segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O Enigma da Esfíngie



"(...) quando o trabalho não for apenas um meio de viver, mas se tornar ele próprio na primeira necessidade vital (...) a sociedade poderá escrever nas suas bandeiras: 'De cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades!'"

Karl Marx

na "Crítica do Programa de Gotha"




As necessidades vitais são aquelas necessidades que precisam ser satisfeitas para que se possa viver. Quais são elas? Respirar é uma necessidade vital que é satisfeita imediatamente e se, assim não fosse, aquele que a fosse satisfazer por meio de alguma outra coisa antes de respirar morreria por ter ficado sem respirar, por ter ficado fora da necessidade imediata de respirar. Comer e beber, excetuando-se o mamar, são necessidades vitais que precisam antes da coleta, da caça e da pesca ou ainda da agropecuária e do tratamento da água para que seja filtrada ou potável, logo, são necessidades que requerem antes de sua satisfação os trabalhos de coleta, caça, pesca, agropecuária etc. como meios para alcançá-las (aqui apenas mamar é um trabalho de comer e beber ou é uma atividade de trabalho que se confunde com a própria necessidade vital de modo que é possível dizer que o trabalho de mamar é ele próprio a necessidade vital de mamar).


Respirar e mamar são necessidades vitais que são satisfeitas imediatamente com as atividades de respirar e de mamar, ou seja, nelas as atividades ou os trabalhos de respirar e de mamar se confundem com as próprias necessidades de respirar e de mamar de modo que é possível dizer que às capacidades de respirar e mamar correspondem as necessidades de respirar e mamar. Mas e se o trabalho, que compreende as atividades que vão desde a coleta e da caça e da pesca até à reprodução científica dos vegetais e dos animais, chegar a um ponto no qual a sua atividade de trabalho ou capacidade de realização corresponde à atividade da sua necessidade ou da sua necessidade de realização?


Nas atividades de respirar e de mamar capacidades e necessidades se correspondem de forma natural. Nelas, as liberdades de respirar e de mamar são idênticas às necessidades de respirar e de mamar. O trabalho como meio de vida não possui uma correspondência natural com as necessidades que satisfaz por ser ele um artifício que visa alcançá-las e isto precisamente por estarem elas separadas do trabalho. O trabalho como primeira necessidade vital possui uma correspondência natural imediata com as necessidades que satisfaz por ser ele parte inseparável da natureza interna destas necessidades vitais.


Nesse contexto, em lugar do trabalho ser um aprisionante meio de vida ele se torna afirmação natural da liberdade vital ou afirmação livre da natureza vital. Porque nesse contexto ele não é mais uma prisão, uma separação, um artifício, um meio de viver, uma sobrevivência e é sim uma liberdade, uma conjunção/um pertencimento, uma naturalidade, uma necessidade vital, um viver pleno.


Tudo isso está indicado por Marx, mas onde se vê isso sendo decifrado e desenvolvido? Onde se vê isso sendo realizado? Em parte alguma, em lugar nenhum e, especialmente, por nenhum daqueles que se dizem seguidores ou discípulos de Marx, de modo que, até mesmo entre os que defendem Marx, permanece vigorando a concepção do trabalho como um meio de vida, uma prisão, uma separação, logo, aquilo que podem efetivamente realizar ao defenderem o trabalho e os trabalhadores como meios de vida nada mais pode ser do que uma prisão e uma separação ainda mais completas, ainda mais totais.


E nós, aqui, conseguimos alguma coisa? Ao que parece nada conseguimos, exceto questionar e, talvez, despertar, quem sabe, aqui e ali, a necessidade vital do trabalho de decifrar e pesquisar as indicações de Marx. Uma coisa fica muito estampada, o trabalho como meio de vida é similar àquele que na Bíblia foi imposto ao homem por Deus ao ser expulso do paraíso e o trabalho como necessidade vital é similar à criação do paraíso pelo próprio ser humano.





sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Vida humana mortal-e-morte natural imortal



Decifra-me ou te devoro


decifro-te e me devoro

decifro-te e me devoras

decifro-te e te devoro

decifro-te e te devoras


decifras-te e me devoro

decifras-te e me devoras

decifras-te e te devoro

decifras-te e te devoras



Decifra-te ou me devoro


decifro-me e te devoro

decifro-me e te devoras

decifro-me e me devoro

decifro-me e me devoras


decifras-me e te devoro

decifras-me e te devoras

decifras-me e me devoro

decifras-me e me devoras







quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Decifro-te e me devoras!!!??? [V]




