode ser pensado, isto não se levanta no caminho do sujeito pensante, isto não é para ele um limite nem um tropeço. Pouco importa que esta possibilidade seja igualmente real, porque o interesse não se dirige aqui para o objeto do entendimento como objeto do entendimento (Gegenstand).


“É por isso que Epicuro procede com uma indolência sem limite na explicação dos diversos fenômenos físicos.


A carta a Pytoclès, que nós examinaremos mais adiante, esclarecerá este ponto. Que me seja suficiente aqui atrair a atenção para sua atitude a respeito das opiniões dos físicos anteriores. Nas passagens nas quais o autor do De placitis philosophorum e Stobée citam as diversas opiniões dos filósofos sobre a substância dos astros, a grandeza e a figura do sol, etc. é sempre dito de Epicuro: ele não rejeita nenhuma dessas opiniões, todas podem ser verdadeiras, porque, segundo eles, Epicuro se atém ao possível. Ainda mais, Epicuro polemiza contra o modo de explicação pela possibilidade real que determina segundo o entendimento e é então, justamente por isto, unilateral.


“ É assim que Sêneca declara nas suas Quaestiones naturales: ‘Epicuro afirma que todas as causas podem ser e tenta além disso diversas outras explicações; ele censura aqueles que pretendem que entre todas estas causas é uma determinada que tem lugar, porque para ele é uma temeridade estabelecer um juízo apodítico sobre aquilo que só pode ser deduzido de conjecturas.


“A gente vê aqui que ele não tem nenhum interesse em pesquisar as causas reais dos objetos (Objekte). Só cuida de um apaziguamento do sujeito que explica. Pelo fato de que todo o possível é admitido como possível, o que responde ao caráter da possibilidade abstrata, fica evidente que o acaso de ser é pura e simplesmente traduzido pelo acaso do pensamento. A única regra prescrita por Epicuro, ‘que a explicação não deve ser contradita pela percepção sensível’, se compreende em si; com efeito, justamente o próprio do possível abstrato é ser livre de toda contradição, a qual deve, por isso, ser prevenida. Epicuro quer, no fim de contas, que seu modo de explicação só tenha por finalidade a ataraxia da consciência de si e não o reconhecimento da natureza em si e para si.”


Epicuro não se volta para a possibilidade real, quer dizer, não se comporta como Demócrito que está voltado para o conhecimento das coisas reais e particulares, quer dizer, que podem ser rigorosamente delimitadas e compreendidas, não se volta para o mundo das necessidades relativas como o faz Demócrito, quer dizer, não se ocupa com a necessidade disso e daquilo para poder sobreviver. Pelo contrário, ele se volta para a possibilidade abstrata, quer dizer, se comporta como quem se volta para o conhecimento das coisas imaginárias e universais, quer dizer, das coisas que não podem ser rigorosamente delimitadas nem compreendidas, se volta para o mundo absoluto do acaso e da liberdade, quer dizer, se ocupa com o acaso das conjecturas abstratamente possíveis a respeito dos astros e do universo astronômico. Mais ainda, com esta sua dedicação às coisas imaginárias e universais que não podem ser rigorosamente delimitadas nem compreendidas e, portanto, conhecidas, ele se comporta como quem desiste dum conhecimento natural e objetivo por só se ocupar verdadeiramente com o conhecimento humano e subjetivo da “ataraxia de si”, por só se ocupar com o conhecimento/a fruição humana e subjetiva do “apaziguamento do sujeito” humano. Noutras palavras, Epicuro parece levantar um muro e/ou uma interdição completa para o conhecimento natural e objetivo, real e particular para se dedicar à abertura dum horizonte e/ou duma liberdade completa para o conhecimento humano e subjetivo, imaginário e universal. E ele praticou isso desenvolvendo o seu jardim, pois era lá, no famoso Jardim da Amizade e do Prazer de Epicuro, que ele praticava a sua filosofia. Epicuro socorreu seus concidadãos com produtos do seu jardim, quando Atenas esteve sob cerco militar, portanto, seu jardim era produtivo. Na entrada do seu jardim estava anunciado que o viajante poderia encontrar ali abrigo, pão, água limpa e conversação saudável. Epicuro se gabava de viver bebendo água e comendo pedaços de pão e de só raramente beber vinho e comer iguarias refinadas ao festejar na companhia dos amigos. Segundo sua filosofia, com isso não estava passando necessidade e sim domando a necessidade, admitia e também praticava jejuns. De certo modo, ele preparava a sua força natural humana para resistir à necessidade e lutar contra a necessidade, ou seja, era como se ensinasse a fazer greve e a lutar contra a exploração mecanicista da força natural humana de trabalho. Ele libertou seus escravos e com eles praticou a sua filosofia de chegar à sabedoria prática ou à prática da sabedoria do conhecimento humano e subjetivo, imaginário e universal da amizade e do prazer. Epicuro exaltava o saber autodidata, quer dizer, o saber humano e subjetivo, mas este também era o do cultivo do seu jardim da amizade e do prazer, quer dizer, do cultivo das mais diversas plantas nativas de Atenas e da Grécia e das demais trazidas pelos viajantes que eram hóspedes no seu jardim, além disso, Epicuro e seus amigos epicuristas cultivavam a publicação de livros pelo seu jardim como desenvolvimento e expressão do saber autodidata dos epicuristas.


A força natural humana, do corajoso senhor que não teme a morte e se lança na luta ao acaso e livremente, parece ser retomada por Epicuro como força natural humana de trabalho que, aprendendo a se acorrentar às fontes da vida, constituindo um jardim, reafirma o acaso à maneira de “Prometeu”, ou seja, sem temer estar acorrentado e sofrendo os ataques da necessidade inflexível, imposta pelos deuses imortais, quer dizer, pela morte imortal ou pela imortalidade da morte, permanece ali firme e anunciando a vinda do seu libertador, “Herácles”, o semideus do trabalho, que tornará possível a realização efetiva da libertação e do desejo de “Prometeu” que é o acaso instável ou a liberdade da vida mortal dos humanos, quer dizer, o seu desejo da vida mortal ou pela mortalidade da vida. Noutras palavras, Epicuro parece o senhor que, depois de ser acorrentado, quer dizer, depois de ter sua força natural humana acorrentada e explorada, como força natural humana de trabalho, pelo escravo que se assenhoreou das fontes da vida, aprendeu a garantir e a manter as fontes da vida para si, portanto, aprendeu a se manter senhor comunitário das fontes da vida e a lutar ao acaso e livremente com a sua força natural humana de trabalho pela coragem da vida, pela coragem de viver, pela coragem da vida mortal humana e contra a morte imortal divina. 


Desse modo, as dramaturgias de Demócrito e de Epicuro, tais quais a dramaturgia da burguesia capitalista e a dramaturgia do proletariado comunista, lutam entre si. Uma, tal qual a figura mítica de Édipo, pelo estruturalismo determinista (linhas retas/reacionárias) da morte imortal, e a outra, tal qual a figura mítica de Prometeu, pelo conjunturalismo ao acaso (linhas curvas/revolucionárias) da vida mortal.


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Os diálogos impossíveis são aqueles que acabam se configurando como impasses, como polêmicas e, infelizmente, até mesmo, como guerras entre os “dialogantes”. E os diálogos são impossíveis porque os mal-entendidos são completos e, muitas vezes, os dialogantes parecem se entender porque usam as mesmas palavras, as mesmas ideias, as mesmas noções, os mesmos conceitos, então se torna algo incompreensível verificar que dois dialogantes usando os mesmos conceitos não se compreendam. 


Foi isso que Marx estudou na sua tese sobre Demócrito e Epicuro e é isso que vemos ocorrer na polêmica da física teórica recente entre os partidários da teoria dos quanta (Bohr, Heisenberg etc.) e o partidário da teoria do campo unificado (Einstein.). É também isso que Marx mostra ocorrer entre os partidários da emancipação política e da emancipação humana, entre a classe burguesa e a classe proletária. 



Mas isso acaba sendo uma outra história porque antes de tudo, quer dizer, antes de se mostrar como uso dos mesmos conceitos, estes exemplos mostram que a diferença no uso dos conceitos é a diferença entre os sujeitos que fazem uso deles: O sujeito Demócrito versus o sujeito Epicuro, os sujeitos Bohr, Heisenberg etc. versus o sujeito Einstein, a classe capitalista versus a classe trabalhadora.


Exceto no caso de Demócrito, que estava morto quando Epicuro vivia, nos demais exemplos os sujeitos conviveram, como ocorreu com os físicos teóricos, e ainda convivem, como ocorre com as classes capitalista e trabalhadora, apesar das muitas mudanças ocorridas nelas mesmas e nas relações entre elas. Os herdeiros de Demócrito e Epicuro e da teoria dos quanta e da teoria do campo unificado permanecem desenvolvendo o diálogo impossível, o impasse, a polêmica e o mesmo ocorre com a classe dos capitalistas e a classe dos trabalhadores que, apesar das mudanças pelas quais passaram, ainda não conseguiram sair por completo do diálogo impossível, do impasse, da polêmica.


A atualidade parece afirmar que o diálogo impossível, o impasse, a polêmica ocorre na religião e que existe um enorme crescimento da religião por toda parte, logo, Deus está mais vivo do que nunca, ao contrário do que disseram participantes do iluminismo, lembrados por Hegel e seguidos por Nietzsche, filósofo que ainda está em moda na atualidade, apesar de a atualidade negar que Deus está morto e afirmar ainda, dada as diferenças religiosas, que, talvez, não apenas um Deus único esteja vivo, mas também os Deuses únicos de cada um dos monoteísmos e o Deus múltiplo dos politeísmos, quer dizer, talvez, os Deuses estejam mais vivos do que “nunca antes na história da humanidade”.


Os nossos antepassados mais primitivos chegaram a adorar a divindade na mulher grávida porque dela vinha a criação humana. Todos somos oriundos de mulheres grávidas, até mesmo os bebês de proveta ainda recorrem ao útero das mulheres para vir a nascer. Atualmente os bebês de provetas são provenientes de óvulos e espermatozoides retirados de mulheres e homens, respectivamente, que são fecundados em laboratório por meio das provetas e a seguir conservados de forma adequada em baixíssimas temperaturas e, quando necessário são retirados e transferidos para um útero com muitos cuidados para que consigam se fixar e não sejam rejeitados/abortados por ele. Talvez, com a nova tecnologia desenvolvida a partir das células-tronco sejam feitos não apenas os órgãos que se queira/precise, mas também óvulos, espermatozoides e úteros em laboratório. Talvez até venha a ser possível criar um ser humano completo a partir dos desenvolvimentos da nova tecnologia das células-tronco. De todo modo, essas técnicas e tecnologias da atualidade, como a da transgenia ou manipulação dos genes do código genético, deve ser lembrada como possível desde a descoberta do sequenciamento do código genético do DNA. Retomando, de todo modo, todo esse conjunto de conhecimentos biotecnológicos atuais lembram o mito e atividade de Prometeu de criar um ser a partir da fertilidade ou do húmus (óvulo) da Terra e da energia luminosa ou da centelha (espermatozoide) do Céu. Este poder de criar um ser “à sua imagem e semelhança”, como se diz, na Bíblia, da atividade criativa de Deus, parece ser cada vez mais realidade efetiva e, talvez, precisamente, por isso, Nietzsche, o filósofo que, além de lembrar que a maioria ainda não ouviu a novidade: “Deus está morto!”, também defende a criação pelo humano do super-humano, quer dizer, reivindica aberta e claramente a prática da atividade prometeica de criação de um novo ser humano que é o ser super-humano.


Quem, na atualidade, quer criar ou recriar a religiosidade das religiões, quer dizer, Deus vivo e/ou Deuses vivos, desde que não sejam o deus e/ou os deuses vivos da tecnologia do conhecimento humano/da ciência humana. Quem quer o retorno das religiões?! Quem incentivou por todo lado esse movimento religioso que, por exemplo, no Brasil, fechou inúmeras salas de cinema e no seu lugar abriu templos das novas religiosidades?! Quem fez isso?! Deus?! Em 1979 chegou ao poder no Irã o Islamismo xiita e a Margareth Thatcher anunciava que o neoliberalismo tinha chegado ao poder na Inglaterra. Em seguida, ao se tornar presidente, Ronald Reagan anunciava que o neoliberalismo também tinha chegado ao poder nos EUA.


Que movimentos novos existiam no mundo capitalista quando anunciaram o neoliberalismo? Existia a explosão da informática, dos negócios das bolsas com informações em tempo real. Também existia a explosão dos microcomputadores e seus usuários, das chamadas ONGs (Organizações Não-Governamentais), do trabalho voluntário do 3º setor, do mercado informal, do empreendedorismo, das igrejas evangélicas. -


[Existiam ainda outras explosões de movimentos etc., mas, é claro, que no momento, a mente seleciona aquilo que pode manter de imediato maior grau de relação com o assunto que desenvolve.] 



- A ideia da internet foi previamente discutida numa empresa fornecedora do Pentágono sob encomenda do mesmo. O argumento a favor era o de ter encontrado um sistema de defesa no qual o inimigo não poderia atacar o Estado-Maior porque a organização em rede permitia a organização do Estado-Maior em rede de diferentes comandos, diferentes cabeças tal qual a organização ficcional “Hidra” do filme “Capitão América, O Primeiro Vingador”.


Mas, deixemos o ficcional das histórias em quadrinhos e olhemos para a história dos Estados Unidos e já vemos o que o seu próprio nome diz. E ele diz que sua composição é de Estados ou ex-Colônias que estão Unidos e estas ex-Colônias se legitimam muito a si mesmas como lugares onde a liberdade religiosa permitiu aos protestantes, dos mais variados tipos ou, como se diz hoje, das mais variadas denominações, organizar sua vida privada e seu culto com total liberdade. Noutras palavras, a organização duma rede de denominações variadas foi também a organização duma rede de propriedades privadas, ou seja, a base organizacional maior ou o Estado-Maior das ex-Colônias Unidas ou dos Estados Unidos era, é e, com a organização em rede dos comandos via internet, ainda será a propriedade privada capitalista.


Concluíram que, com o novo modelo organizacional, promovido tecnologicamente pela informática via internet, poderiam derrubar o Estadão do “Comunismo” Russo. O neoliberalismo veio apenas oficializar a estratégia dos EUA-Inglaterra de glorificar a propriedade privada capitalista como a Fênix que retorna ainda mais viva com o fim do colonialismo e do Estadão Russo. Os chineses, ao admitirem o que chamaram de “Socialismo de Mercado”, já tinham se tornado aliados da nova estratégia, posto que o mercado só existe como troca de produtos entre proprietários diferentes, logo, sua existência é uma condição essencial para a continuidade da propriedade privada capitalista. Então, os movimentos religiosos e mesmo o renascimento religioso da Igreja Ortodoxa, depois da dissolução do Estadão Russo, encontram condições de prosperidade com o neoliberalismo, quer dizer, com a máxima do mercado máximo e do Estado mínimo, porque a religião encontra seu solo privado amplo no mercado, ainda que alguns fundamentalismos, em especial os islâmicos, a queiram no poder do Estado. Mas, mesmo aí no Islamismo, o poder do Estado Teocrático não suprime o mercado porque o mercado é uma instituição da sociedade islâmica que, tradicionalmente, admite os escravos como mercadoria, mas, é claro, não admite que eles sejam proprietários privados do que quer que seja nem de si mesmos, portanto, os escravos não podem comprar nem vender nada e menos ainda a sua própria força humana de trabalho, como fazem os trabalhadores livres na sociedade de mercado capitalista. -


[Será mesmo esta possibilidade que explica uma sociedade mercantil com um Estado teocrático?! Outra possibilidade não é precisamente a imposição do mercado a todos, incluindo, os escravos, ou seja, os membros da sociedade podem vir a ser escravos por dívidas não-pagas?! Esta escravidão, dos escravos por dívidas, sendo decorrente da escravidão de todos ao mercado, de modo que os fiéis são aqueles que pagam sua dívidas e os infiéis aqueles que são incapazes de pagar suas dívidas, portanto, o Estado Teocrático é o que reconhece os fiéis e condena os infiéis?! É interessante notar que a oração do Pai Nosso foi modificada pela Igreja Católica da fórmula "... perdoai as nossas dívidas como nós perdoamos aos nossos devedores..." para "... perdoai as nossas ofensas como nós perdoamos a quem nos ofendeu..." indício de uma mudança do âmbito do mercado, a qual talvez lembrasse  a escravidão por dívidas, para o âmbito da injúria e difamação do direito civil nas relações sociais ou de civilidade?! Ou será que, por outro lado, houve pressão dos organismos internacionais, interessados nos pagamentos das dívidas externas e públicas, sobre a Igreja Católica?! Ou ainda, será que ao próprio Estado do Vaticano, cume do poder da Igreja Católica, passou a interessar o pagamento das dívidas para garantir a otimização do funcionamento de suas instituições financeiras?! Quem sabe as respostas?!]



- Então, o poder do Estado Teocrático Islâmico tem este caráter de Estado forte por se basear em proprietários privados de escravos, quer dizer, em proprietários privados que também são reconhecidamente privilegiados como senhores em relação aos escravos que são reconhecidamente os castigados por serem expropriados dos direitos iguais dos quais desfrutam os privilegiados por serem senhores.


Se o Deus que está vivo é o “Deus mercado”, quer dizer, aquele Deus que habita cada um como proprietário privado de propriedade privada, então, ele também é aquele “Deus centelha prometeica”, logo, ele é tanto o “Deus vivo das religiões” quanto o “Deus vivo da biotecnologia e da filosofia do super-humano”, portanto, é tanto o Deus das religiões que, segundo estes últimos, “está morto” quanto é o Deus biotecnológico e filosófico que vive e cria nesses últimos e é criado por esses últimos.


Depois disso, algum diálogo é possível?!


O que é considerado divino em primeiro lugar é a criação do mundo, dos seres vivos e, em especial, do ser humano, por isso que a mulher grávida foi considerada uma divindade. Mais tarde, os humanos descobriram que as mulheres ficavam grávidas depois de semeadas pelos homens durante as relações sexuais. Mas, as relações sexuais são decorrentes antes de tudo do desejo que se apossa dos humanos como um transe, como a vontade de um outro muito poderoso ou como o poder de um desejo irresistível que leva às relações sexuais dos humanos. De onde vem este poder que subjuga o sujeito a seu desejo ou de onde vem este desejo que subjuga o sujeito a seu poder? De onde vem este desejo ou poder que faz do sujeito seu objeto e, assim, se afirma como verdadeiro sujeito ou, pelo menos, imediatamente como sujeito superior ao próprio sujeito?! Quando desse desejo resultam relações heterossexuais que originam nova(s) vida(s) humana(s), então os humanos atribuem este poder à natureza animal que compartilham com os demais animais da natureza, mas, como também atribuem o poder criador da natureza ao poder criador de Deus, então os humanos também atribuem este poder à natureza divina, a Deus. Porém, os humanos começam a se perguntar se o poder escravizante do desejo vem de Deus ou vem do demônio. Assim, por exemplo, na Bíblia, tudo parece indicar que o fruto, da árvore do conhecimento bem e do mal, que Deus havia proibido Adão e Eva de comer, foi provado por Eva devido à tentação do demônio e foi ela quem, “depois de possuída pelo demônio”, fez Adão provar tentando-o. Depois disso Deus expulsa Adão e Eva do paraíso e os condena a viver do suor de seu rosto. O suor do corpo ocorre durante a relação sexual e não apenas quando o humano trabalha, se exercita e se expõe a altas temperaturas. O corpo do homem perde espermatozoide para o óvulo do corpo da mulher, então o corpo do homem parece perder mais energia que o corpo da mulher que parece ganhar energia. De modo similar se diz que a energia da força humana de trabalho é expropriada pelos meios de produção que dela se apropriam, mas também se desgastam um pouco quando a transferem para os produtos. O conhecimento do bem e do mal também é o conhecimento da transferência do bem da energia da vida por meio da aquisição do mal da mortificação da energia da vida. A Bíblia confirma isso ao usar o termo conhecimento como sinônimo de relação sexual fecundante entre homem e mulher.


O suor do corpo, seja pelas atividades sexuais, seja pelos exercícios físicos, seja pelas atividades de trabalho, também promove a vitalidade, a saúde, a autoestima, aliás, dizem que “o trabalho dignifica”. Existe aquele suor do corpo ao fim duma relação sexual que faz o sujeito cair no sono, mas também existe o suor do corpo ao fim de uma relação sexual que faz o sujeito despertar e levantar-se esbanjando energia e contentamento. E este último, infelizmente mais raro, é aquele que mostra claramente que a sexualidade é vital e orgânica, é um prazer denominado orgasmo por meio do qual a vida do sujeito se renova, como um corpo que abandona sua velha forma por adquirir nova forma. O mesmo se passa com os exercícios físicos. O suor oriundo dos exercícios físicos não se limita a eliminar ou consumir a energia do corpo desgastando-o e sim faz mais ainda porque desenvolve o corpo com este desgaste aperfeiçoando tanto sua forma quanto seu conteúdo de modo que ele funciona de modo muito mais completo suando com os exercícios. Algo similar se passa com o trabalho que não promove apenas um suor que desgasta o corpo, mas também um suor que liberta e energiza o corpo, de modo que o suor do corpo que trabalha não é apenas um suor do corpo escravizado pelo tempo de trabalho, mas também é um suor do corpo libertado pelo tempo livre, ou seja, a atividade de trabalho não se limita a satisfazer uma necessidade corporal mas também está focada em satisfazer uma capacidade corporal, portanto, a atividade de trabalho não está voltada apenas para satisfazer a falta se aprisionando no tempo de trabalho e também está voltada para usufruir o pleno se concretizando no tempo de liberdade.


