sábado, 30 de maio de 2015

Sentidos e destinos trágicos: Emancipação e Menoridade








"Monstro, criatura, escravo, prisioneiro etc. é essa minha condição e eu a detesto e eu a adoro porque dela não tenho saída. Kant queria que o homem usasse seu raciocínio para sair da menoridade e mostrava que por toda parte ele não encontrava senão indivíduos que recusavam e negavam o uso do raciocínio para sair da menoridade, ele descreve seu encontro com diferentes profissionais (pastor, padeiro, mercador/comerciante etc.) que recusam o uso do raciocínio, mas diz também que encontrou um que aceita o seu uso do raciocínio para sair da menoridade desde que ele o obedeça (o governante/também chamado de déspota esclarecido e que era o soberano iluminista). Pois, até hoje, é esse soberano/tirano/ditador iluminista (Édipo-Tiranos, como mostrou Foucault em 'A Verdade E As Formas Jurídicas', era o título original da tragédia de Sófocles) que permanece o modelo dos revolucionários, mas, não como a tragédia ensinou com a atitude de renúncia/abdicação do poder feita por Édipo, nem como Marx apreendeu ser a trajetória do príncipe proletariado: tomada do poder, estabelecimento da ditadura que destrói a máquina do estado e renúncia/abdicação/fim do estado/da ditadura/da tirania e instituição da liberdade da comunidade humana." 



Tudo indica que há um erro gritante na primeira frase grifada e em negrito acima porque a história recente diz precisamente o contrário, porque o modelo revolucionário da revolução russa realiza efetivamente a atitude de renúncia/abdicação do poder feita por Édipo gritando sim para o que a tragédia ensinou. Com efeito, o fim da URSS só ocorreu quando os poderosos da URSS assumiram a renúncia ou abdicação do poder tal qual Édipo fez. No entanto, a abdicação de Édipo deixou as instituições existentes intactas de modo que o Estado que existia com Édipo no poder continuou a ser o Estado existente mas sem Édipo no exercício do poder. No entanto, na atualidade, parece existir uma interpretação da segunda frase grifada e em negrito destacada acima porque o resultado do modelo revolucionário russo corresponde não à realização efetiva dessa segunda frase e sim à realização efetiva duma interpretação dessa segunda frase acima, porque se não realizou efetivamente a tomada do poder, o estabelecimento da ditadura que destrói a máquina do estado e renúncia/abdicação/fim do estado/da ditadura/da tirania e instituição da liberdade da comunidade humana, então, realizou sim a tomada do poder, o estabelecimento da ditadura que expande e desenvolve a máquina do estado como totalidade e a renúncia/abdicação/fim da máquina do estado como totalidade da sociedade e redução da máquina do estado à parte dirigente da sociedade/fim da ditadura e redução do poder aos limites da democracia liberal/fim da tirania econômica da totalidade do estado e redução da economia ao poder e exercício do liberalismo do mercado; noutras palavras, esta interpretação que efetivamente se realizou corresponde à frase presente na 'Ideologia Alemã', segundo a qual, "a implantação do comunismo em países de desenvolvimento econômico atrasado tem por resultado o retorno avançado do capitalismo". Então, o aprendizado foi sim o daquilo que a tragédia ensinou, aliás, talvez, precisamente por isso, Nietzsche tenha entrado em alta na época que esta lição se realizou efetivamente. O comunismo real ou realmente existente não passa de um instrumento, meio ou ferramenta para implantar, gestar e dar à luz o capitalismo desenvolvido e não o tão desejado e propagandeado comunismo. E acredito não haver dúvidas de que o ocorrido foi uma tragédia, já que a longa duração no tempo bem como os diversos sofrimentos e momentos de heroísmo e de vilania não deixam espaço para o riso duma comédia, exceto, para a alegria dos dionisíacos que é feita da tragédia!!!


Kant propunha a saída da menoridade pelo uso da razão via emancipação política, aliás, ele observava que na sua época, a do iluminismo, apenas o déspota esclarecido aceitava sua proposta de saída da menoridade pelo uso da razão, mas, acrescentava que este déspota esclarecido, tendo consigo o poder das armas ou de polícia, exigia a obediência. E Kant desenvolveu sua filosofia do uso da razão prática da liberdade como filosofia do uso da razão prática do dever, ou seja, a liberdade imaginada e desejada pela razão no seu uso ou na sua prática se realiza efetivamente como dever. Desse modo, o homem que adota a filosofia da razão prática da liberdade de Kant é um homem praticante do seu dever, um homem realizador de tarefas. A prática da liberdade se dá sob determinadas condições de possibilidade de modo que o homem consciente do uso prático de sua liberdade é aquele consciente de que sua prática e seu uso no cumprimento do dever é a realização efetiva da liberdade. Mas, ele entende de forma séria, honesta e trágica, ou seja, não se trata para ele da mera obediência às condições exteriores de possibilidade de realização da liberdade, quer dizer, não se trata para ele apenas de se dobrar e obedecer o que quer impor uma vontade exterior e sim de realizar sua vontade interior, de efetivá-la apesar das condições exteriores mostrarem que ele está agindo exteriormente de forma obediente e não livre. É algo assim: Ele estabelece livremente no seu íntimo a prática da liberdade tal como Édipo estabeleceu livremente a condenação ao ostracismo para aquele responsável pela Peste de Tebas, ou seja, Kant estabeleceu livremente agir de forma a não prejudicar ninguém, quer dizer, de modo a não prejudicar aos demais nem a si mesmo, logo, estabeleceu agir livremente de acordo com a lei moral, de acordo com o cumprimento do dever moral, enquanto que Édipo, ao descobrir que ele é o responsável pela Peste de Tebas, cumpre a condenação que havia estabelecido antecipadamente, renuncia e expulsa a si mesmo de Tebas. 