Qual é a primeira necessidade vital humana? A resposta pode ser respirar, já que um bebê saudável ou com o corpo em funcionamento "normal" precisa ao nascer antes de tudo de respirar. A segunda necessidade vital é satisfeita pelo bebê com o leite materno que fornece tanto água quanto alimento/comida para o bebê. O bebê também costuma entrar no mundo dos nascidos chorando e esperneando, se agitando todo, costuma, em seguida, alternar do choro para o riso, do sono para a curiosidade com movimentos corporais e dos olhos e experimentações dos sabores pela boca, costuma agarrar e soltar as coisas e fazer contínuos movimentos de braços e pernas como se fosse andar ou estivesse andando, melhor, correndo estando, no entanto, apenas deitado no berço ou no carrinho. Fazer cocô e arrotar são resultantes de se alimentar e respirar.


Quando, como diz Marx, o trabalho seria a primeira necessidade vital humana? Respirar é a primeira atividade vital humana ao nascer, supondo naturalmente que o pulsar do coração já está ativo desde antes do nascimento. Mamar é a segunda atividade vital humana, se não consideramos o choro que acompanha o início do respirar como parte integrante da primeira atividade vital humana. Depois de mamar, e mesmo durante, aparece o riso/alegria e, em seguida, o sono/paz/tranquilidade. Fazer cocô, urinar, arrotar, espreguiçar, acordar cheio de curiosidade/movimentos dos olhos, dos braços e das pernas para todos os lados. É aí nesse conjunto que se encontra o trabalho como primeira necessidade vital humana? Ou a definição do que seja trabalho precisa ser muito bem explicitada para que se possa conceber o trabalho na situação de primeira necessidade vital humana?!


Respirar é se relacionar com todo o mundo natural da vida. Mamar é se relacionar com a particularidade do mundo humano da vida, isto é, com a mama da mamãe de quem saiu o bebê. É esta relação do bebê com a mãe, esta intimidade corporal que é comparada à relação da força de trabalho com os meios de produção de modo que o leite materno resultante do mamar é comparado ao salário necessário à reprodução da força humana de trabalho. A série de atividades do bebê, que começa com o choro e o respirar, passa para o mamar e sorrir, para o sono e o despertar curioso cheio de movimentos dos olhos, braços e pernas, de experimentações pela boca, de agarrar e soltar com as mãos, é nesta série de atividades que se singulariza o bebê como força humana de trabalho? É aí que se situa a atividade de trabalho como primeira necessidade vital humana? Ou seja, esta série é comparável à série de atividades de confecção de instrumentos para coleta, caça, cultivo de vegetais, de animais e de ambiente humano?! Ou é a atividade de ver, sonhar ou alucinar a relação sexual dos pais como forma primeira de aparição da sexualidade genital do próprio bebê, isto é, sua primeira concepção do pênis/sêmen/força de trabalho e da vagina/óvulo/útero/meios de produção?! Onde, afinal, se situa a transformação do trabalho na primeira necessidade vital?!


Aliás, cabe perguntar o que é viver quando o trabalho se tornou a primeira necessidade vital?! Ele afirma nesse texto da "Crítica ao Programa de Gotha" que a força humana de trabalho é também uma simples força natural, ou seja, uma força natural ao lado de outras forças naturais. E qual é a primeira necessidade vital da força natural humana?!


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Utopia ou o quê?! [IV]