A condenação de sair do paraíso para ganhar a vida com o suor do rosto é também a condenação de sair da menoridade sob tutela de Deus para ganhar a maioridade fazendo uso próprio/autônomo de si mesmo. O iluminismo está presente na Bíblia e, talvez, por isso, aqueles que dizem se relacionar diretamente com a palavra de Deus, quer dizer, que dizem se relacionar com Deus lendo diretamente a Bíblia, façam tanto sucesso na atualidade com o “boom” das igrejas evangélicas, ou seja, eles se situam no mesmo terreno da atualidade que promove o empreendedorismo, o trabalho e o mercado informais, mesmo o trabalho voluntário, quer dizer, se situam no mesmo terreno que argumenta ser liberal ou neoliberal por defender o livre uso de si mesmo ou o uso próprio/o uso autônomo de si mesmo, enfim, por também defender que se ganhe a vida com o suor do próprio rosto.  


Mas, a partir daí considerar que Deus está mais vivo do que nunca antes na história da humanidade não é confundir a vivência maior da religiosidade e da religião com o viver de Deus?! Afinal, tudo indica que Deus não só expulsou a humanidade do paraíso como também parou de falar com os humanos como fazia na época do Antigo Testamento. Então, parece que Deus como tutor ou pai fez de tudo para que seus filhos humanos andassem e vivessem fazendo uso de seus próprios pés, pernas e corpo; fez de tudo para não ser mais um Deus vivo e em convivência com a humanidade e fez sim de tudo para ser um Deus morto cultivado pela religiosidade da humanidade como origem e fundamento da liberdade humana.


Os que assumem o ato de Deus não só de expulsar do paraíso, mas de ir de ruptura em ruptura, até o corte total do cordão umbilical, não são, por isso mesmo, mais coerentes e fiéis a Deus?! Quando dizem que Deus está morto, não estão assumindo de maneira precisa o ato de Deus de não mais tutelar?! Não é o mesmo que ocorre no atomismo epicurista quando promove a dissolução ou destruição do atomismo para que o princípio verdadeiro venha a ser o livre uso de si próprio da consciência humana de si ou a liberdade da consciência humana de si de usar a si próprio, logo, de fazer uso do suor do próprio rosto?!


Preferimos ser sujeitados ou ser sujeitos?! Édipo e Prometeu foram mais sujeitados ou foram mais sujeitos?! A diferença entre Édipo e Prometeu não é entre quem é sujeitado mesmo quando é sujeito e quem é sujeito mesmo quando é sujeitado, ou seja, entre quem é guiado, produzido e mudado pelas circunstâncias, mesmo quando supõe que sua consciência guia, produz e muda as circunstâncias, e quem guia, produz e muda conscientemente as circunstâncias, mesmo quando se supõe que é guiado, produzido e mudado pelas circunstâncias. Noutras palavras, a diferença entre Édipo e Prometeu não é a diferença entre circunstâncias e um sujeito inconsciente conspirando contra uma consciência sujeitada versus um sujeito consciente conspirando a favor com circunstâncias e um inconsciente assujeitado. Mais claramente: Num caso tudo conspira contra o sujeito até mesmo o que é favorável. No outro tudo conspira a favor do sujeito até mesmo as adversidades.


Diálogo?!?!?!


Faz algum tempo, ao que parece, desde a Segunda Guerra Mundial, que, por meio da crença em seres extraterrestres, teve início a reabilitação de uma relação com um Deus vivo, já que ele poderia ser um astronauta extraterrestre. Se isso parece uma reabilitação ou recuperação da antiga relação direta com um Deus vivo, ao mesmo tempo parece um golpe de morte no antigo Deus vivo, posto que sua divindade nada mais seria do que resultado de um maior desenvolvimento tecnológico, logo, resultado da mesma capacidade humana de usar a centelha do trabalho e com ela se desenvolver. 


Hoje, ao que parece, muitos acreditam que o Deus vivo é um ser extraterrestre capaz de usar uma tecnologia Big Brother muito mais poderosa e completa do que a usada num Reality Show ou do que a usada pela NSA para controlar a internet, celulares, telefones etc. Muito acreditam, enfim, que o Deus vivo é um ser vivo que toma conta de toda a humanidade. Essa crença convive com uma outra crença que faz do Deus vivo aquilo que existe de comum e essencial entre Deus como ser vivo e os humanos como seres vivos que são filhos e obra de Deus e que é precisamente a presença da mesma centelha do divino trabalho no cerne da capacidade humana. -


[Não é aí nesse eterno viver sob tutela/vigilância/cuidados de Deus que se encontra a justificação para a eternização do Estado, do tutor e vigilante que cuida e tudo supervisiona, ainda que interfira minimamente?!] 


- Porém, o problema é que tanto num caso, onde Deus é um ser vivo objetivo e habitando na realidade fora de nós, quanto no outro, onde Deus é um ser vivo subjetivo e habitante da realidade dentro de nós, a essência de Deus é a mesma: A divina criatividade do trabalho, a divina criatividade física, a divina criatividade sexual. Noutras palavras, Deus não é diferente do ser humano, exceto por sua maior potência, maior capacidade, por sua superioridade, quer dizer, por ser super, super-humano. Então, Deus é o objetivo do ser humano que teria por finalidade vir a ser e se realizar e satisfazer como super-humano?!


No entanto, a realidade é que o ser humano vive efetivamente entre o animal e o super-homem, entre ser simples objeto natural como todos os seres da Natureza, quer dizer, como todos os seres criados pelo criador/Deus, e ser um pouco mais, do que um simples objeto natural, na forma de um ser que participa como simples sujeito da divindade do Criador/Deus. O ser humano se situa entre o animal, a coisa em si/o isso/o isto/Id, o inconsciente e o super-homem, a coisa em si na coisa para si/a super-consciência, o superego, ou seja, o ser humano não vive no passado imemorial que guarda todos os tesouros de todos os tempos nem no futuro que usufrui dos tesouros para além de todos os tempos, mas vive sim no presente da percepção/atividade sensivelmente humana, da coisa para si/da consciência de si, do ego que só dispõe de seu tempo, de sua época, de sua presença.


No creo en diálogos impossibles, pero que los hay, los hay!!! 


O no los hay?!?!?!




Quando se diz que “o ser precede a consciência” e que “assim como não se deve julgar um indivíduo pela consciência que ele faz de si tampouco se deve julgar uma época por sua consciência de si” também se diz que o indivíduo e a época devem ser julgados por seus seres e, portanto, que a consciência julgadora é uma consciência do ser do indivíduo ou da época. Mas, como é possível uma consciência do ser do indivíduo ou da época que não seja igualmente precedida pelo ser do indivíduo ou da época?! Quer dizer, como é possível uma consciência do ser que a precede que não seja consciência de si ou do ser que a precede?!





Sendo sempre a consciência que conhece e julga, então como é possível conhecer e julgar sem ser pela consciência de si, posto que a consciência, seja do que for, é sempre fundamentalmente consciência de si e a consciência de si é sempre posterior ao ser que a precede e origina?!




A interpretação disso então costuma ser e tem sido a seguinte. O conhecimento e o julgamento permanecem sendo feitos pela consciência de si, a qual, por sua vez, por suspeitar de si mesma ou por suspeitar da consciência de si, recorre para conhecer e julgar aos materiais do ser e às materializações ou aos atos do ser e não às suas ideias nem às idealizações ou às abstrações da consciência. 




Porém, quem conhece e julga desse modo “materialista” também afirma que o resultado desse conhecimento e julgamento diretamente material são “um certo número de relações gerais abstratas” ou de “noções simples – trabalho, divisão do trabalho, necessidade, valor de troca -”, ou seja, o resultado desse conhecimento e julgamento são ideias ou abstrações da consciência de si que são consideradas como tendo sido extraídas do ser material como princípios da materialidade do ser. É a partir destas abstrações do ser material que a consciência de si vai desenvolver sua própria atividade consciente de si como sendo atividade consciente do ser materializado nas abstrações ou princípios extraídos da materialidade do ser, ou seja, é a partir daí que a consciência de si deixa de ser suspeita e se torna aceita como fonte do conhecimento e do julgamento por se desenvolver a partir das ideias, abstrações ou princípios expropriados do ser material, portanto, a consciência de si não é considerada aí como consciência que o indivíduo ou a época faz de si e sim como conhecimento/julgamento que o indivíduo ou a época faz do seu ser.




Através do conhecimento direto e sistemático do ser material se chega às ideias ou abstrações do ser material e, em seguida, por meio do desenvolvimento sistemático e direto das ideias ou abstrações do ser material se chega às materializações ou concretizações do ser material no pensamento, quer dizer, se chega à consciência de si do ser material ou ao conhecimento fiel e digno do ser material, logo, à superação da ideia ou conceito que a consciência do indivíduo ou da época faz de si.




Então, quem faz a distinção entre o ser que precede a consciência e a consciência que sucede o ser permanece sendo a consciência que, ao se colocar sob suspeita, suspende o conhecimento de si mesma e se lança no conhecimento do ser material. Dessa atividade resulta a dissolução da concretude do ser material e a permanência do abstraído do ser material, quer dizer, resulta não o conhecimento do ser material e sim a consciência do ser imaterial, melhor, resulta a consciência das ideias ou das abstrações do ser, logo, resulta a consciência do ser abstrato, portanto, resta, da atividade de conhecimento do ser material, a consciência de si ou do ser abstrato. Agora que a consciência de si através do conhecimento do ser material chegou ao ser abstrato ou ao ser consciente de si, quer dizer, chegou a si mesma como ser e não meramente como consciência, agora é que começa o trabalho de conhecimento científico da consciência de si, posto que a partir de agora ela começa a sistematizar e desenvolver o ser abstrato até que ele se concretize no pensamento ou se materialize na consciência de si como ser ou até que o ser se materialize ou concretize na consciência de si.


O conhecimento científico então só ocorre quando supostamente é o ser material quem desenvolve na consciência o conhecimento de si, logo, o conhecimento ainda não é científico quando é a consciência quem desenvolve o conhecimento do ser material fora de si como consciência abstrata do ser fora de si, portanto, o conhecimento ainda não é científico quando é conhecimento do outro fora de si (para si) e é considerado científico quando é conhecimento do outro dentro de si (em si). Donde se conclui que só é científico o autoconhecimento, portanto, como o “ser precede a consciência de si” só é científica “a consciência de si que sucede o ser”. Em todo caso, se trata sempre, em ambos momentos, da consciência de si e o conhecimento do ser só pode ser autoconhecimento da consciência de si do seu ser em si.


