terça-feira, 25 de novembro de 2014
O sujeito da morte e a morte do sujeito (3)
A morte foi considerada por um discípulo como a essência da filosofia de Hegel. Sem a morte não há dialética, ou seja, sem ser-e-não-ser não há dialética.
Marx, um discípulo materialista de Hegel, considera que sair da filosofia para a prática, do idealismo para o materialismo, é sair do mundo filosófico dos mortos como vontade devoradora do mundo não-filosófico dos vivos dando vida prática à filosofia e suprimindo, melhor, dando morte teórica ao mundo, é uma troca onde a morte se torna viva e a vida se torna morta, a filosofia se torna mundo e o mundo se torna filosofia. A morte ou a filosofia se realiza como vida ou prática e o mundo se desrealiza (abstrai, dissolve, desmancha) como morte ou filosofia (teoria). Logo, se trata duma simples troca que é conduzida pela inveja que um tem do outro ou pela vontade devoradora de um voltado contra a vontade devoradora do outro.
A filosofia está situada no mundo da morte imortal e o mundo está situado no âmbito da vida mortal. A primeira quer a vida e a segunda quer a imortalidade, mas a vida que a primeira quer é mortal e a imortalidade que a segunda quer é a própria morte. Uma quer ser criação, a outra quer ser niilismo. Cada uma inveja o ser da outra. A morte imortal quer ser vida mortal e a vida mortal quer ser morte imortal. Uma quer a qualidade da outra e quer se livrar do seu defeito. A infinitude da morte imortal quer a finitude da vida mortal e a finitude da vida mortal quer a imortalidade da morte. Uma sai do niilismo para a criação e a outra sai da criação para o niilismo. Objetivamente apenas trocam de lugar, mas subjetivamente uma sai da morte para ganhar a vida e a outra sai da vida para ganhar a morte. Sair da universalidade infinita da morte imortal para entrar na singularidade finita da vida mortal é nascer. Sair da singularidade finita da vida mortal para entrar na universalidade infinita da morte imortal é morrer. Quem nasce é a vida e também é a vida quem morre. A vida é a singularidade finita da subjetividade que nasce e da subjetividade que morre. Melhor ainda: A subjetividade é a vida, mas não só a que objetivamente nasce e objetivamente morre, mas também a vida que subjetivamente quer nascer e subjetivamente quer morrer.
Não é suficiente ser vida mortal porque é preciso querer a vida mortal. Ora, sair do mundo dos mortos como vontade voltada contra o mundo dos vivos, quer dizer, sair do mundo da morte para ser vida mas por querer ser uma determinada vida e não aquela existente no mundo dos vivos porque ela é indesejável por parecer muito com o mundo dos mortos e, mais ainda, por nitidamente querer o mundo dos mortos. A vida aqui é uma vontade devoradora, uma mortalidade do mundo dos vivos, uma morte que adquire vida e vai devorando e, assim, vivendo até que definha e é devorada e morre. Já a morte é aqui uma vontade devoradora, uma imortalidade do mundo dos mortos, uma vida que adquire morte e vai se devorando e, assim, morrendo até desaparecer devorando tudo e se imortalizando.
Mas, qual é a singularidade do aspecto subjetivo desse processo de vir a ser o outro?!
É o querer ser vida mortal da filosofia. De modo que o mundo dos vivos que ainda quer ser vida mortal se beneficia da filosofia que quer ser prática, vida mortal, enquanto que o mundo dos mortos que ainda quer permanecer morte imortal se beneficia do mundo dos vivos que quer ser teoria, morte imortal. Devorar o mundo dos vivos para tornar o mundo ainda mais vivo e devorar o mundo dos vivos para tornar o mundo ainda mais morto. Liberar o nascimento das subjetividades no mundo dos vivos versus liberar a morte das subjetividades no mundo dos mortos. Libertar as subjetividades ou as forças humanas versus libertar a objetividade ou a força super-humana. Liberar e deixar viver as subjetividades para que venha a ser a humanidade ou a comunidade humana versus liberar e deixar morrer as subjetividades, os humanos, para que venha a ser o super-homem ou a universalidade imortal. Modificar as relações sociais para que venham a ser as subjetividades versus modificar as subjetividades para imortalizar as relações sociais.
Mas ambas posições podem se assemelhar. Por exemplo, ao par relações sociais de produção versus forças produtivas sociais pode corresponder com perfeição o par niilismo versus criação. Deixar viver as subjetividades criativas pode corresponder a deixar morrer as subjetividades niilistas e, desse modo, libertar a humanidade pode corresponder a libertar a super-humanidade. E isto precisamente porque é a subjetividade quem desempenha o papel principal em ambos os casos e ela pode vir a se transformar uma na outra e vice-versa. De modo que o critério do que seja vida criativa pode vir a variar nas situações finitas, nas singularidades, nas conjunturas.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário