Porque é tão difícil usar a si mesmo como fonte? O que é preciso
fazer para conseguir usar a si mesmo como fonte para si mesmo?
"Se acrescentei em apêndice uma crítica da polêmica feita por
Plutarco contra a teologia de Epicuro é porque esta polêmica não é um fenômeno
isolado, mas representante de uma espécie: ela representa a relação do
entendimento teologizante para com a filosofia de maneira muito pertinente.
“Entre outras coisas, nós visaremos, na crítica, a falsidade geral
do ponto de vista de Plutarco, quando ele arrasta, para aí a julgar, a
filosofia para o fórum da religião. Não importa qual motivação possa ter
sucedido a David Hume nessa passagem: ‘É certamente uma espécie de injúria para
a filosofia de a constranger, ela cuja autoridade soberana deveria ser reconhecida em todos os
lugares, a defender sua causa a todo momento devido às consequências que ela
acarreta e a se justificar junto de toda arte e de toda ciência que ela venha a
chocar. A gente pensa então num rei que seria acusado de alta traição a
respeito de seus próprios assuntos. ”
Com esta citação, no prefácio de sua dissertação sobre o atomismo
de Demócrito e Epicuro, Marx situa a dificuldade e a ignorância de si mesmo
como fonte na acusação ‘de alta traição a respeito de seus próprios assuntos’
feita pela própria consciência de si mesmo, logo, ele a situa no embate entre a
filosofia que chega ao mundo inovando com seus assuntos e a filosofia
estabelecida no mundo que rejeita as inovações de seus assuntos alegando ser
ignorância e ‘alta traição a respeito de seus próprios assuntos’.”
Como se sabe esta é a situação de “Édipo-Rei”. Mas também é a
de outra figura trágica.
“A filosofia, enquanto ainda lhe reste uma gota de sangue fazendo
bater seu coração absolutamente livre que submete o universo, não deixará de
lançar a seus adversários o grito de Epicuro:
‘Ímpio não é aquele que faz tábua rasa dos deuses da multidão, mas aquele que adorna os deuses das representações da multidão’. [Dióg. X 123]
‘Ímpio não é aquele que faz tábua rasa dos deuses da multidão, mas aquele que adorna os deuses das representações da multidão’. [Dióg. X 123]
“A filosofia não se esconde. Ela faz sua a profissão de fé de
Prometeu:
‘Numa frase, eu odeio todos
os deuses’. [Ésquilo 975]
esta profissão de fé é sua própria divisa que ela opõe a todos os
deuses do céu e da terra que não reconhecem a consciência de si humana como a
divindade suprema. Esta consciência de si não tem rival.
“Mas, para os tristes senhores em júbilo ante o espetáculo da aparente
degradação da situação social da filosofia, ela dá a resposta que Prometeu deu
a Hermes, servidor dos deuses:
‘Saiba que eu não
trocarei minha miséria
pela tua escravidão.
do que ser o mensageiro fiel de Zeus,
teu pai!’ [Ésq. 966]
“Prometeu ocupa o primeiro lugar entre os santos e mártires no
calendário filosófico.
“Berlim, março de 1841.”
Então, quem serve os deuses e vive na escravidão, mesmo que pareça um Rei, é quem efetivamente comete ‘alta traição a respeito dos seus
próprios assuntos’ e quem só serve à própria consciência de si humana e vive na liberdade mesmo que pareça um miserável é quem revela sua autoridade soberana com a ‘alta fidelidade a respeito de
seus próprios assuntos’.
Aí no prefácio vemos, com clareza, Marx situar sua tese no
problema da acusação de ‘alta traição a respeito de
seus próprios assuntos’ nas duas figuras trágicas de Édipo e Prometeu que
correspondem às duas figuras dos atomistas gregos de sua tese, Demócrito e
Epicuro, respectivamente.
Mas, e eu porque tenho tanta dificuldade de usar a mim mesmo como
fonte?!
As duas figuras foram arrastadas ao fórum da religião e de Édipo
ficamos sabendo que cometeu alta traição a respeito de seus próprios assuntos
porque serviu fielmente aos desígnios dos deuses e viveu na escravidão fiel aos
assuntos dos próprios deuses. Já de Prometeu ficamos sabendo que cometeu alta
traição a propósito dos assuntos dos próprios deuses precisamente porque só
serviu fielmente à própria consciência de si humana e viveu na liberdade da
mais alta fidelidade a seus próprios assuntos.
Porque essa diferença? Marx nos informa que a teologia de Epicuro é a mesma da figura de Prometeu. Podemos
concluir que a diferença entre as duas figuras arrastadas ao fórum da religião
é uma diferença teológica. Desse
modo, podemos concluir que Édipo e Demócrito teologicamente enfeitam e, por isso, adoram os deuses das representações da
multidão, enquanto que Prometeu e Epicuro teologicamente
fazem tábua rasa e, por isso, odeiam os deuses das representações da
multidão. Também podemos concluir que ambas as teologias acreditam na existência dos deuses das representações da multidão.
“Os fantasmas dos maníacos e os que temos em sonhos são
verdadeiros e reais, já que movem e o que não é não move”. Diógenes Laércio
atribui essa compreensão da loucura aos epicuristas. Então, a questão não se
limita a crer na existência das alucinações e dos deuses, mas avança para
abranger o modo pelo qual se desenvolve as relações com as alucinações e com os
deuses. Logo, a questão se foca no modo de praticar a crença na existência das
alucinações e dos deuses porque ao se enfeitar e adorar as alucinações e os
deuses se enfeita e adora a angústia, a dor e o desprazer e quando se suprime e
odeia as alucinações e os deuses das representações da multidão então se
suprime e odeia a angústia, a dor e o desprazer. Como assim?
Édipo e Demócrito enfeitam e adoram tanto as alucinações e os
deuses que consideram que vivemos na consciência aparente e que toda a
realidade na qual vivemos é uma aparência que, tal qual uma alucinação, encobre
a realidade tal qual ela verdadeiramente é. Então, com tal adoração eles acabam
por inverter o que é realidade e o que é alucinação, o que é real e o que é
virtual.
Prometeu e Epicuro suprimem e odeiam tanto as alucinações e os
deuses que consideram que vivemos na consciência real e que toda a realidade na
qual vivemos é tal qual ela é verdadeiramente, tal qual uma percepção sensível
percebe sensível e efetivamente a realidade tal qual ela é e não tal qual
fantasmagórica e alucinadamente ela parece ser exclusivamente para nós. Podemos
concluir também que estes lutam pela consciência de si humana comum e contra a
consciência de si humana privada que acaba privada de consciência de si,
enquanto que aqueles lutam pela consciência de si humana privada e contra a
consciência de si humana comum que acaba na comunidade da consciência de si
alucinada e divina.
Enfim, porque eu tenho tanta dificuldade
de ser minha própria fonte?!
Será que é por não compreender a relação com a divindade como relação com o imaginário, com a imagem presente como fantasma, angústia, inconsciente do ser sensível?! A divindade é o inconsciente?!
Será que é por não compreender a relação com a divindade como relação com o imaginário, com a imagem presente como fantasma, angústia, inconsciente do ser sensível?! A divindade é o inconsciente?!
["... Deus é aquilo que me falta para compreender... o que eu não compreendo! - Raul Seixas"]
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