Possible!!! No???









sábado, 20 de fevereiro de 2016

Mercantilismo-conquista-método na economia-Édipo versus capitalismo-colônia-método na economia-Prometeu




O mercantilismo se diferencia do capitalismo propriamente dito por se ater ao consumo de mercadorias ou ao acúmulo de meios de consumo para a compra e venda de mercadorias, quer dizer, ao acúmulo de meios para o aumento do consumo de mercadorias via compra e venda de mercadorias. Já o capitalismo propriamente dito está focado na produção de mercadorias ou no acúmulo de meios de produção para a compra e venda de mercadorias, logo, por se ater ao aumento da produção de mercadorias para a compra e venda.


Os mercantilistas como “os economistas do século XVII, por exemplo, partem sempre do todo vivo: a população, a nação, o Estado, vários Estados, etc.; no entanto, acabam sempre por descobrir, mediante a análise, um certo número de relações gerais abstratas determinantes, tais como a divisão do trabalho, o dinheiro, o valor, etc.”

[ver https://www.marxists.org/portugues/marx/1859/contcriteconpoli/introducao.htm, http://www.ebah.com.br/content/ABAAAAnW8AD/metodo-economia-politica]

Para eles, a população, a nação e o Estado constituem as bases para suas conquistas de várias populações, nações e Estados, mas, no processo de conquista eles percebem que uma divisão do trabalho entre conquistados e conquistadores permite que estes últimos acumulem dinheiro, valor, quer dizer, ouro e prata que permite um maior poder mercantil na compra e na venda de mercadorias.


Os capitalistas propriamente ditos são como os economistas do século XVIII em diante “que, partindo de noções simples – trabalho, divisão do trabalho, necessidade, valor de troca – se elevam até o Estado, à troca entre nações, ao mercado universal.” Para eles, as “noções simples – trabalho, divisão do trabalho, necessidade, valor de troca –” são as bases das suas “colônias/indústrias” que os “elevam até o Estado, à troca entre nações, ao mercado universal”, porque eles percebem que no processo de produção (indústria/colônia) de mercadorias existe um domínio/um poder que subjuga e transfere ouro e prata, dinheiro e valor das mãos dos mercantilistas para as suas mãos capitalistas.


Podemos ver algo semelhante na atividade de Édipo. Ele ouviu numa festa um conviva dizer que era bastardo e consultou o oráculo que disse que estava destinado a matar o pai, casar com a mãe e originar uma prole abominável. Fugindo desta predição saiu de Corinto para fazer seu destino. Na conquista do seu destino ele mata um velho arrogante que encontra no caminho (que depois vem a saber que é seu pai), decifra o enigma da Esfinge e, com isso, ganha o trono e casa com a rainha de Tebas, que estava viúva (depois vem a saber que é sua mãe), tendo filhos com ela e, finalmente, ouvindo do oráculo que o problema, da Peste de Tebas, era a impunidade do assassino do antigo rei, depois de condenar o culpado ao exílio, parte para a investigação até descobrir que o culpado era ele próprio e que, além de assassino, também era culpado de incesto com sua mãe. Sai em exílio até encontrar seu túmulo em lugar sagrado e secreto em Colona, nos arredores de Atenas.


O que há nisso de semelhante com o mercantilismo?!



O que parece semelhante é o começar por um todo vivo. É o começar indagando sobre a população, a nação, o Estado, vários Estados, quer dizer, é Édipo começar consultando o oráculo sobre a acusação de ser bastardo, quer dizer, começar indagando sobre si mesmo como população ou nascido, nação ou a mãe do nascido, Estado ou o pai do nascido, vários Estados ou várias possibilidades de fuga para fazer seu próprio destino. E o que também parece semelhante é o terminar com “um certo número de relações gerais abstratas determinantes”, quer dizer, com um túmulo secreto e sagrado tal qual um tesouro no qual se guarda dinheiro e valor ou ouro e prata, melhor, no qual se guarda Édipo morto, o mercantilista morto, o economista morto.


De igual modo podemos ver algo semelhante na atividade de Prometeu. Ele quis criar um novo ser e se lançou na atividade de dar forma ao húmus da Terra, quer dizer, se lançou na atividade de dar forma à fertilidade (húmus) da Terra e, em seguida, extraiu uma centelha do Céu e a deu, como conteúdo, para a forma fértil ou humana da Terra e foi desse modo que completou sua obra criativa, porque a partir daí a sua criatura deixou de depender do seu criador e passou a criar a si mesma de forma livre e independente do criador. Mas, é por isso que, por ordem de Zeus, Prometeu é acorrentado a uma rocha, tem seu fígado devorado todos os dias por uma águia e é lançado de um abismo nas profundezas do inferno. Finalmente, graças a Herácles, filho de Zeus com uma humana, logo, com uma criação de Prometeu, consegue dobrar Zeus ao seu desejo de libertar Prometeu e Prometeu é liberto.


O que parece comum aos capitalistas, aos economistas do século XVIII em diante e a Prometeu é o começar por “noções simples – trabalho, divisão do trabalho, necessidade, troca -”, ou seja, eles começam elaborando a colônia, a indústria, o ser ou a produção que os elevará até “ao Estado, à troca entre nações, ao mercado universal”. Mas, para que isso se torne possível é preciso que a energia da força humana de trabalho (Prometeu) seja extraída diariamente por um meio de tempo de trabalho excedente (extensivo ou intensivo) que a aprisiona nas profundezas infernais (útero) da maquinaria industrial, da colônia, da produção ou do ser explorador. Graças à luta do proletariado (de Herácles, o herói do trabalho e filho de Zeus) o capital (Zeus) se submete ao processo de redução sistemática do tempo de trabalho de modo que vem a ser a energia da força humana liberta (Prometeu) que se renova e desenvolve diariamente por meio do tempo livre fora (do útero) da maquinaria automatizada, da colônia, da produção ou do ser explorador. O nascimento do capitalismo se faz com Prometeu Acorrentado e a energia da força humana de trabalho explorada pelo tempo de trabalho da produção dentro da maquinaria industrial, já o fim do capitalismo se faz com Prometeu Desacorrentado ou liberto e a energia da força humana liberta fruindo o tempo livre da produção fora da maquinaria automatizada, quer dizer, fruindo o tempo livre na comunidade livre.


Um método ou perspectiva começa e tem por ponto de partida o conhecimento do todo vivo concreto por meio da dúvida, da suspeita, da investigação, da especulação que, sistematizando a análise, dissolve tudo em suas partes componentes até chegar e se satisfazer com um certo número de relações gerais abstratas determinantes ou aos princípios para onde tudo volta e se prende.


Já o outro método ou perspectiva tem por ponto de partida o conhecimento dum certo número de relações gerais abstratas determinantes ou dos princípios abstratos da morte de tudo por meio da certeza, da confiança, do trabalho, da elaboração que, sistematizando a síntese, condensa as partes componentes num todo até chegar à constituição e à satisfação com um todo único de múltiplas determinações ou com princípios de onde tudo sai e se liberta.


E daí?! Para que serve isso?! Para saber que o processo de conhecimento que parte do todo vivo e chega aos princípios no não-ser é aquele que parte da ignorância e desconhecimento ou inconsciência de si mesmo. E que o processo de conhecimento que parte dos princípios no não-ser para o vir a ser do todo vivo é aquele que parte da sabedoria e conhecimento ou consciência de si mesmo. O primeiro busca a conquista do ser fora de si e o segundo busca a criação do ser dentro de si. A prática do primeiro é de consumo, análise e destruição do ser fora de si para encontrar o que habita dentro do ser em si e a prática do segundo é de produção, síntese e criação do ser dentro si para que venha a ser o habitat e o encontro do ser fora de si.


A teoria e prática do primeiro processo de conhecimento é destruidora e a teoria e prática do segundo processo de conhecimento é criadora, por isso que se diz que a primeira se situa na esfera do consumo e que a segunda se situa na esfera da produção. Pode-se dizer ainda que o lumpenproletariado é resultante do primeiro processo de conhecimento que, visando a conquista do ser fora de si, abandona o que sai de dentro de si. E que o proletariado é resultante do segundo processo de conhecimento que, visando a criação do ser dentro de si, cultiva o que sai de dentro de si. Um caminho parece levar do ser para o não-ser e o outro caminho parece vir do não-ser para o ser, logo, um parece ir ao não-ser e o outro parece vir a ser. A atividade de destruição parece ser a atividade de apenas interpretar o mundo de forma diferente e a atividade de criação parece ser a atividade de só mudar o mundo.

Assim podemos dizer que a atividade filosófica, edipiana, de conquista, mercantilista e dos primeiros economistas é a de apenas interpretar o mundo de forma diferente. E que a atividade prática, prometeica, de criação, capitalista e dos segundos economistas é a de apenas mudar o mundo. Sair da filosofia para a prática é sair da coleta para o trabalho, é sair do consumo para a produção.


Existe ainda algo que confirma a posição de Marx de escolher o método dos economistas do século XVII como os portadores do verdadeiro método científico E é isso que Marx descreve muito bem no "Prefácio à Uma Contribuição à Crítica da Economia Política" onde mostra que

[ver https://www.marxists.org/portugues/marx/1859/01/prefacio.htm]

"A minha investigação desembocou no resultado de que relações jurídicas, tal como formas de Estado, não podem ser compreendidas a partir de si mesmas nem a partir do chamado desenvolvimento geral do espírito humano, mas enraízam-se, isso sim, nas relações materiais da vida, cuja totalidade Hegel, na esteira dos ingleses e franceses do século XVIII, resume sob o nome de"sociedade civil", e de que a anatomia da sociedade civil se teria de procurar, porém, na economia política."


A "sociedade civil" é a tal da "colônia" para cuja formação e desenvolvimento partem aqueles que estão de posse de "um certo número de relações gerais abstratas determinantes", melhor, a "sociedade civil" é o organismo que formam e desenvolvem aqueles que partem das "noções simples - trabalho, divisão do trabalho, necessidade, valor de troca -" da economia política para chegar com seu organismo da "sociedade civil" a se elevar "até o Estado, à troca entre nações, ao mercado universal". Para os mercantilistas o Estado é organismo da conquista por meio do qual chegam até a conquista do entesouramento de "um certo número de relações gerais abstratas". Para os capitalistas a "sociedade civil" é o organismo fornecedor ou a "colônia" fornecedora das "noções simples - trabalho, divisão do trabalho, necessidade, valor de troca -" por meio das quais chegam a elevar a "colônia", a "sociedade civil" ou a "social civilização"/a "socialização civil" "até o Estado, à troca entre nações, ao mercado universal". O problema é que esta "sociedade civil' que se elevou "até o Estado, à troca entre nações, ao mercado universal" se recusa a completar o desenvolvimento do seu organismo de modo a sair da sua imperfeição que é a "socialização civil" em classes diferenciadas mantidas por um Estado civilizado perfeito para entrar na perfeição duma "socialização comum/comunitária" sem diferenças de classes e sem nenhum Estado civilizado ou comum perfeito e sim com uma sociedade comum ou uma comuna que se autoaperfeiçoa desenvolvendo a liberdade, a multiplicação da liberdade, a capacidade, o valor de uso que suprime o Estado, as nações, o mercado, de modo que seu feito ou aperfeiçoamento é a sociedade humana ou a comunidade humana. 



