terça-feira, 25 de novembro de 2014

Morte do sujeito, vida da subjetividade e subjetividade-e-sujeito da morte (4)



O tema da morte do sujeito foi figurado por Althusser e Foucault no fim do século passado e é o mesmo tema da morte do homem e do humanismo que Nietzsche inspirou com sua lembrança constante de que "Deus está morto" e, muito mais ainda, com seu anúncio do advento do super-homem e da morte do homem.


O tema surgiu e acompanhou o processo de dissolução do sujeito revolucionário, seja do proletariado, seja da URSS, seja das ex-colônias. Ou seja, acompanhou o processo de constituição do que ficou conhecido como neoliberalismo e globalização. E, curiosamente, os novos sujeitos são as mulheres, os negros, os índios, os homossexuais e também os trabalhadores e os pobres, ou seja, aquilo que se encontra presente nos chamados direitos humanos faz muito tempo, desde o surgimento da modernidade capitalista com a Revolução de Independência dos Estados Unidos e com a Revolução Burguesa Francesa e que é o direito humano de não sofrer nenhuma discriminação, seja religiosa, política, racial, sexual ou social. Ora, mas os tais novos sujeitos são na verdade os sujeitos dos direitos humanos nascidos e defendidos pela sociedade capitalista e tais velhos sujeitos da sociedade burguesa dão vida ao homem e ao humanismo.


No Brasil, por exemplo, este movimento de direitos humanos se constituiu em partidos políticos de oposição à ditadura militar e foi o PT aquele que conseguiu unificar e sintetizar os diferentes sujeitos dos direitos humanos num mesmo partido hegemonizado pelo direito do sujeito humano de não sofrer discriminação social ou de classe de modo que é esse direito social ou de classe que garante a reivindicação dos demais direitos de não sofrer discriminação política, religiosa, racial ou sexual. Os trabalhadores eram os sujeitos hegemônicos dos direitos humanos ao lado de outros sujeitos de direitos humanos, ou seja, eram os hegemônicos dentro do conjunto geral dos sujeitos humanos. Mais ainda: Os trabalhadores eram eles mesmos os sujeitos dirigentes do PT e não sofriam, como historicamente ocorrera com outros partidos dos trabalhadores, a enfermidade de perder a subjetividade a ponto de precisar que ela viesse de fora, viesse dos membros intelectuais burgueses do PT. No entanto, a verdade é que quanto mais cresceu o PT mais sua direção foi sendo hegemonizada pelos quadros políticos de origem intelectual burguesa e mais similar ele se tornou a um partido socialdemocrata europeu do final do século XIX, ou seja, portador da enfermidade que se desenvolve rumo à morte do sujeito. Mas, se é verdade que ele é portador dessa enfermidade também é verdade que a sua saúde e a saúde dos demais sujeitos humanos de direitos com os quais ele constituiu o partido não permite que a morte do sujeito se realize por completo de modo que a vida dos sujeitos humanos da sociedade capitalista permanece vigorando.


No mundo inteiro são estes novos velhos sujeitos humanos da sociedade burguesa que incessantemente aparecem fazendo as revoluções como as chamadas primaveras. São sujeitos das sociedades civis, dos movimentos civis, da vida humana civil burguesa. Sujeitos da vida capitalista e não sujeitos da morte capitalista. Eles, como sujeitos da vida capitalista, parecem muito mais próximos da morte do sujeito do que do sujeito da morte. Este sujeito da morte da vida capitalista é o sujeito da morte dos sujeitos da vida capitalista e também sujeito da morte do sujeito. Este sujeito da morte é uma chama devoradora dos sujeitos da vida e das mortes dos sujeitos. E como ele se constitui? Os sujeitos da vida capitalista terminam sendo a subjetividade capitalista, quer dizer, o sujeito capitalista. As mortes dos sujeitos da vida capitalista termina sendo a morte da subjetividade capitalista mas dum modo que institui uma objetividade sem sujeito, a qual, no fundo, é uma objetividade estrutural, cruel, enfim, capitalista. E o sujeito da morte? Ele é antes de tudo uma subjetividade da morte do capitalismo subjetiva e objetivamente. Ele é um sujeito que nasce no capitalismo mas que só pode se desenvolver devorando o capitalismo subjetiva e objetivamente. Se ele não devora o capitalismo ou quando ele não devora o capitalismo, então, ele, que nasceu no capitalismo, permanece nele em estado de dormência ou de mera subsistência, portanto, invisível, morto, quer dizer, permanece no mundo dos mortos, permanece no âmbito da morte e sem sair dela como sujeito, vontade ou chama devoradora da morte.

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