Monstro, criatura, escravo, prisioneiro etc. é essa minha condição e eu a detesto e eu a adoro porque dela não tenho saída. Kant queria que o homem usasse seu raciocínio para sair da menoridade e mostrava que por toda parte ele não encontrava senão indivíduos que recusavam e negavam o uso do raciocínio para sair da menoridade, ele descreve seu encontro com diferentes profissionais (pastor, padeiro, mercador/comerciante etc.) que recusam o uso do raciocínio, mas diz também que encontrou um que aceita o seu uso do raciocínio para sair da menoridade desde que ele o obedeça (o governante/também chamado de déspota esclarecido e que era o soberano iluminista). Pois, até hoje, é esse soberano/tirano/ditador iluminista (Édipo-Tiranos, como mostrou Foucault em "A Verdade E As Formas Jurídicas", era o título original da tragédia de Sófocles) que permanece o modelo dos revolucionários, mas, não como a tragédia ensinou com a atitude de renúncia/abdicação do poder feita por Édipo, nem como Marx apreendeu ser a trajetória do príncipe proletariado: tomada do poder, estabelecimento da ditadura que destrói a máquina do estado e renúncia/abdicação/fim do estado/da ditadura/da tirania e instituição da liberdade da comunidade humana. Bom, Kant propunha a saída da menoridade pelo uso da razão, quer dizer, propunha a emancipação ou libertação política ou saída da menoridade. Marx pretendia ir além propondo a saída da menoridade social e não mais tão só da menoridade política, de modo que os praticantes de diferentes atividades profissionais, em especial, os praticantes do chamado trabalho manual ou do trabalho em geral fizessem uso da razão e saíssem não só da menoridade política, mas, principalmente, da menoridade social acabando com o Estado.
O que querem os menores infratores? Sair da menoridade?! Não! Querem o uso de sua menoridade como justificativa de sua irresponsabilidade na prática dos crimes. E os índios? Também são considerados inimputáveis como os que se encontram na menoridade criminal. O mesmo ocorre com os loucos que também são considerados inimputáveis. O mesmo ocorre ainda com os interditos. Nenhum desses pode ser punido com o crime de responsabilidade, isto é, com aquele crime que faz o impedimento dos presidentes da república. Tampouco podem sofrer as mesmas penas que um criminoso "de maior". O que quer a direita? O fim da menoridade criminal ou, pelo menos, sua redução e isto para afirmar o quê? O uso do raciocínio pelo menor?! Ou a obediência?! Querem o mesmo para os índios, o fim de sua inimputabilidade. Muito provavelmente querem o mesmo para os loucos e os interditos. O que quer a esquerda? Continuidade das leis de modo que se criem condições educacionais para que os menores usem seu raciocínio; que os índios tenham suas terras demarcadas nas quais podem valer o uso do raciocínio à altura de sua cultura; que os loucos convivam em ambientes sociais que compreendam a diferença deles em relação aos normais; que os interditos tenham espaço para usar e praticar os graus de raciocínio que alcançam.
Na prática menores, índios, loucos, interditos querem usar/praticar sua irresponsabilidade, sua diferença, sua liberdade em relação aos demais. Se alguém consegue o diagnóstico de louco, então se sente livre para cometer homicídio, quero dizer que existe quem queira o diagnóstico de louco ou interdito para poder cometer o homicídio que deseja cometer.
Quem quer sair da menoridade? Os menores não querem e procuram aproveitar ao máximo sua menoridade para a prática livre do crime. Os maiores querem a aliança com os menores para que os crimes possam ser assumidos e cometidos pelos menores. Mas, quando se tornam maiores mesmo, o que querem? Se livrar das punições e penas de seus crimes e não propriamente da prática dos crimes. Fazer um pé de meia para se afastar da vida do crime via abertura de empreendimentos que legalizem seus crimes e os deixem em paz com a justiça. O que fazem os maiores normais? Pelo que se vê no mundo político e empresarial usam o poder e as leis para praticar crimes, em especial, os de corrupção. Obediência às leis é um faz de conta, desde as do trânsito até às do direito à vida. O uso do raciocínio não é para sair da menoridade, se menoridade for entendida como incapacidade de deixar de olhar para seu próprio umbigo, mas, ao contrário, é usado pelos ditos normais para desobedecer a tudo e fazer apenas o que é do seu interesse e em seu próprio interesse. Aproximação de uma conclusão: Vivemos em condições sociais e culturais que por toda parte só querem efetivamente a menoridade, talvez, porque também só querem o seu egoísmo, o seu êxito, a sua ascensão de classe; de todo modo, o que se quer é ficar à sombra da lei, à sombra do Estado, é um mundo às sombras da lei e do Estado iluministas/iluminados. O cinismo, a comédia e a tragédia de um mundo de leis e regras que permanece de acordo com a máxima: "As regras ou leis existem para serem quebradas!" porque isto é considerado como a conquista da maioridade, da liberdade, do uso livre do raciocínio/da razão. Vivemos no obscurantismo iluminista ou no iluminismo obscurantista.
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