Isso serve para mudar, para vir a ser tempo de trabalho vivo e passar a ser tempo livre vivo.







quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Escobar e a vida, destino, caráter


                                                                                                                                              09/03/2016




Ainda ontem, à noite, no sábado, 05/03/2016, fugindo de Amor & Sexo, da Globo, me deparei com a imagem envelhecida do Escobar na TVE e fui vendo que se tratava dum filme sobre ele feito pela filha dele, mas que eu já tinha pego pouco antes da parte 4 e da parte final. Em seguida, assim que acabou, pensei em procurar na internet um meio de falar com ele e foi aí que encontrei o filme completo no último desses links, mas, antes, passei por esses outros links.




Ele permanece sendo o Escobar revolucionário e crítico que conhecemos. Fiquei muito surpreso de não ter sabido que o filme foi feito em 2013 e que ganhou um festival. Alienação total da minha parte. "... a vida nos tem..." é uma parte, duma passagem no final do filme, muito interessante. Passagem que pode ser muito cética, muito realista, muito niilista, mas também muito "irônica" se a vida nos tem e não temos a vida...


E isso remete para perguntar se somos apenas intérpretes do mundo vivo que nos tem ou se somos capazes de transformar o mundo vivo que temos e, finalmente, se a questão da propriedade é a decisiva ou já está, desde sempre decidida, quando a vida nos tem e não temos a vida?! Somos capazes de termos a vida?! Ou não?! Há um "preço" a pagar para termos a vida?! Há um preço a pagar para adquirir a vida?! Ela é uma mercadoria e valor de troca que podemos adquirir por ser antes de tudo um valor de uso?! E um valor de uso de nossa necessidade humana de uso?!







pt.wikipedia.org
Carlos Henrique de Escobar Fagundes (São Paulo,11 de novembro de 1933) é um filósofo, dramaturgo, poeta e professor brasileiro. [1] [2] Nascido em São Paulo, aos ...
http://og.infg.com.br/in/7469675-b3d-fed/FT1500A/550/2013012869531.jpg
oglobo.globo.com
Carlos Henrique Escobar ressurge no documentário ‘Os dias com ele’ Um dos intelectuais mais provocativos do Brasil nos anos 1960 e 70, o filósofo, dramaturgo e ...
http://www.joaodorio.com/pix/logo8.gif
www.joaodorio.com
João do Rio, 1 1ªAno 10 - Número 61 Dezembro / Janeiro de 2014 FILOSOFIAS Entrevista com Carlos Henrique Escobarpor Marcio Salgado*O texto a seguir é parte de um...
http://tse1.mm.bing.net/th?id=OVP.V7a4c67e1646f5122a38f6a5cd2e592c6&w=250&h=140&c=7&pid=Api

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Carlos Henrique Escobar, um importante intelectual brasileiro de esquerda, foi preso e torturado, em 1973, quando o país vivia numa Ditadura Militar (1964-19...


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Filme de Maria Clara Escobar Editado por Julia Murat e Juliana Rojas Produzido por Filmes de Abril.





- Rapaz, como ele envelheceu...




Cirrose e tratamento muito caro que não pode fazer e prefere sofrer a doença. Aos 9 anos, depois de fugirem da casa dos pais e viverem nas ruas, pacto com os irmãos de não mais trabalhar nem estudar formalmente, de serem autodidatas. Preso aos 9 anos por roubar para se sustentar e aos irmãos. E por se justificar com o Manifesto Comunista, que sabia de cor, acaba sendo solto, sob a advertência de prometer não retornar ao local onde foi preso. Prefere ser enterrado num cemitério de animais com os gatos e não com os humanos. Perdeu os irmãos, os pais, os amigos, está faz 12 anos (época do filme, agora faz mais) em Aveiro sem se comunicar sequer com os portugueses num exílio voluntário, mas casado com uma portuguesa, pelo que se depreende do sotaque da companheira dele. A vida o tem, ele diz, mas, ao mesmo tempo, ele é o dramaturgo que quer controlar tudo e mais do que um bom ator, como ele mesmo assume, ele busca ser o autor dramaturgo de sua história desde os 9 anos. Foi generoso com a filha por possibilitar que ela nascesse ao evitar a realização da ameaça de aborto, feita pela mãe dela, caso ele não prometesse pagar integralmente pelo sustento da filha, foi generoso por ter prometido, ainda que não tenha cumprido, como diz não ter feito com nenhum dos filhos. Um sujeito autocentrado ou ego-centrado, logo, egocêntrico, mas não por ter a vida e sim porque a vida o tem, inteiramente desiludido com os humanos por se entender com os gatos no silêncio dos gatos. Ora, é curioso que os gatos sejam tidos como os animais domésticos que diferem inteiramente dos cachorros por sua autonomia, independência, egoísmo, posto que os cães se caracterizam por sua submissão, dependência, "altruísmo". Ele quer viver a grande solidão nietzschiana, ele permanece interpretando um grande papel ou sendo, como ele diz que foi no Brasil, um bom ator, mas que, como dramaturgo, vivencia a tragédia dos raros, dos superiores, os quais, mesmo assim, são determinados pelo acaso da vida que os tem e não pela determinação que têm de terem a vida. Teve vida pública, mulheres e bebeu. Quer ser lembrado como um pequeno homem aos 9 anos e, portanto, como um filiado à linhagem dos mestres de si mesmos ou dos autodidatas, melhor, dos super-homens nietzschianos. Nietzsche se tornou catedrático sem nunca ter feito doutorado, mas porque o catedrático da filologia o protegeu como monitor e o elevou à condição de catedrático porque reconheceu nele seu notório saber. Gênios como forças da natureza, quer dizer, porque a vida os tem como tal. E o mesmo se diz dos gatos e também dos felinos e dos "predadores" ou reis da cadeia alimentar.


É isso que você vê em outros, muito próximos, que, a seu ver, olham a vida com tristeza?! É uma lenda esta vida pública, este personagem do dramaturgo e ator Escobar ou é a vida que o teve assim e ele é simples produto determinado pelo acaso da vida que o tem?!




Os pais eram ausentes e ele e os irmãos também se ausentaram dos pais. (Por vingança ou autoestima?!) Ele veio a ser um pai ausente. "Filhos de gatos, gatinhos são?!". Ele sempre trata muito bem as crianças de rua. Caráter também é a coragem de estar na rua, de não frequentar escola, de não trabalhar. Caráter é a coragem de não se deixar corromper pelo mundo ou de não ser tomado pelo mundo e se manter tomado pela vida, se manter determinado pela vida, pelo acaso, pela condição de gato/"gatuno"/"vagabundo"/incorruptível e não a de cão/"tira"/escravo/corruptível determinado pelo destino, pela morte, melhor, pelo medo da morte. Porém, se for a vida quem nos determina e nos possui, então ela também determina e possui tanto o senhor quanto o escravo, ou seja, as classes são perenes e os indianos estão certos, porque a vida sempre irá determinar e ter os que quer como senhores e os que quer como escravos, porque, ao fim e ao cabo, todos são seus servos ou suas propriedades e qualidades se manifestando. Só que aí não existe saída deste caráter determinista do acaso da vida, ou seja, somos para sempre incapazes de sair da perenidade ou eterno retorno da sociedade de classes ou da natureza com forças excessivas nos libertos (gatos) e forças carentes nos escravos (cães). Mas, Marx é nietzschiano ou marxiano?! Para ele, o acaso é a simples determinação da vida que nos possui ou é também a simples determinação da vida que possuímos?! Caráter, mais do que a coragem de não se deixar corromper ou ser tomado pelo mundo, é a coragem de mudar o mundo por meio da capacidade de tomar e determinar a vida e o acaso, posto que não são destinos nem a vida nem o acaso e sim a morte e o determinismo, posto que a vida e o acaso são sim livremente determinados pelo indivíduo ou são a própria livre determinação da capacidade humana!!!???


Escobar critica a tradição cultural da corrupção no Brasil e avalia que a derrota da sua posição de esquerda se deve antes a um erro da sua posição de esquerda e dos seus aliados do que a um acerto dos seus adversários. Acredita que o Brasil ainda irá conhecer o vir a ser de uma posição de esquerda não corrupta e não stalinista. Esta posição de esquerda de caráter errou e, por isso, foi derrotada. Mas, ele não diz qual foi o erro.


Escobar nos ensina que, na questão do mestre/senhor e do discípulo/escravo, ele encontra e desenvolve uma trajetória sem mestre/senhor por se recusar a ser discípulo/escravo ou, como ele diz, por se recusar a ser filho de pais ausentes, se recusar a trabalhar ou ser escravo do trabalho, se recusar a ser aluno ou discípulo do professor. O carinho, a atenção e cuidado que sempre manteve com as crianças de rua é identidade consigo mesmo. A preferência pelos gatos é identidade consigo mesmo. A preferência por Nietzsche é identidade consigo mesmo. Em todos estes casos o autodidata é uma força da natureza com a qual Escobar se identifica. Mas, talvez, aí mesmo esteja o problema do erro de sua posição de esquerda, quer dizer, da defesa do caráter por sua posição de esquerda. O autodidatismo que ensina é ou não o mesmo autodidatismo que os trabalhadores precisam desenvolver para serem libertos ou emancipados do trabalho?! Com o seu autodidatismo ocorre uma ruptura com a família, com o trabalho e com a escola como sistemas institucionais, ainda que o reconhecimento maior seja feito pela escola precisamente devido ao Notório Saber do seu autodidatismo.


Mesmo assim, as outras instituições, a família e o trabalho, podem reconhecer o seu autodidatismo sob aquilo que denominam de livre iniciativa, empreendedorismo, atividade capitalista, mas não como iniciativa prisioneira do sistema assalariado, do trabalho explorado, da atividade trabalhista. Ou seja, o seu autodidatismo é aquele que desenvolve uma comunidade autodidata daqueles que podem vir a se constituir como Estado-Maior da organização dum processo de libertação autodidata do sistema assalariado, da exploração do trabalho, da atividade trabalhista, mas, mesmo assim, correndo o risco deste Estado-Maior vir a ser um sucessor mais desenvolvido da livre iniciativa e empreendedorismo do capitalismo.