Quase ninguém mais estabelece livremente no seu íntimo a prática da liberdade como a prática do dever na objetividade, quase ninguém estabelece a prática da liberdade no seu íntimo como a prática que se realiza na objetividade como dever, como tarefa, quer dizer, como um trabalho, uma produção de realidade efetiva na objetividade. O que não significa, de modo algum, que muitos não estabeleçam suas práticas das liberdades como tarefas, como trabalhos, como produções, como deveres. A diferença é que as tarefas, trabalhos, produções, deveres destes últimos se reduzem a meros meios que são abandonados e substituídos por outros ou usados e praticados de forma meramente exterior, cínica e farsante, quer dizer, sem que se considere, nesses abandonos e substituições, nenhuma consequência para o uso e a prática da liberdade íntima, nenhuma tragédia. Pelo contrário, apenas se considera que o uso pragmático de diferentes tarefas, trabalhos, produções, deveres tem por resultado a obtenção e fruição de maior liberdade para fazer tais usos instrumentais, apenas se considera o uso pragmático de instrumentos ou meios de produção como obtenção e fruição de maior liberdade íntima. Então quanto maior o uso pragmático de tudo e de todos como meios ou instrumentos de produção maior a liberdade pragmática do usuário.


Esta interpretação do uso pragmático de todos os meios para a realização de seus fins, esta interpretação do uso pragmático e sem limites de todos os meios para a realização sem limites da sua liberdade pragmática difere muito do projeto de Kant. Mais do que isso é antagônica. Porém, eis o problema: Esta atitude que trata tudo e todos como menores em nada contribui para a saída da menoridade, pelo contrário, esta atitude não percebe que trata seu próprio agente ou autor como quem não sai da menoridade porque, afinal, ela não age de maneira que liberta os demais ou que cria a liberdade para os demais e sim de maneira que simplesmente usa os demais ou que cria a manipulação ou a escravidão dos demais e, por isso mesmo, ela também não cria para seu próprio autor/agente a realização efetiva de sua liberdade íntima e sim a realização efetiva do seu escravismo íntimo, de modo que a liberdade do escravocrata, do senhor nada mais é do que a escravidão do escravizado, do escravo, melhor, dos manipulados, dos usados, dos reduzidos a objetos. Esta interpretação abandona e substitui a dimensão íntima de desenvolvimento do agente/do autor, aquela que se ocupa com a sua própria atividade, com sua própria capacitação, com sua própria força de trabalho para realizar tarefas, trabalhos, produções, deveres, ou seja, precisamente aquilo a que Kant se mantinha fiel visando sua efetivação real, seu crescimento ou desenvolvimento efetivamente real. Esta interpretação abandona e substitui o principal, o próprio princípio da libertação, ou seja, o uso da razão para sair da menoridade, para crescer ou se desenvolver e alcançar a maioridade, cujo significado é o uso e a prática responsável da sua própria liberdade/razão, logo, não é o uso irresponsável dos demais.


O pior de tudo é que aqueles que se apresentam e se pretendem revolucionários que lutam contra a exploração do homem pelo homem são precisamente aqueles que há tempos fazem precisamente o contrário recorrendo a esta interpretação do uso pragmático de tudo e de todos como meios instrumentais de produção da "liberdade".


Com uma tal concepção quem quer sair da menoridade? Quem quer alcançar a maioridade e ser responsável por si mesmo, por seu uso da razão/da liberdade? Com uma tal concepção, que é a que vemos por toda parte, ninguém quer sair da menoridade e, ilusoriamente, todos consideram que a prática do crime é a prática da liberdade.


O primeiro passo para sair da menoridade, para caminhar rumo à maioridade, para rumar para a libertação humana é admitir que, por todo lado, nos encontramos na menoridade e que precisamos cuidar de nossa energia para tarefa, força de trabalho, capacidade de produção, vontade de dever, ou seja, de nosso real desenvolvimento íntimo e subjetivo, de nosso real crescimento que faz a real passagem da menoridade para a maioridade.


O "jeitinho brasileiro", o "gosto de levar vantagem em tudo", o "para os inimigos a lei e para os amigos tudo", o "pragmatismo", o "revolucionário na prática", a "prática na real", enfim, tudo que se reduz ou é reduzido à menoridade, ao puro e simples egoísmo, à eterna e imutável lucratividade da natureza humana não expressa em parte alguma qualquer possibilidade real de emancipação humana da menoridade ou de emancipação da menoridade humana.


Será que é por isso que a libertação do capitalismo só é possível em países de capitalismo avançado? Será que esta libertação que se identifica inteiramente com a menoridade ou escravidão é "normal e inerente" aos países de capitalismo atrasado? Ou será que, hoje, mesmo em países de capitalismo avançado todo processo de libertação e revolução está inteiramente identificado como processo de livre desenvolvimento da menoridade humana ou da humanidade menor?! O sucesso do terrorismo por toda parte tem alguma relação com a ideia da menoridade ou da escravidão, segundo a qual a prática do crime é a prática da liberdade? Relação com a ideia de ser a liberdade um crime, de ser a liberdade a prática do crime e de ser impossível a liberdade ou a libertação sem a prática do crime?! 




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