Desde a coleta e a caça que os humanos se diferenciam dos demais por produzirem instrumentos e usarem o fogo, mas, depois que eles descobrem como cultivar/domesticar a reprodução vegetal, animal e do habitat humano, eles entram num processo de exploração dos humanos pelos humanos que vai se desenvolvendo de diferentes formas até chegar ao modo de produção da reprodução vegetal, animal e da reprodução humana, ou seja, uma sociedade na qual o pênis e o sêmen são representados pela força humana de trabalho ou pela classe do proletariado e a vagina e o óvulo são representados pelos meios de produção ou pela classe burguesa/capitalista, consequentemente, como se fosse algo natural, o "ovo" e/ou a produção resultante da relação de produção destas duas forças de produção (a força humana de trabalho e as forças industriais dos meios de produção) passa a pertencer à classe mãe ou gest(ad)ora que é a dona dos meios de produção. Em geral, cabe a uma terceira classe ser dona das terras e esta originalmente impunha obrigações de pagamentos à burguesia (classe mãe) e de trabalhos ou serviços à prole camponesa ou ao proletariado (classe tutelada dos filhos). Esta terceira classe dá origem ao grande tutor que se sustenta e desenvolve a partir dos impostos e tributos que as duas outras classes, a classe mãe burguesa e a classe do filho proletariado, são obrigadas a pagar, ou seja, se constitui não só na classe dos latifundiários ou donos das terras da Nação, mas também na máquina de poder tutor do Estado(-Nação) e é representada como sendo a Lei do pai. A classe que efetivamente produz é a do proletariado, a classe que efetivamente se apropria da produção é a da burguesia e a classe, melhor, a máquina de tutela que efetivamente garante que, apesar das diversas mudanças nas relações das classes, permanecerá havendo continuidade e eterno retorno da relação de produção essencial das classes entre si é o pai Estado. É o pai Estado-Nação (dono das terras nacionais) quem interfere garantindo que a mãe burguesia permaneça dona dos meios de produção da reprodução geral e da produção resultante, mas também é quem interfere garantindo que o filho proletariado permaneça dono de sua força humana de trabalho e recebendo o salário justo ou efetivamente equivalente ao valor da reprodução de sua força humana de trabalho.


Aí podemos ver as três grandes classes apontadas por Marx na sua obra de crítica da economia política capitalista, a saber, a classe dos proprietários fundiários, a classe dos proprietários dos meios de produção e a classe dos proprietários das suas próprias forças humanas de trabalho. E elas correspondem perfeitamente aos três grandes tipos de consciências humanas de si nascidos na Grécia Antiga e que atravessam os diversos momentos históricos e que são os estóicos (proprietários fundiários), os céticos (proprietários dos meios de produção) e os epicuristas (proprietários de si mesmos ou das suas próprias forças humanas de trabalho). Aí podemos ver também como o grande tutor, a máquina do Estado, inverte a relação com a prole humana, já que esta inicial e naturalmente nada produz e é mantida pela mãe natural e pelo pai-marido da mãe natural, de modo que é a força humana de trabalho ou a chama devoradora do proletariado que tudo produz e mantém a contínua produtividade dos meios de produção da mãe artificial burguesa e do grande pai artificial de todos e marido artificial da burguesia ou mãe artificial. O complexo de Édipo presente nas relações familiares burguesas tem por pano de fundo estas relações invertidas entre a prole tutelada e o pai tutor e de ambos com a mãe tutora.


Quando é que a prole humana pode nascer sendo imediatamente produtora e responsável por si mesma? Aparentemente é a partir do surgimento do proletariado como classe social produtora, mas é preciso que a prole humana natural seja também imediatamente produtora e responsável por si mesma para que possa vir à tona e à existência efetivamente uma sociedade da humanidade comum, uma sociedade comunista ou dos proprietários comuns dos meios de produção e das terras, ou seja, uma sociedade sem classes sociais e sem (máquina de) Estado. Marx dizia isso na sua "Crítica ao Programa de Gotha" ao estabelecer que é só quando o trabalho se torna a primeira necessidade vital que surge a sociedade baseada no princípio de cada um segundo sua necessidade a cada um segundo sua capacidade.


Mas, isto é um sonho ou quimera que serve apenas para que os humanos continuem fazendo o eterno retorno das lutas e sociedades de classes, melhor, das diferentes versões da sociedade capitalista?!


O que é viver sem explorar?! Oikos?! Domesticação?! Economia?! [III]





O que é viver sem explorar? Como viver sem explorar? Como viver sem consumir o mundo como uma chama devoradora? Como mudar a estrutura do modo de vida explorador? Como mudar o poder explorador? Como se libertar do modo de vida explorador e do poder explorador?


Democracia, Socialismo, Comunismo, Ecologia dizem defender um viver livre, comum, sem exploração e com decidida cooperação. Mas, efetivamente vivem sem explorar?! Todos (Democracia, Socialismo, Comunismo, Ecologia) se dispõem a consumir o mundo como chama devoradora voltada contra ele. Todos estruturam um modo de vida explorador e um poder explorador.