O problema então é o da libertação dos trabalhadores da atividade trabalhista, do sistema assalariado, da exploração do trabalho, mas não como algo que passa a ser reconhecido como livre iniciativa, empreendedorismo, atividade capitalista, notório saber. O caráter do autodidatismo dos trabalhadores não é o mesmo do autodidatismo do Escobar. O do Escobar é um autodidatismo inerente à natureza do gênio, do superdotado, do super-homem, enfim, daquele que a vida naturalmente determina porque o tem como sua propriedade, como seu caráter. Já o autodidatismo dos trabalhadores que lutam para se emancipar do trabalho se constitui no interior mesmo do próprio processo de trabalho de forma inerente à relação social que desenvolve os trabalhadores como uma comunidade social, ou seja, é um autodidatismo que não se deve à natureza dos trabalhadores e sim à sociedade ou comunidade artificialmente constituída dos trabalhadores no processo de desenvolvimento do sistema do trabalho ou da produção.


É evidente que ambos autodidatismos têm mais em comum do que as erudições contra as quais se levantam e lutam. Os trabalhadores nada possuem, além de suas próprias forças humanas de trabalho. O caráter do trabalhador é sua força humana de trabalho. O caráter do Escobar é a sua natureza. E como o trabalhador se liberta? Se tornando proprietário comum dos meios de produção, quer dizer, se tornando sim o proprietário da iniciativa, do empreendimento e quem “capitaliza” a produção dos meios de produção comuns e automatizados.


Será que é por aí que se encontra o erro da posição de esquerda do Escobar que defende o caráter autodidata e/ou independente da emancipação ou libertação dos trabalhadores?!





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O ser sensível precede a consciência.





Nossa sensibilidade é inconsciente e da sua existência ou atividade vital nasce, depois de um determinado tempo, a consciência/o eu. A consciência da sensibilidade ou a sensibilidade consciente conhece a si mesma, mas se limita a sentir, a perceber e a conhecer as manifestações para a consciência da sensibilidade inconsciente e não conhece a sensibilidade inconsciente em si mesma. As manifestações para a consciência da sensibilidade inconsciente mostram a presença na sensibilidade consciente de uma vontade inconsciente. Enquanto a sensibilidade consciente conhece a si mesma, quer dizer, a objetividade tal qual ela se mostra para a consciência, já a sensibilidade inconsciente permanece submersa em si mesma e só deixa vir à tona ou à consciência sinais, marcas, manifestações, perturbações, alterações que a vontade inconsciente faz na objetividade sensível tal qual a conhecemos conscientemente. Com a sensibilidade consciente temos acesso à objetividade tal qual ela se mostra para nós, mas com a sensibilidade inconsciente percebemos o acesso à objetividade, tal qual ela se mostra a nós, da vontade duma subjetividade tal qual ela se esconde em nós.





Se chamamos a sensibilidade consciente de coisas para nós que podemos conhecer e a sensibilidade inconsciente de coisas em si que não podemos conhecer, então nos aproximamos da terminologia de Kant. Porém, as coisas em si da sensibilidade inconsciente ainda são sensíveis e acessíveis para nós e passíveis de conhecimento quando se manifestam ou se mostram para nós como presença duma vontade. Já as coisas em si da sensibilidade inconsciente que permanecem escondidas são insensíveis, inacessíveis e incognoscíveis para nós, ainda que, de repente, possam vir à tona. Entre estas coisas em si da sensibilidade inconsciente que, vez por outra, manifesta sua presença como vontade, e as coisas em si da insensibilidade ou do ser tal qual ele é em si independente e liberto da sensibilidade existe uma diferenciação da inconsciência. Diferenciação entre uma inconsciência ou inconsciente insensível e uma inconsciência ou inconsciente sensível. Essas coisas em si do plano da inconsciência ou inconsciente insensível foram chamadas por Kant de númenos e só aí a vontade pode ser inteiramente livre, alma imortal e divindade sem espaço nem tempo, já as coisas em si situadas no plano da inconsciência ou do inconsciente sensível foram chamadas de fenômenos porque aí a vontade já se encontra aprisionada ou encarnada na sensibilidade, na vida mortal e na natureza do espaço e do tempo. Porém, como o plano dos númenos só pode ser suposto como plano contrário ao dos fenômenos e como o plano dos fenômenos é aquele que aprisiona e encarna a vontade na sensibilidade, então surge a compreensão do plano da prática humana dos costumes ou dos comportamentos obedientes ou disciplinados pela encarnação duma determinada vontade como sendo aquele que, no plano dos fenômenos, não apenas supõe a vontade do plano dos númenos mas visa encarná-la como superconsciência, quer dizer, como consciência que transcende a si mesma ou o fenômeno do eu e situa além de si mesma ou no fenômeno do super-eu. Nietzsche situou o fenômeno da consciência ou do eu (consciência sensível) como ponte humana entre o animal (inconsciente instintivo) e o super-homem (superconsciência supersensível). Freud parece ter traduzido mais completamente o esquema de Kant com sua formulação do Id (isso ou coisa em si)/Inconsciente, Ego (consciência ou coisa para nós) e Superego (superconsciência ou supercoisa para nós, quer dizer, as suposições da coisa em si que são encarnadas como supervontade, lei, presença divina para nós ou encarnação da divindade em nós).






Coisa em si sensível ou inconsciente fenomênico e coisa em si insensível ou inconsciente numênico. Coisa para nós sensível ou consciência fenomênica do eu/ego e coisa para nós supostamente "insensível" ou consciência supostamente “numênica”  do supereu/superego.




Se o ser sensível impede o acesso ao ser em si, então a coisa em si real e incognoscível também pode ser, segundo Platão, a mesma coisa real em si para além da caverna da sensibilidade. A coisa em si ou o objeto real similar ao real do filme "Matrix", ainda que aí começa a prevalecer a prática da seita, do segredo, da atividade secreta e/ou dos poucos escolhidos de posse da verdade.




Se o ser sensível não impede o acesso ao ser em si precisamente porque a coisa em si real e inconsciente é sensível







quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Dramaturgia do acaso e a crise atual do governo Dilma e do Lula /Síntese da tese de Marx sobre Epicuro com o epicurismo da psicanálise de Freud

                                                                                                                                           17/03/2016



Como a dramaturgia do senhor e do escravo é explicada por Nietzsche?


O senhor é aquele com excesso de capacidade e o escravo é aquele com carência de capacidade, ou seja, o senhor é aquele que se faz suporte da liberdade e o escravo é aquele que se faz suporte da necessidade. É uma dramaturgia entre a natureza aristocrática do senhor, do capacitado, do livre e a natureza carente do escravo, do incapacitado, do necessitado. Quem vai para o trono ou para o Estado? Naturalmente é o senhor, diz Nietzsche. E quem vai ser súdito ou Sociedade Civil? Claro que ao lado do Rei e no Estado ficam os aristocratas, ainda que os carentes possam servir como criados que vestem, cozinham, servem ao Rei e ao Estado. Os súditos, claro, são todos aqueles que não são o Rei, logo, os aristocratas são súditos, mas, ao mesmo tempo, eles se encontram no mesmo campo do Rei, o Estado, e podem vir a ser Rei. Já súditos e exclusivamente súditos são os carentes que constituem o campo dos escravos, a Sociedade Civil, e que só poderão vir a ser Rei depois de uma luta entre os súditos carentes e os aristocratas. Segundo Nietzsche, isso ocorre quando no interior dos capacitados aristocratas, os guerreiros, surge um que adoece e sentindo a carência da doença se afasta do convívio destes guerreiros. Este que adoece, sente carência de saúde e se afasta dos saudáveis guerreiros vem a constituir a figura do sacerdote. E dele podemos falar que é uma declinação ou desvio da queda (vertical) em linha reta da saúde guerreira dos capacitados aristocratas, logo, é a constituição numa linha curva da carência de saúde guerreira ou do surgimento da capacitação da saúde sacerdotal. Noutras palavras, a figura do sacerdote elaborada por Nietzsche exerce a mesma função do clinâmen epicurista no interior da dramaturgia determinista por ser através dela que se faz a introdução da dramaturgia propriamente dita do acaso. Também podemos falar algo que é próprio do que dizem os especialistas na “Arte da Guerra”, como o chinês Sun Tzu, a respeito da figura decisiva do espião ou agente duplo, o qual, em geral, é um aristocrata, que desempenha um papel importante ao lado do poder aristocrático do Rei, mas que trai seu campo aristocrático, seu reino e seu Rei promovendo a vitória do poder carente dos súditos, dos escravos e, com isso, traz à tona a invenção dum novo campo de ação da linha reta que é o da repulsão (horizontal), porque a sua novidade é a independência em relação à determinação da queda (vertical) em linha reta, a qual destaca a capacidade versus a carência, porque a determinação em linha reta da repulsão (horizontal) admite que todos possuem tanto capacidade quanto carência, afinal, foi isto que o sacerdote aprendeu com sua doença e sua declinação ou desvio, a saber, que ele não é apenas capacidade nem saúde guerreira mas também é carência e saúde carente, ou seja, o sacerdote com o desvio, a declinação ou o clinâmen, tal qual Arquimedes, inventa a alavanca que move, muda e transforma o mundo, que, assim, sai da dramaturgia do determinismo para a dramaturgia do acaso, quer dizer, daquela dramaturgia onde a determinação preponderante é da natureza ou do ator da natureza ou da natureza do ator e passa para a dramaturgia na qual a determinação preponderante é da artificialidade/criatividade ou do ator da artificialidade/criatividade ou da artificialidade/criatividade do ator. Portanto, se pode dizer que a invenção do campo democrático ou da repulsão (horizontal) em linha reta que, aliás, também é a invenção do mercado e dos valores relativos de todo e qualquer quantum presente aí na repulsão (horizontal) em linha reta, ou seja, que ambos democracia e mercado são invenções decorrentes do desvio, da declinação ou do clinâmen, e este pode ser concebido, no final das contas, como presença da carência no interior do campo da capacidade aristocrática. Finalmente, pode-se falar que a experiência pessoal de Nietzsche, depois de se alistar como voluntário da Guerra Franco-Prussiana de 1870, foi decisiva, não só para escrever sua obra de estreia estrondosa no campo filosófico, “A Origem ou O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música”, mas também para constituir o próprio Nietzsche como filósofo, artífice, criador e ela é inseparável das histórias e estórias a respeito da doença e do adoecimento do próprio Nietzsche.


Nietzsche diz de sua obra que ela é guerra. E tem toda razão porque ela é obra do desvio, do agente duplo, da alavanca, enfim, de quem se situa na dobradiça de dois movimentos em linha reta, o de queda e o de repulsão, por ser movimento em linha curva, que gira em torno de si, logo, revolucionário, mas que se situa entre os dois movimentos em linha reta e de um modo que participa como alavanca que move e muda um no outro.


