sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Vidas com a morte n'alma (1)




A morte é o tema permanente da provisoriedade da vida. A morte imortal, aquela que não pára de morrer nem pára de matar, deixa nos intervalos mortais as quantidades de espaços-tempos, quer dizer, as vidas mortais. Existem dois caminhos que, à maneira do antigo Tao dos chineses, acabam sendo a mesma coisa, quer dizer, o Tao. É possível observar a morte de toda a Natureza, perceber sensivelmente que tudo tem um tempo de vida e que a maioria dos fenômenos naturais se mostra como renovável sucessão de nascimentos, desenvolvimentos e mortes. Desse modo Lavoisier pôde dizer que "na Natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma". Com ajuda da imaginação é possível acompanhar a morte imortal, quer dizer, os fenômenos que não páram de morrer sob a forma de decomposições sem fim que vão até o infinito, até o infinitamente pequeno, até o indecomponível, o indivisível, o átomo (não-parte). Desse modo é possível concluir que a realidade objetiva e permanente é o mundo imperceptível e insensível dos átomos e que o mundo da percepção sensível da Natureza é pura aparência subjetiva e transitória. Portanto, a verdade da morte imortal são os átomos e o vazio e sua mentira a aparência subjetiva e transitória da percepção sensível da Natureza, quer dizer: A mentira da morte imortal é a vida mortal das percepções sensíveis da Natureza. Esta foi a conclusão à qual chegou o atomismo de Demócrito: Tudo que percebo é pura aparência subjetiva da vida mortal e tudo que racionalmente imagino é pura realidade objetiva da morte imortal, à primeira tenho acesso imediato mas é mera aparência e à segunda que é a pura realidade eu só tenho acesso imaginário, então o resultado é que minha prática é o ceticismo. Sou cego ou cético porque tudo que posso ver e tocar é falso, aparente e sou cego ou cético porque tudo que não posso ver nem tocar é verdadeiro. Epicuro, no entanto, diante da mesma situação de um mundo imperceptível e insensível dos átomos e do vazio e dum mundo da percepção sensível da Natureza chegou à conclusão oposta por considerar que a percepção sensível é pura realidade objetiva, logo, ela é objetivamente e/ou realmente transitória, provisória, transformável, enquanto que os átomos e o vazio são apenas imaginária e racionalmente concebíveis, quer dizer, são apenas conceitos subjetivos, logo, objetivamente e/ou realmente são apenas conceitos subjetivos, ou seja, a objetivação real da consciência de si do sujeito humano. Para Epicuro o mundo da morte imortal dos átomos e do vazio é realização objetiva da imaginação racional subjetiva, quer dizer, da consciência humana, da concepção humana, dos conceitos da consciência humana. É a mesma coisa que diz Demócrito dos átomos e do vazio, isto é, que eles existem na razão e são invisíveis e insensíveis. Então, qual a diferença? É que Demócrito quer alcançá-los dissolvendo a aparência subjetiva para poder atingir a realidade objetiva da razão, quer, portanto, a morte imortal. E Epicuro quer alcançá-los dissolvendo a realidade objetiva sensível e insensível para obter a construção da realidade subjetiva da razão, quer, portanto, a quase imortalidade vital da consciência humana, ou seja, a consciência humana da vida mortal que é a consciência humana de si. Enquanto a desindividuacão é o caminho ou o meio de Demócrito chegar à verdade, já é precisamente o oposto que é o meio ou o caminho de Epicuro para chegar à verdade: A individuação. Quem é mais atomista? Demócrito que dissolve tudo na universalidade dos átomos e do vazio ou Epicuro que dissolve tudo na singularidade da consciência humana?