Para viver é preciso respirar, é preciso beber água e é preciso comer. De um modo geral, os vivos respiram e bebem água em perfeita comunhão e sem matarem-se uns aos outros. Mas, na hora de comer tem início a matança de vegetais e animais. Os grupos humanos para comer começam fazendo a coleta de vegetais e a caça e a pesca de animais. E com essas atividades iniciam a confecção de instrumentos, feitos a partir das madeiras, das fibras e dos cipós dos vegetais e das pedras dos minerais. Os animais também coletam e caçam e, até mesmo, fazem instrumentos, mas apenas os humanos se diferenciam dos demais na produção de instrumentos e, especialmente, pelo uso do fogo, a chama devoradora, tanto na produção de instrumentos quanto para proteção do frio e de ataques noturnos, cozinhar e assar alimentos, mas, especialmente, para ver à noite uns aos outros e também para "anotar os sonhos, as imaginações", quer dizer, desenhar nas paredes de cavernas e dançar uns com os outros e, finalmente, para vivenciarem a si mesmos como fogos ou chamas devoradoras na atividade de copular. Das cópulas resulta a reprodução humana e é nela e por meio dela que se descobre que viver não é só consumir ar, água e alimento nem só produzir instrumentos mas também é reproduzir a própria espécie fornecendo alimento próprio e interno no caso da amamentação e alheio e externo no caso da coleta e da caça e pesca. Mas, a descoberta da reprodução não se limita à reprodução humana e a percepção da reprodução vegetal e da reprodução animal dá início à domesticação dos vegetais e animais, ou seja, à cultura dos vegetais ou à agricultura e à cultura dos rebanhos ou à pecuária. E, estas atividades agropecuárias, não só domesticam os vegetais e os animais como também viabilizam a construção das cavernas artificiais que são as habitações e os ambientes artificiais construídos pelos humanos. Este novo habitat artificial humano é resultante da descoberta e uso do processo de reprodução vegetal, animal e humana. O processo de domesticação é um processo de descoberta, uso, desenvolvimento e exploração centrada na reprodução vegetal, animal e humana.


Os produtos da reprodução humana são os filhos, melhor, é a prole humana. E esta se inicia no viver sendo alimentada pela amamentação e, em seguida, com os produtos da domesticação vegetal e animal, portanto, se inicia dentro do processo de domesticação. Esta prole inicialmente só consome os produtos da domesticação e, em seguida, ela passa a ser iniciada no processo de produção da domesticação (agropecuária e indústria do habitat humano) e é a partir daí que surge a base para a exploração da domesticação humana, isto é, surgem os tutores dessa prole humana que, além de a iniciar no processo de produção doméstico, passam a usá-la no processo de produção doméstica como fonte de produtos domésticos que possibilitam aos tutores "reproduzir" para eles mesmos a situação inicial da prole humana, isto é, a de ser alimentado pelo produtos domésticos e de usufruir dos produtos domésticos sem precisar participar diretamente da produção dos produtos domésticos, ou seja, estes tutores se descobrem e desenvolvem como pastores da prole humana desde o seu nascimento e desenvolvimento consumista improdutivo até chegar ao seu desenvolvimento consumista produtivo. E, é nesse momento que os tutores se beneficiam dos produtos do processo de reprodução de modo que consomem ou digerem os vegetais e os animais reproduzidos pela atividade agropecuária da prole humana de forma indireta, porque consomem os produtos resultantes do consumo da força de trabalho da prole humana. Eles não comem diretamente a prole humana, mas, indiretamente, eles comem ou consomem o excesso ou excedente da produção da força de trabalho ou da chama devoradora da prole humana.


O desenvolvimento desse processo de exploração da produção doméstica se faz por meio do desenvolvimento da luta de classes das sociedades de classes até chegar na sociedade de classes atual onde a força de trabalho ou a chama devoradora da prole humana se constitui na classe do proletariado ou de todos aqueles que só possuem sua chama devoradora ou força humana de trabalho, enquanto que os tutores ou os exploradores indiretos do processo de produção domesticado se constitui na classe da burguesia ou daqueles que possuem todos os meios de produção da reprodução vegetal, animal e do habitat humano, existindo ainda, sem ter tido sucesso total, aqueles que visam possuir os meios de produção da reprodução humana de modo a explorar as possibilidades de criação de super-homens e de "imortais", ou seja, de humanos "naturalmente" dominantes (de posse de todas as vantagens ou perfeições genéticas) e de humanos "artificialmente" imortais (de posse de todos os meios de conservação e renovação do corpo humano de modo a perdurar no tempo e mesmo superar a morte).