- Tá bom. Esta é a explicação de Nietzsche para a dramaturgia do senhor e do escravo, mas que importa isso, aqui e agora?!


Que importa?! Hobbes dizia que “o homem nasce mau e o Estado o corrige”, com isso queria desenvolver um Estado que corrigisse a natureza humana e Rousseau dizia que “o homem nasce bom e a sociedade o corrompe” e, com isso, queria, ao contrário, desenvolver uma sociedade que afirmasse a natureza humana. Hobbes era conservador e defendia o Estado anterior ao surgimento da superpopulosa natureza humana má. Rousseau era progressista e defendia a Sociedade Civil posterior ao surgimento da superpopulosa natureza humana boa. Ambos estavam diante do fenômeno duma superpopulosa natureza humana. Para Hobbes esta superpopulação era uma corrupção da sociedade existente e para Rousseau esta superpopulação era corrompida pela sociedade existente.


Epicuro, o inventor da declinação da queda em linha reta, dizia que as sociedades que não fizeram pactos e/ou contratos (constituições) eram isentas de justiça e de injustiça, precisamente porque não criaram nenhuma lei, logo, nelas vigorava apenas a determinação da Natureza, quer dizer, apenas a dramaturgia do determinismo, posto que as forças dos atores eram pura e simplesmente as forças naturais instintivas, eram apenas as forças determinantes do instinto, portanto, nelas não havia a menor injustiça quando o mais forte com sua força massacrava o mais fraco nem quando o mais fraco se juntava com outros para com suas fraquezas associadas ter forças para massacrar o mais forte. Nelas, em geral, vigorava a “lei” do mais forte, quer dizer, ele é quem dizia o que era “bom” e de “valor” e também o que era “mau” e “sem valor”, como nos ensina Nietzsche. Já Epicuro nos ensina que esses juízos e valores são próprios das sociedades sem justiça nem injustiça por serem sem contratos sociais. As sociedades que fazem contratos, pactos, constituições são aquelas que conhecem a justiça e a injustiça. E tais sociedades são resultantes da declinação, desvio ou clinâmen da determinação da Natureza ou do determinismo da queda em linha reta, ou seja, são sociedades resultantes da artificialidade/criatividade dos atores determinada ao acaso, quer dizer, por uma determinação resultante das invenções dos próprios atores. Portanto, as sociedades que conhecem a justiça e a injustiça, que fazem as leis etc. são sociedades determinadas pela imaginação dos atores ou pelo acaso das ações em torno de si mesmos feitas pelos atores.


As marcas que Nietzsche nos mostra da presença da lei do instinto ou do mais forte, quer dizer, do aristocrata naquilo que conhecemos como sendo o Estado, ele também mostra como sendo lei do instinto ou do mais fraco, quer dizer, do escravo naquilo que conhecemos como Sociedade Civil. No entanto, nos ensina Epicuro, que tais marcas pertencem à dramaturgia sem lei, sem justiça nem injustiça, do determinismo da Natureza e/ou do instinto, mas que aquilo que está presente sob o véu dessas marcas dessa dramaturgia determinista do instinto é a dramaturgia com lei, com justiça e injustiça, da determinação pelo acaso/imaginação e/ou pelo desejo dos atores presentes na dramaturgia. Aquilo que Nietzsche compreende como sendo uma corrupção, um adoecimento da saúde natural é compreendido por Epicuro como sendo uma geração, uma criação da saúde humana.


A democracia, como vimos acima com Nietzsche, é resultante, como vemos com Epicuro, da criatividade humana das sociedades humanas, quer dizer, daquelas sociedades que, ao contrário das simplesmente naturais, criam contratos, pactos, constituições, leis, justiça e injustiça.


Portanto, devemos desconfiar da leitura aristocrática que só vê corrupção na democracia e no mercado, posto que ambos nascem concomitantemente, e que defende como justo e incorruptível o Estado Aristocrático e Natural dos poderosos, dominantes e bem-nascidos. Por outro lado, também não podemos confiar na leitura servil que também só vê e só quer se beneficiar da corrupção da democracia e do mercado, não só por considerar que ambos nasceram concomitantemente, mas sim por considerar que é o interesse e o pragmatismo da corrupção aí presentes que torna a Sociedade Democrática e Própria dos fracos, dos dominados e malnascidos.



Noutras palavras, devemos desconfiar das leituras exteriores à determinação dos próprios atores da sociedade. Porque a leitura interna e própria dos atores da sociedade é aquela que supera e suprime estas marcas da determinação externa ou do determinismo da Natureza e/ou do instinto por se afirmar como determinação interna ou do determinismo do acaso/imaginação e/ou do desejo, ou seja, por se colocar por inteiro no campo do determinismo da sociedade que faz ela mesma a justiça e a injustiça, a lei, quer dizer, no campo da sociedade que é ela mesma socialista ou humana e não de classe ou natural.


Além disso, significa que temos de olhar para a crise atual e ver os aristocratas querendo dar golpe, os corruptos querendo que democracia e mercado sejam meramente corrupção e os socialistas querendo que a justiça e a injustiça bem como a democracia e a lei sejam resultantes da dramaturgia dos atores das sociedades que fazem contratos sociais, constituições, pactos e/ou criam a si mesmas ao acaso das ações mútuas de seus atores.



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Alguém, não sei quem, leu esta semana o último texto que postei em 7 de fevereiro de 2016 e na mesma semana alguém, também não sei quem, leu um texto que publiquei em 7 de setembro de 2015. Reli o de setembro e de fevereiro e concluo que eu já sei diferenciar com relativo grau de detalhamento entre um método que começa pela representação concreta do concreto e dissolvendo a representação do concreto chega aos princípios gerais abstratos e um outro método que começa pelos dissolvidos princípios gerais abstratos da representação e condensando os dissolutos princípios abstratos gerais chega na reedificação abstrata da representação do concreto.


O primeiro método é aquele pelo qual se começa e, por isso, pode ser considerado como o método do ingênuo, do iniciante, do discípulo, do aprendiz. Já o segundo método é aquele pelo qual se finaliza e, por isso, pode ser considerado como o método do crítico, do perito, do mestre, do profissional. Por isso que Marx chama o segundo de o método científico.


No primeiro método não só interrogamos ou investigamos a representação do concreto mas também todos os mestres e, em especial, aquele que é considerado o oráculo pelo saber que possui e nosso trabalho visa decifrar o concreto, então, nossa atividade para chegar ao segredo escondido do concreto é uma atividade de dissolução do concreto. No segundo método estamos de posse do segredo escondido do concreto e a partir dele nos dedicamos à reconstrução abstrata do concreto e também à reconstrução concreta do concreto por meio do uso da abstração ou do segredo escondido do concreto.


Esta relação pela qual todos precisamos passar é também a da passagem do aprendizado do conhecimento para a prática da sabedoria, passagem da atividade de apreender, decifrar, consumir o concreto para a atividade de praticar o apreendido, o decifrado, o consumido do concreto como prática, trabalho, elaboração do abstraído num concreto pensado. Portanto, se trata da passagem do apreender, decifrar, consumir para o elaborar, criar, produzir. Permanecer na primeira atividade e com o primeiro método depois de obter o resultado dessa atividade e método é permanecer aprisionado nos dissolutos princípios gerais abstratos ou é permanecer num mundo abstrato insensível. Avançar para o desenvolvimento da segunda atividade e do segundo método é sair do aprisionamento nos dissolutos princípios gerais abstratos e adentrar na liberdade de criar um concreto pensado ou é adentrar na liberdade de mudar o concreto representado num concreto pensado.


Mas, sabemos que o primeiro método é também aquele presente na tragédia do mítico Édipo e que o segundo método é aquele presente na tragédia do mítico Prometeu e ainda que na tragédia de Édipo é o saber oracular que se encontra fora de Édipo, enquanto que na tragédia de Prometeu é o saber oracular que se encontra representado por Prometeu e que Prometeu diz ter auxiliado Zeus a destronar seu pai Cronos e que Prometeu ainda anuncia que Herácles irá libertar Prometeu pondo em xeque o poder de seu pai Zeus, ou seja, Prometeu conta a história como uma sucessão de situações edipianas e, ao mesmo tempo, mostra que este seu saber oracular do caráter edipiano da historicidade é devido à elaboração prometeica da historicidade edipiana. Noutras palavras, Prometeu tal qual Freud anuncia a universalidade do "Complexo de Édipo", mas pratica a elaboração da singularidade da "Cura Prometeica".


O psicanalisando vai ao encontro do psicanalista que o apresenta ao Complexo de Édipo e, a partir daí, inicia a terapia visando a prática da elaboração da singular ou individual "Cura Prometeica" do psicanalisando, a qual, por sua vez, corresponde à libertação do psicanalista do seu aprisionamento no sistema oracular para um mundo humano.


Finalmente, fica claro que o meu problema é permanecer repetindo a descoberta dos princípios gerais abstratos e não abandoná-los por não me sentir capaz de me lançar na prática de elaborar o concreto pensado, na prática de trabalhar a síntese dos princípios gerais abstratos num concreto pensado, na prática de elaborar ou trabalhar a síntese de múltiplas determinações na concretização do concreto. Por outro lado, fica claro que, graças a minha leitura, das leituras dos leitores anônimos do que escrevi, pude avançar aqui na prática da elaboração duma síntese do epicurismo de Marx e de Freud.






domingo, 7 de fevereiro de 2016

A relação com a sensibilidade e com a insensibilidade

A relação com a sensibilidade e com a insensibilidade.


A princípio o ser é sensível e o não ser é insensível. No entanto, é possível duvidar que o insensível seja não ser argumentando que o sensível só conhece o ser sensível e quanto ao insensível ele não pode afirmar que é ser insensível ou não ser insensível porque só tem certeza de ser sensível.


Olhando para a própria história do vir à luz sensível ou do nascer é possível adquirir consciência que o próprio ser sensível saiu duma mãe e, antes, foi gerado pela relação sexual dessa mãe com o pai. É possível perceber ainda que a consciência não participa da geração, da gestação, do nascimento e dos primeiros anos de vida. Mais ainda, é possível perceber que, quando a consciência começa a participar e a estar presente com lembrança, essa lembrança é muito incerta, nebulosa, melhor, se confunde com fantasia, alucinação, sonho. E quando a lembrança é muito certa, clara e se mostra real, fato, vigília, então, também é possível perceber que aí a consciência que está presente e participa da lembrança é a mesma que nomeia a si mesma de eu.