Epicuro deixa os átomos e o vazio no mundo da morte imortal, inteiramente afastados da vida mortal, de modo que, para ele, eles morrem imortalmente como, aliás, ocorre com toda a Natureza de vida mortal e, assim, para ele, na vida mortal da Natureza só perdura e resiste como vida quase imortal aquilo que se encontra fora da Natureza mortal e fora dos átomos imortais e que é a consciência humana. Esta realidade subjetiva, esta singularidade fora da objetividade da Natureza mortal e da objetividade dos átomos imortais, esta realidade subjetiva exclusivamente humana se torna para Epicuro o verdadeiro princípio atomista, logo, é a consciência humana de si que se torna o princípio verdadeiro de Epicuro, portanto, seu princípio verdadeiro é a individualidade humana, melhor, a individuação humana. O átomo de Epicuro é a consciência humana de si. Mas, também não é esse o átomo de Demócrito? Também não é a consciência humana o único acesso real ao átomo, ao mundo dos átomos? Com certeza, até aí ambos concordam. Eles se separam quando decidem escolher quem é o verdadeiro: O caminho de acesso ou o que é acessado? A consciência que acessa o átomo ou o átomo que é acessado pela consciência? Epicuro escolhe a consciência do sujeito e Demócrito escolhe o objeto da consciência, um escolhe o sujeito consciente de si, o mundo humano, e o outro escolhe o objeto em si e para si da consciência, o mundo dos átomos e do vazio.


Demócrito pesquisa tudo e atravessa todo o mundo da percepção sensível com sua razão em busca permanente dos átomos e do vazio para além da aparência sensível. Epicuro cultiva um jardim (incluindo aí o significado de um pomar e duma horta) e nele permanece fruindo a percepção sensível dos seus odores, dos seus sabores e do convívio com os sujeitos que o cultivam junto com ele e com os sujeitos. que o apreciam junto com ele. Demócrito trata de ultrapassar e dissolver toda a aparência subjetiva para chegar à objetividade dos átomos e do vazio. Epicuro trata de cultivar toda a realidade objetiva para chegar ao cultivo da subjetividade de si mesmo. Um age de acordo com a desrealização da Natureza e o outro de acordo com a realização da Natureza. Um percorre o mundo inteiro, o outro permanece no seu jardim. Um é global, o outro é local. Um faz o incessante desenvolvimento de novos conhecimentos, de novos instrumentos de trabalho. O outro faz o repousante desenvolvimento das forças da Natureza e das forças humanas. Um é a indústria do mercado mundial e o outro é a agricultura do mercado local. Um é a artificialidade de novos fenômenos sensíveis, o outro é a naturalidade dos velhos fenômenos sensíveis. Na verdade, um é a artificialidade dos fenômenos sensíveis e o outro é a naturalidade das essências sensíveis.


Aquele que busca incessantemente os átomos e o vazio vai nesse percurso medindo, quantificando e classificando os diversos fenômenos e, desse modo, acaba determinando a objetividade deles, ou seja, ficando, para além da aparência subjetiva, com um mundo de objetos reais inteiramente medidos, certificados, determinados ou garantidos na sua objetividade e não com o mundo dos átomos e do vazio. Aquele que repousa continuamente no encontro consciente de si vai nesse descanso usufruindo de si e das qualidades essenciais da Natureza para si e, desse modo, vai dissolvendo a realidade objetiva e determinando a subjetividade das essências, ou seja, ficando, para além da realidade objetiva da Natureza, com um mundo de essências subjetivas inteiramente desmedidas, incertas, indeterminadas ou libertas na sua fantasia e não com o mundo da percepção sensível da realidade objetiva, mas sim com o mundo da consciência humana de si.


Um vai consumindo a aparência subjetiva em busca da realidade objetiva e, ainda que não encontre a realidade objetiva dos átomos e do vazio, ele encontra e determina a objetividade real de muita aparência subjetiva. O outro vai consumindo a realidade objetiva na construção da realidade subjetiva e, ainda que encontre a realidade subjetiva da consciência humana de si, ele também simplesmente suprime a realidade objetiva da percepção sensível.


"Tudo que é sólido se dissolve no ar". Se dissolve em átomos e vazio diz aquele que faz uma incessante revolução dos meios de produção. Se dissolve em consciências humanas de si diz aquele que faz uma perene conservação das forças produtivas naturais e humanas, quer dizer, uma perene supressão da produção natural e humana: Uma perene fruição da consciência humana de si.


Um concebe sua alma como de um ser para a morte. O outro concebe sua alma como uma morte do ser, melhor, concebe sua alma como a da morte para ser.



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