Mas, existe realmente um fim desse processo de exploração da produção doméstica? Existe um fim do desenvolvimento da luta de classes? Um fim da sociedade de classes? Estas duas classes atuais, o proletariado (de um modo geral é a classe de todos aqueles que vivem do salário) e a burguesia (de um modo geral é a classe de todos aqueles que possuem os meios de produção da reprodução vegetal, animal e do habitat humano) podem efetivamente desaparecer se e quando todos aqueles que vendem sua chama devoradora ou força de trabalho se tornarem proprietários dos meios de produção da reprodução vegetal, animal e do habitat humano e, por sua vez, todos aqueles que atualmente são proprietários dos meios de produção da reprodução vegetal, animal e do habitat humano se tornarem produtores diretos? Sendo proprietário dos meios de produção da reprodução geral o proletariado deixa de vender sua força de trabalho. Mas, e a burguesia se tornando produtor direto passa a vender sua força de trabalho? Se trata duma simples inversão de posição na estrutura atual e, portanto, da continuação da mesma em situação de eterno retorno? Para que a luta destas duas classes e para que a sociedade de classes delas desapareça é preciso que desapareça não só o trabalho assalariado mas também a propriedade burguesa ou tutelar dos meios de produção da reprodução geral, logo, não basta para o proletariado se tornar proprietário comum dos meios de produção (ou, como isto tem sido traduzido na linguagem do realismo político, se tornar proprietário público ou estatal dos meios de produção da reprodução geral), mas é preciso ainda destruir qualquer possibilidade de continuidade e reconstituição do trabalho assalariado (ou, como isto é inteligível na linguagem do realismo político, é preciso destruir o Estado ou qualquer tutela ou tutor que por meio do assalariamento retorne e reinicie a constituição e exploração do proletariado).



Viver é o eterno retorno do poder e do comportamento explorador do humano pelo humano ou é a mudança libertadora do eterno retorno do poder e do comportamento explorador do humano pelo humano, quer dizer, mudança liberta da exploração e do retorno da exploração?!


terça-feira, 2 de dezembro de 2014




O que é viver sem explorar? Como viver sem explorar? Como viver sem consumir o mundo como uma chama devoradora? Como mudar a estrutura do modo de vida explorador? Como mudar o poder explorador? Como se libertar do modo de vida explorador e do poder explorador?


Democracia, Socialismo, Comunismo, Ecologia dizem defender um viver livre, comum, sem exploração e com decidida cooperação. Mas, efetivamente vivem sem explorar?! Todos (Democracia, Socialismo, Comunismo, Ecologia)se dispõem a consumir o mundo como chama devoradora voltada contra ele. Todos estruturam um modo de vida explorador e um poder explorador.


Para viver é preciso respirar, é preciso beber água e é preciso comer. De um modo geral, os vivos respiram e bebem água em perfeita comunhão e sem matarem-se uns aos outros. Mas, na hora de comer tem início a matança de vegetais e animais. Os grupos humanos para comer começam fazendo a coleta de vegetais e a caça e a pesca de animais. E com essas atividades iniciam a confecção de instrumentos, feitos a partir das madeiras, das fibras e dos cipós dos vegetais e das pedras dos minerais. Os animais também coletam e caçam e, até mesmo, fazem instrumentos, mas apenas os humanos se diferenciam dos demais na produção de instrumentos e, especialmente, pelo uso do fogo, a chama devoradora, tanto na produção de instrumentos quanto para proteção do frio e de ataques noturnos, cozinhar e assar alimentos, mas, especialmente, para ver à noite uns aos outros e também para "anotar os sonhos, as imaginações", quer dizer, desenhar nas paredes de cavernas e dançar uns com os outros e, finalmente, para vivenciarem a si mesmos como fogos ou chamas devoradoras na atividade de copular. Das cópulas resulta a reprodução humana e é nela e por meio dela que se descobre que viver não é só consumir ar, água e alimento nem só produzir instrumentos mas também é reproduzir a própria espécie fornecendo alimento próprio e interno no caso da amamentação e alheio e externo no caso da coleta e da caça e pesca. Mas, a descoberta da reprodução não se limita à reprodução humana e a percepção da reprodução vegetal e da reprodução animal dá início à domesticação dos vegetais e animais, ou seja, à cultura dos vegetais ou à agricultura e à cultura dos rebanhos ou à pecuária. E, estas atividades agropecuárias, não só domesticam os vegetais e os animais como também viabilizam a construção das cavernas artificiais que são as habitações e os ambientes artificiais construídos pelos humanos. Este novo habitat artificial humano é resultante da descoberta e uso do processo de reprodução vegetal, animal e humana. O processo de domesticação é um processo de descoberta, uso, desenvolvimento e exploração centrada na reprodução vegetal, animal e humana.