Um período sem lembrança que é, então, totalmente inconsciente e outro período com lembrança incerta, nebulosa e que é considerado parcialmente inconsciente na forma de fantasia, alucinação, sonho. Este segundo período corresponde, melhor, equivale ao das cogitações da física quântica com seu princípio de incerteza ou indeterminação que afirma o predomínio da nuvem ou da nebulosa sobre o ponto claro e distinto. Já com o primeiro período surgem associações que tornam possível fazer equivalências entre os átomos e os espermatozoides e óvulos, bem como entre o encontro dos átomos no vazio originando a composição e o encontro do espermatozoide e do óvulo no útero originando o feto e, assim por diante, até o nascimento e primeiros anos de vida.


Essas comparações entre ser sensível inconsciente e atomismo até chegar ao ser sensível consciente e à saída do atomismo parecem reafirmar que só temos certeza do ser sensível. Do ser sensível inconsciente, em especial, os átomos e o vazio e os espermatozoides e os óvulos temos certeza da presença duma vontade ou desejo que os faz se encontrar e associar numa composição. Vontade ou desejo que pode ser determinada como encontro de dois átomos ou de espermatozoide e óvulo atraídos por uma queda em linha reta no vazio ou no útero, segundo o primeiro atomismo de Demócrito. Já o atomismo de Epicuro argumenta que a vontade ou desejo cuja determinação é a queda em linha reta no vazio faz os átomos permanecerem afastados uns dos outros em suas quedas em linha reta no vazio e o mesmo argumento é usado para o espermatozoide e o óvulo que caem em linha reta no útero, pois podem perfeitamente permanecer um ao lado do outro no útero quando a vontade ou o desejo que os determina for apenas o da queda em linha reta. Por isso, Epicuro ou Lucrécio, segundo os especialistas, seu discípulo romano, argumentou a favor de um movimento mínimo e próprio dos átomos e do espermatozoide e do óvulo de desvio da queda em linha reta no vazio, movimento este que tornaria possível aos átomos e ao espermatozoide e ao óvulo sair da posição paralela no vazio ou de lado a lado no útero e se encontrar, associar e combinar um com o outro no vazio e no útero. Quando, na física atual, a partir de Einstein, se diz que o espaço é curvo parece que é o mesmo pensamento, de uma vontade ou desejo que dobra o grave, que volta para tornar possível o encontro, associação e combinação do que é físico ou sensível.


A linha curva dos átomos e do espermatozoide e do óvulo durante sua queda em linha reta no vazio e no útero corresponde à afirmação da vontade ou desejo dos átomos e do espermatozoide e óvulo dentro da todo poderosa vontade e desejo da queda em linha no vazio e no útero. Essa pequena vontade ou pequeno desejo próprios do ser sensível é a vontade ou o desejo do vir a ser, enquanto que a grande vontade ou grande desejo exteriores do ser sensível é a vontade ou o desejo do não ser.


Com essa vontade ou desejo do vir a ser é possível vir à consciência da realidade em si, já apenas com a vontade ou desejo do não ser é possível permanecer inconsciente da realidade em si.


Resultado. Para a vontade ou o desejo do vir a ser a possibilidade de vir à consciência da realidade em si corresponde a afirmar o conhecimento ou a ciência da consciência de si, quer dizer, o autoconhecimento humano e não o da própria natureza em si, mas apenas porque esta natureza em si carece de consciência de si. Para a vontade ou o desejo do não ser a possibilidade de permanecer inconsciente da realidade em si corresponde a negar o conhecimento ou a ciência da coisa em si, quer dizer, o conhecimento da própria natureza em si porque ela permanece inconsciente de si.


Porém, este resultado não basta porque ambas posições afirmam ter consciência de si, consciência de ser sensível. Porém, a consciência de si de uma é resultante da própria vontade íntima que dobra si mesma para vir a si, enquanto que a consciência de si da outra é resultado da vontade externa que empurra e expulsa do inconsciente em si para a formação duma consciência para si. A primeira é uma consciência efetivamente de si no sentido de vir a ser consciência do próprio inconsciente ou autoconhecimento. A segunda é uma consciência efetivamente fora de si no sentido de não ser consciência da coisa em si ou auto-ignorância, quer dizer, no sentido de não ser consciência da coisa em si e sim consciência fora da coisa em si, melhor, consciência da coisa aparente ou consciência da consciência ignorante.


Prometeu pega o húmus da terra e dá forma, dá forma ao húmus ou dá forma humana. Porém, a criatura a que deu forma está sem autonomia, então ele rouba a centelha do céu e a dá para a forma humana. A fertilidade do húmus presente na forma humana faz germinar a criatividade que recebe da centelha e, desse modo, sua obra fica completa e a humanidade que formou se torna livre para agir a partir de si mesma. Isso que Prometeu faz como artista é o mesmo que o óvulo e o esperma fazem criando o feto humano. Tanto Prometeu quanto os princípios tratam de fazer a síntese que é a humanidade, o bebê humano.


Édipo mata o pai, casa com a mãe e dá origem a uma prole abominável. Édipo já foi sintetizado pelos princípios, mas ele quer fazer análise e, por isso, mata o pai para que o princípio espermático dele oriundo e que, no caso é o próprio Édipo, possa se associar com o princípio ovular, que no caso é a própria mãe, ou seja, é ele e não mais o pai quem tem relação sexual com a mãe, mas, assim, ele também expressa querer voltar para antes do seu nascimento, porém, isto não ocorre e da sua relação com a mãe nasce a tal prole abominável (monstruosa, vomitada, expulsa), quer dizer, não mais uma síntese propriamente dita e sim a busca de um encontro concreto dos princípios ou mais claramente a realização de uma análise propriamente dita dos princípios. Finalmente, auxiliado por um membro de sua prole abominável, sua filha Antígona, ele vai encontrar a recompensa que sempre buscou e que é o seu túmulo, junto ao túmulo de Teseu, num local secreto e sagrado em Colona, nos arredores de Atenas.


No “método da economia política” Marx diz que existem dois métodos aplicados na economia política. Diz que o primeiro é aquele que parte da representação ou do existente e por meio da análise chega a princípios gerais abstratos. E que o segundo é aquele que parte desses princípios gerais abstratos e vai se elevando até chegar à síntese da representação ou do existente, mas chegar a uma síntese pensada, uma síntese de pensamento. E conclui que este segundo método é método verdadeiramente científico.


Demócrito, que antecede historicamente Epicuro, usa o primeiro método no estudo do sistema do atomismo à maneira de Édipo. Já Epicuro usa o segundo método no estudo do atomismo à maneira de Prometeu. É isso que resulta da leitura da tese de doutorado de Marx sobre Demócrito e Epicuro.

















sábado, 6 de fevereiro de 2016

Inconsciente. Consciência. Superconsciência.













O ser sensível precede a consciência.
















Nossa sensibilidade é inconsciente e da sua existência ou atividade vital nasce, depois de um determinado tempo, a consciência/o eu. A consciência da sensibilidade ou a sensibilidade consciente conhece a si mesma, mas se limita a sentir, a perceber e a conhecer as manifestações para a consciência da sensibilidade inconsciente e não conhece a sensibilidade inconsciente em si mesma. As manifestações para a consciência da sensibilidade inconsciente mostram a presença na sensibilidade consciente de uma vontade inconsciente. Enquanto a sensibilidade consciente conhece a si mesma, quer dizer, a objetividade tal qual ela se mostra para a consciência, já a sensibilidade inconsciente permanece submersa em si mesma e só deixa vir à tona ou à consciência sinais, marcas, manifestações, perturbações, alterações que a vontade inconsciente faz na objetividade sensível tal qual a conhecemos conscientemente. Com a sensibilidade consciente temos acesso à objetividade tal qual ela se mostra para nós, mas com a sensibilidade inconsciente percebemos o acesso à objetividade, tal qual ela se mostra a nós, da vontade duma subjetividade tal qual ela se esconde em nós.
















Se chamamos a sensibilidade consciente de coisas para nós que podemos conhecer e a sensibilidade inconsciente de coisas em si que não podemos, então nos aproximamos da terminologia de Kant. Porém, as coisas em si da sensibilidade inconsciente ainda são sensíveis e acessíveis para nós e passíveis de conhecimento quando se manifestam ou se mostram para nós como presença duma vontade. Já as coisas em si da sensibilidade inconsciente que permanecem escondidas são insensíveis, inacessíveis e incognoscíveis para nós, ainda que, de repente, possam vir à tona. Entre estas coisas em si da sensibilidade inconsciente que, vez por outra, manifesta sua presença como vontade, e as coisas em si da insensibilidade ou do ser tal qual ele é em si independente e liberto da sensibilidade existe uma diferenciação da inconsciência.

















Diferenciação entre uma inconsciência ou inconsciente insensível e uma inconsciência ou inconsciente sensível. Essas coisas em si do plano da inconsciência ou inconsciente insensível foram chamadas por Kant de númenos e só aí a vontade pode ser inteiramente livre, alma imortal e divindade sem espaço nem tempo, já as coisas em si situadas no plano da inconsciência ou do inconsciente sensível foram chamadas de fenômenos porque aí a vontade já se encontra aprisionada ou encarnada na sensibilidade, na vida mortal e na natureza do espaço e do tempo. Porém, como o plano dos númenos só pode ser suposto como plano contrário ao dos fenômenos e como o plano dos fenômenos é aquele que aprisiona e encarna a vontade na sensibilidade, então surge a compreensão do plano da prática humana dos costumes ou dos comportamentos obedientes ou disciplinados pela encarnação duma determinada vontade como sendo aquele que, no plano dos fenômenos, não apenas supõe a vontade do plano dos númenos mas visa encarná-la como superconsciência, quer dizer, como consciência que transcende a si mesma ou o fenômeno do eu e situa além de si mesma ou no fenômeno do super-eu.

















Nietzsche situou o fenômeno da consciência ou do eu (consciência sensível) como ponte humana entre o animal (inconsciente instintivo) e o super-homem (superconsciência supersensível). Freud parece ter traduzido mais completamente o esquema de Kant com sua formulação do Id (isso ou coisa em si)/Inconsciente, Ego (consciência ou coisa para nós) e Superego (superconsciência ou supercoisa para nós, quer dizer, as suposições da coisa em si que são encarnadas como supervontade, lei, presença divina para nós ou encarnação da divindade em nós).



























segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O Sheik de Agadir




É preciso pensar a respeito dessa atividade de escrever para ninguém, já que raramente alguém se interessa pelo que escrevo. É uma escrita que não desperta diálogo no outro e, talvez, nem mesmo monólogo no outro. É uma escrita que se desenvolve sem saber se está promovendo um diálogo interno, um monólogo interno ou um silenciamento interno. É uma escrita para não ler, logo, apenas para sinalizar que alguém escreveu, alguém se deu ao trabalho de fazer aqueles desenhos próprios de uma escrita apenas para garantir que alguém existiu e não para que sua escrita seja lida. Como o personagem da novela deixava escrito para ser lido: 


                                                                  

                                         

                                  “Demian esteve aqui!”.