Os produtos da reprodução humana são os filhos, melhor, é a prole humana. E esta se inicia no viver sendo alimentada pela amamentação e, em seguida, com os produtos da domesticação vegetal e animal, portanto, se inicia dentro do processo de domesticação. Esta prole inicialmente só consome os produtos da domesticação e, em seguida, ela passa a ser iniciada no processo de produção da domesticação (agropecuária e indústria do habitat humano) e é a partir daí que surge a base para a exploração da domesticação humana, isto é, surgem os tutores dessa prole humana que, além de a iniciar no processo de produção doméstico, passam a usá-la no processo de produção doméstica como fonte de produtos domésticos que possibilitam aos tutores "reproduzir" para eles mesmos a situação inicial da prole humana, isto é, a de ser alimentado pelo produtos domésticos e de usufruir dos produtos domésticos sem precisar participar diretamente da produção dos produtos domésticos, ou seja, estes tutores se descobrem e desenvolvem como pastores da prole humana desde o seu nascimento e desenvolvimento consumista improdutivo até chegar ao seu desenvolvimento consumista produtivo. E, é nesse momento que os tutores se beneficiam dos produtos do processo de reprodução de modo que consomem ou digerem os vegetais e os animais reproduzidos pela atividade agropecuária da prole humana de forma indireta, porque consomem os produtos resultantes do consumo da força de trabalho da prole humana. Eles não comem diretamente a prole humana, mas, indiretamente, eles comem ou consomem o excesso ou excedente da produção da força de trabalho ou da chama devoradora da prole humana.


O desenvolvimento desse processo de exploração da produção doméstica se faz por meio do desenvolvimento da luta de classes das sociedades de classes até chegar na sociedade de classes atual onde a força de trabalho ou a chama devoradora da prole humana se constitui na classe do proletariado ou de todos aqueles que só possuem sua chama devoradora ou força humana de trabalho, enquanto que os tutores ou os exploradores indiretos do processo de produção domesticado se constitui na classe da burguesia ou daqueles que possuem todos os meios de produção da reprodução vegetal, animal e do habitat humano, existindo ainda, sem ter tido sucesso total, aqueles que visam possuir os meios de produção da reprodução humana de modo a explorar as possibilidades de criação de super-homens e de "imortais", ou seja, de humanos "naturalmente" dominantes (de posse de todas as vantagens ou perfeições genéticas)e de humanos "artificialmente" imortais (de posse de todos os meios de conservação e renovação do corpo humano de modo a perdurar no tempo e mesmo superar a morte).


Mas, existe realmente um fim desse processo de exploração da produção doméstica? Existe um fim do desenvolvimento da luta de classes? Um fim da sociedade de classes? Estas duas classes atuais, o proletariado (de um modo geral é a classe de todos aqueles que vivem do salário)e a burguesia (de um modo geral é a classe de todos aqueles que possuem os meios de produção da reprodução vegetal, animal e do habitat humano) podem efetivamente desaparecer se e quando todos aqueles que vendem sua chama devoradora ou força de trabalho se tornarem proprietários dos meios de produção da reprodução vegetal, animal e do habitat humano e, por sua vez, todos aqueles que atualmente são proprietários dos meios de produção da reprodução vegetal, animal e do habitat humano se tornarem produtores diretos? Sendo proprietário dos meios de produção da reprodução geral o proletariado deixa de vender sua força de trabalho. Mas, e a burguesia se tornando produtor direto passa a vender sua força de trabalho? Se trata duma simples inversão de posição na estrutura atual e, portanto, da continuação da mesma em situação de eterno retorno? Para que a luta destas duas classes e para que a sociedade de classes delas desapareça é preciso que desapareça não só o trabalho assalariado mas também a propriedade burguesa ou tutelar dos meios de produção da reprodução geral, logo, não basta para o proletariado se tornar proprietário comum dos meios de produção (ou, como isto tem sido traduzido na linguagem do realismo político, se tornar proprietário público ou estatal dos meios de produção da reprodução geral), mas é preciso ainda destruir qualquer possibilidade de continuidade e reconstituição do trabalho assalariado (ou, como isto é inteligível na linguagem do realismo político, é preciso destruir o Estado ou qualquer
tutela ou tutor que por meio do assalariamento retorne e reinicie a constituição e exploração do proletariado).


Os vegetarianos exploram as fontes vegetais e os carnívoros exploram as fontes animais. Desse modo, se estabelece uma cadeia alimentar . A morte dos vegetais é vida para uns e a morte dos animais é vida para outros. Não é simplesmente a morte e sim a digestão dos mortos que aproveita os digeridos como fontes de energia vital. Então é a chama devoradora de vegetais e/ou de animais que garante a manutenção da energia vital da chama devoradora, ou seja, é a morte da energia vital alheia que garante a conservação da energia vital própria. Mas, a cadeia alimentar também é formada e estabelecida por um outro aspecto que é a reprodução dos seres vivos. É aí que a semente sai do fruto, cai na terra e "morrendo" dá origem ao processo de reprodução da espécie vegetal que originou os frutos e as sementes. É aí que de forma sexual o sêmen "morre" no óvulo dando origem ao "ovo" e nele ao processo de reprodução dos portadores de sêmens e óvulos oriundos de cada espécie animal. Se a primeira chama devoradora ou digestão é feita a partir da destruição das espécies em prol da conservação corporal da própria espécie, já a segunda digestão é feita a partir da "destruição" dos princípios vitais da própria espécie em prol da sua mutação em corpos da própria espécie.


É nesse processo de reprodução que o "comer" adquire um sentido novo, um sentido que não é o da exploração e sim o da criação ou produção da vida a partir da digestão dos próprios princípios vitais (sementes, sêmens, óvulos), adquire o sentido de cooperação criadora ou de autodigestão criadora, melhor, como encontro da chama devoradora duma espécie com a chama devoradora da própria espécie tendo por resultado a aparição duma nova chama devoradora da própria espécie, quer dizer, um aumento da própria espécie. Só aí cada espécie se relaciona com sua própria espécie como a fonte de sua própria vida (não me refiro, claro, ao canibalismo), só aí o alimento interno que reproduz a espécie não é uma exploração devoradora das espécies e do meio ambiente, mas, ao contrário, se mostra um devorar criador do desenvolvimento das espécies e do meio ambiente.


Quando o "comer" da chama devoradora é digestão dos demais para conservar a si mesma, aí a relação
é de supressão dos demais. E, quando o "comer" da chama devoradora é digestão de outra chama devoradora semelhante a si mesma, quer dizer, é digestão mútua das chamas devoradoras da mesma espécie no encontro duma com a outra, aí então a relação é de criação de mais chama devoradora da mesma espécie. Num caso, se faz a falta dos outros; no outro, se faz o excesso dos mesmos.


Este aspecto de ser o devorar criador do alimento interno desenvolvedor das espécies e do meio ambiente deu origem entre os humanos à agricultura e à criação ou cultura dos rebanhos. As fontes vegetais e animais de energia vital foram desenvolvidas nos seus processos próprios de reprodução para atender à chama devoradora dos humanos das espécies digeridas para conservarem a energia vital de seus corpos humanos. Mas também os próprios humanos ao se reproduzirem ou se cultivarem nos seus processos próprios de reprodução passaram a ser usados e explorados como fontes de energia no desenvolvimento da agricultura e da pecuária e na indústria artesanal a partir de matérias-primas da agricultura e da pecuária e da exploração e manipulação criativa dos minerais. Exceto nos casos de canibalismo que iguala o cultivo de rebanhos humanos com os dos rebanhos animais para digestão alimentar, a regra foi o uso e exploração dos rebanhos humanos nas atividades agrícolas, pecuárias, artesanais, industriais, extrativistas etc., de modo que enquanto essa prole humana gastava sua energia nas atividades de exploração produtiva, já os seus tutores humanos usufruíam do excesso produzido por essa prole humana.


A própria reprodução humana passou a ser explorada como forma de aumentar os cultivadores humanos da agricultura, da pecuária, do artesanato, da indústria. E, desse modo, o aumento populacional passou a significar o aumento da produção agrícola, pecuária, artesanal, industrial, extrativista, mas, ao invés desta produção aumentada ficar com a própria prole cultivadora da mesma ela vai para as mãos dos tutores da prole.


Viver é o eterno retorno do poder e do comportamento explorador do humano pelo humano ou é a mudança libertadora do eterno retorno do poder e do comportamento explorador do humano pelo humano, quer dizer, mudança liberta da exploração e do retorno da exploração?!


segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Quando e como?! [II]




Nunca pensei que chegaria nesse ponto: Morrer talvez seja a atitude mais saudável!


O que é viver atualmente? É ser esperto, manipulador, dominador, enfim, ser explorador. Isso é ser vivo, saudável. Mas, para quem? Para quem explora. E para quem é explorado? Isso é morrer, é adoecer, melhor, é ser morto, é ser adoecido. Que quem é explorado se levante contra o viver atual e dele queira se libertar parece algo muito aceitável e verdadeiramente saudável, afinal, quem quer viver adoecido e sendo morto dia a dia? Mas quando se levantar e se libertar do modo de vida atual se torna precisamente a atividade de praticar o modo de vida atual, quer dizer, a atividade de ser esperto, manipulador, dominador, enfim, de ser explorador?! Quer dizer, mas quando se levantar e se libertar de ser explorado significa apenas se tornar explorador?!


E não se trata aqui de meramente virar a casaca ou de trair o lado dos explorados passando para o lado dos exploradores. Se trata de verificar que o levante e a libertação dos explorados se afirmam unicamente como queda e prisão dos exploradores sob o domínio e exploração dos novos exploradores, que são precisamente os antigos explorados. E, nesse caso, o que passa a ser o novo viver, o novo modo de vida?! Não é uma mudança do anterior, uma transformação do anterior?! Não é uma revolução do modo de vida anterior que eleva quem estava abaixo e bota abaixo quem estava em cima?! Uma revolução que muda a classe que está no poder?! É tudo isso, com certeza, mas é, ao mesmo tempo, a conservação de um mesmo modo de vida estrutural. a conservação de um mesmo poder, ou seja, permanece sendo intacta e integramente o mesmo modo de vida estrutural que é a exploração, o mesmo poder que é o poder da exploração.



Desse modo, aquilo que se afirma no Manifesto do Partido Comunista: "(...) a história até aqui tem sido sempre a história das lutas de classes (...)" em lugar de apenas ter sido passa a ser, foi, é e será sempre, logo, o conceito mais apropriado não é mais o da emancipação da exploração do homem pelo homem e sim o do eterno retorno da exploração do homem pelo homem, melhor, o do eterno retorno do super-homem. E, para o super-homem, o homem é apenas uma ponte entre o animal e o super-homem de modo que o homem pode sempre ser subjugado e explorado, mais ainda, precisa sempre cair e ser explorado para que se erga e o explore sempre o super-homem.


Numa situação dessas é evidente que não há nenhuma saída do modo de vida dominante, o da exploração do homem pelo homem em prol do super-homem. Portanto, é nesse caso, que fica evidente não haver saída da doença para a saúde, mas, ao contrário, fica evidente que só há agravamento da doença ou passagem e continuidade duma doença para outra ainda mais profunda, portanto, repito, é nesse caso, que se coloca a possibilidade de ser, talvez, mais saudável morrer. Ora, na história do pensamento filosófico quem defende que o mais saudável é não ter nascido e, em segundo lugar, que ao ter nascido que o melhor é morrer logo, cedinho, é precisamente quem defende o eterno retorno da exploração. Ou seja, este critério de saúde, a opção pela própria morte, pelo aniquilamento, pelo niilismo é apresentado como solução pelos que defendem o critério da grande saúde como sendo o inerente à natureza exploradora que se desenvolve explorando desde sua natureza de simples animal até chegar à do complexo super-homem. Morrer é visto como mais saudável para deixar o caminho livre para os exploradores perseverarem no caminho da grande saúde da exploração que é viabilizar o advento do super-homem ou do eterno retorno da exploração.


Então, existe uma outra saída?! É possível deixar de ser explorado sem se tornar um explorador?! É possível o fim das lutas de classes e das sociedades de classes?! Quando e como?!